Redescobrir o Sacramento da Penitência
A penitência: recuperar a experiência
de “misericórdia”
Andrea
Grillo
Teólogo italiano
Professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma,
do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do
Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina,
em Pádua
Uma questão, ainda,
aberta pelo Concílio Vaticano II:
renovar o Sacramento
da Penitência

Com um texto eficaz publicado na
última edição da revista Il Regno (disponível aqui,
em italiano), Ladislas Orsy apresenta de modo sintético uma das questões
abertas após o Concílio Vaticano II: a reavaliação da “disciplina
penitencial”. E o autor, do alto de uma longa experiência, pode facilmente
indicar não só o desenvolvimento histórico do “sacramento da misericórdia”, mas
também as expectativas sucessivas ao Concílio Vaticano II (largamente
desatendidas) e também as possibilidades abertas no futuro próximo.
Parecem-me apreciáveis a clareza e
a parresia [em grego = franqueza] com que o autor expõe muito
abertamente os modelos históricos do sacramento e a exigência de reforma que
o Concílio fez surgir com clareza. De fato, ele escreve no início do seu
texto: “O Concílio julgou que o atual rito e as fórmulas exteriores são
expressões inadequadas do dom interior da graça e, por isso, o Concílio pediu
que a Igreja busque uma configuração melhor para a administração de sacramento”.
Uma configuração melhor do
sacramento, entretanto, não é simplesmente uma operação disciplinar. Também não
é apenas uma questão litúrgica. Mas é uma questão doutrinal. O anseio
“pastoral” do Concílio nos pede uma renovação do modo com que pensamos
sistematicamente o sacramento da confissão. Por isso, o modo de administrá-lo,
que precisa de uma grande reavaliação, não pode deixar de corresponder a uma
“doutrina” mais adequada do próprio sacramento. Sobre esse ponto, a segunda
parte do texto de Orsy é mais uma narração do que uma teorização. E,
como narração, revela coisas de grande importância, mas também esconde questões
igualmente urgentes.
De fato, a “solução” proposta
parece uma espécie de “mediação” entre o segundo e o terceiro capítulo do atual
rito. Em essência, seria uma celebração da confissão comunitária, mas com
absolvição individual, embora com confissão não específica e analítica e,
portanto, pública e não secreta.
Essa proposta, que certamente
intercepta uma série de reivindicações presentes no contexto eclesial e social
de hoje, porém, parece-me não corresponder à questão central, ou seja, ao
significado teológico do sacramento para a cura do batizado. Aqui, parece-me
que a proposta permanece largamente aquém daquilo que parece ser não só
necessário, mas até, eu diria, suficiente. Tento explicar melhor essa minha
perplexidade e o faço esquematicamente, de acordo com uma série de proposições:
a) Os
“sacramentos da misericórdia” são, acima de tudo, batismo, crisma e eucaristia.
O sacramento da confissão é um sacramento para “recuperar uma experiência da
misericórdia” que eu já devo ter conhecido, de uma forma muito maior, na
celebração eucarística dominical.
b) Portanto, a
função do “sacramento da confissão” é de levar novamente o sujeito batizado,
que entrou em uma crise grave, a reencontrar a experiência da misericórdia de
Deus. Nisso, portanto, é renovado o dom do perdão (que não é típico desse
sacramento), mas com a especificidade de um “trabalho do sujeito”, que responde
ao perdão renovado de Deus com a sua palavra, com o seu coração e com o seu
corpo.
c) Se o
lermos desse modo, o sacramento tem o seu perfil mais típico no fato de “cuidar”
da resposta do pecador arrependido à graça que Deus renova sobre ele. Por
isso, não existe nenhuma “absolvição geral”, nem uma “confissão geral”, nem um
“arrependimento geral” ou uma “penitência geral”, exceto em casos-limite.
d) Isso não
significa que não se deva recuperar a dimensão comunitária de fazer penitência.
Mas o sacramento permanece no limiar da própria necessidade, se não se ocupar
de acompanhar os sujeitos não simplesmente a uma experiência de perdão, mas
também ao concreto itinerário verbal, de consciência e operacional
com o qual eles respondem à graça do perdão.
Por isso, a recuperação do
“fazer penitência” parece-me uma dimensão intrínseca do sacramento, que não
se deixa reduzir a uma celebração “mensal”, cuja função de “celebração penitencial”
está fora de discussão, mas que, como tal, se assemelha mais a uma preparação e
a uma pedagogia do sacramento, e não à sua celebração temporal e espacial na
crise dos sujeitos cristãos. Esse é o centro de uma exigência que é pastoral e,
ao mesmo tempo, requintadamente teológica.
Procuramos refletir sobre isso,
junto com Daniela Conti, no livro “Fare penitenza. Ragione
sistematica e pratica pastorale del quarto sacramento” [Fazer penitência.
Razão sistemática e prática pastoral do quarto sacramento] (Assis: Cittadella,
2019), que também inspirou o sentido desta minha consideração.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original, clicando aqui.
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