Esclarecendo: porque Bolsonaro não dá certo!
Riscos desnecessários
Marco
Aurélio Nogueira
Professor titular de Teoria Política
e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais
da UNESP
Acima de tudo e de
todos, deve-se evitar que o País degringole
e fique sem opções
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MARCO AURÉLIO NOGUEIRA |
Falando sem parti pris [do
francês = preconceito], o problema político dos brasileiros não é termos
um governo de direita ou extrema direita, nem ser Jair Bolsonaro um fundamentalista
retrógrado. O problema é que:
* o
presidente não conhece o País,
* não
respeita princípios democráticos básicos e
* não
deseja governar.
Estamos correndo riscos
desnecessários.
Desde sua posse o País depende
muito mais do empenho da Câmara dos Deputados que do Poder Executivo. Falam
mal dos parlamentares, mas sem eles teríamos tido um semestre trágico,
estaríamos mergulhados numa sequência de bravatas, provocações e ofensas
promovidas por Bolsonaro e seu entorno, que parecem dispostos a tratar todos
como inimigos.
Combater a esquerda e o PT é
legítimo e aceitável, mas é uma patifaria quando feito na base de mentiras e
agressões. A direita e a esquerda fazem parte da vida, o revezamento
delas no governo dos países é normal, saudável e produtivo. Liberais,
conservadores e socialistas são famílias políticas essenciais, filhos
legítimos da modernidade e de suas transformações no correr do tempo. Querer
eliminar um deles com argumentos de autoridade é ir contra a lógica das coisas
e os parâmetros democráticos de civilidade.
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JAIR BOLSONARO Presidente da República do Brasil |
Atitudes
nada inocentes e suas consequências
Debochar de brasileiros do
Nordeste, agredir ativistas, professores, artistas, intelectuais e jornalistas,
ameaçar a cultura e a educação com a imposição de “filtros” que não passam de
censura, tratar a ciência com desprezo, beneficiar o próprio filho – tudo isso,
verbalizado com escárnio, faz a Presidência da República evaporar como
instância de organização do País e se transforme numa trincheira de combate.
Agindo assim, o presidente
prejudica o País e a população, além de criar dificuldades para si próprio.
Sua guerra ideológica contra partidos, “velhos políticos” e sociedade civil
exaspera os parlamentares, aumentando os custos da transação política na
aprovação de medidas e propostas governamentais. Enfraquece as instituições
e os órgãos públicos, varrendo-os para a margem. Suas ações não são
“folclóricas”, inocentes, mas ferem princípios básicos e fazem o País andar
para trás:
* na
educação,
* na
cultura,
* na
política internacional,
* nos
direitos,
* na saúde,
* no meio
ambiente,
* na
economia.
Impactam negativamente a sociedade,
fomentando divisões que não ajudam o País a enveredar por uma trilha de
progresso, justiça e bem-estar.
Um presidente que se comporta como
se fosse chefe de uma facção, não mede as palavras, confunde o público com o
particular, move-se pela emoção imediata e por cálculos improvisados é uma
tragédia anunciada. Poderá sobreviver ao mandato, e até prolongá-lo, mas de
seu período governamental não sairá um País melhor, uma sociedade mais
coesa ou um Estado administrativo mais eficiente.
Em vez de nos ajudar a superar a polarização
fratricida que reinou nos últimos anos, ele a agrava, a esvazia de
dignidade e a empurra para a violência explícita.
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JAIR BOLSONARO COMPARECE EM CULTO DE SILAS MALAFAIA Período anterior às eleições de 2018 |
Porque
Bolsonaro venceu as eleições
Jair Bolsonaro venceu as eleições
de 2018 de forma inquestionável, cristalina. Mostrou senso de oportunidade ao
endossar um figurino específico na hora mesma em que o eleitorado demonstrava
estar cansado das ofertas políticas usuais. Suas proposições autoritárias, seu
estilo informal, o uso abusivo que fez de valores religiosos e moralistas, sua
habilidade em utilizar as redes sociais encontraram eco nos eleitores, que
viram nele uma opção ou para derrotar o PT e virar a página, ou para depositar
esperanças num líder de novo tipo.
Sua vitória, porém, também foi
conseguida porque a esquerda petista se mediocrizou e a esquerda democrática
não conseguiu abraçar o campo liberal-democrático e, junto com ele, virou
farinha, que engrossou o pirão da extrema direita. Foi uma vitória do senso
de oportunidade combinado com incompetência política. Sem isso o resultado
teria sido diferente.
A vitória eleitoral, no entanto, não
deu a Bolsonaro o direito de se comportar como o tirano platônico que se deixa
dominar pelos desejos mais baixos e por seus demônios internos, postos em
movimento pela paixão que aguça a imoderação. Numa República democrática o
presidente deve ser:
* um agente
da moderação,
* um construtor
de consensos,
* um promotor
do diálogo coletivo.
Tem suas preferências, seu credo e
seu mapa de navegação, mas não está autorizado a agir por impulso,
conforme uma rotina passional que só produz caos e confusão.
A conduta errática e acrimoniosa de
Bolsonaro ainda não levou a sociedade à convulsão. Em parte, porque só se
passaram seis meses, em parte, porque a população tem conseguido manter alguma
coesão, em parte porque o Congresso tem governado o País, construindo consensos
e tomando decisões estratégicas.
Faltam entrar em cena os partidos,
os movimentos cívicos e os cidadãos ativos perfilados no campo democrático
progressista. Até agora, eles parecem trabalhar nos bastidores, em
silêncio, dando até mesmo a impressão de estarem a hibernar. A oposição que
orbita o PT não consegue produzir propostas e entendimentos, limita-se a
mimetizar com sinal trocado a conduta presidencial, valendo-se de uma retórica
igualmente passional, que divide e inflama a população. Em vez de se lançar
com coragem no mar aberto da renovação procedimental e discursiva, aferra-se a
mitos e atitudes defensivas, refratárias ao moderno que se renova em
direções inesperadas, surpreendentes e desafiadoras.
Temos de girar a chave e abrir
novas portas. Buscar maior interlocução, abandonar projetos parciais de
poder e cálculos eleitorais de curto prazo. Pode ser que se tenha de ajudar o
governo a governar, a cometer menos erros e a causar menores prejuízos. Não há
por que ter preconceito contra isso. Acima de tudo e de todos deve estar a
preocupação de evitar que o País degringole e fique sem opções. Resistir é
preciso, mas sem medo de olhar para a frente e ousar, correndo riscos que
valham a pena.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço
aberto – Sábado, 27 de julho de 2019 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.
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RICARDO MAGNUS OSÓRIO GALVÃO Presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) |
A batalha contra a
realidade
Editorial
Como presidente, Jair
Bolsonaro deve se ater aos
problemas reais e
dar-lhes soluções
Já é sabido que o presidente Jair
Bolsonaro não nutre especial apreço por dados estatísticos e científicos
quando estes contrariam as suas próprias crenças, seja qual for o assunto. O
problema é que os fatos se impõem por si mesmos e, ao fim e ao cabo, a
desmoralização recai sobre aqueles que os negam. E quando não nega dados que
lhe desagradam, o presidente Bolsonaro trata de desqualificar os métodos de
trabalho para sua obtenção, baseando-se em especulações e preconceitos. Não
é um bom caminho. A batalha contra a realidade é inglória.
Em pouco mais de 200 dias, o
governo de Bolsonaro já desacreditou:
1º) o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quando o órgão de insuspeita
reputação divulgou dados sobre o desemprego.
2º) Já
desqualificou pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre o
flagelo das drogas.
3º) Agora, o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), instituição científica de grande
prestígio dentro e fora do Brasil, é que está sob ataque.
Em café da manhã com
correspondentes estrangeiros na sexta-feira passada, o presidente Jair
Bolsonaro contestou dados do Deter, sistema de alerta de desmatamento
do Inpe, que mostrou que em junho houve um aumento de 57% da área desmatada
na Amazônia em relação ao mesmo período no ano passado. De acordo com o
Deter, 769 km² na região amazônica foram desmatados no mês passado. Há um ano,
foram 488 km².
O presidente Jair Bolsonaro não só
desacreditou os dados, mas o próprio Inpe, seu corpo de servidores e
o presidente do instituto, Ricardo Magnus Osório Galvão. Aos jornalistas
estrangeiros, Bolsonaro insinuou que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.
Em entrevista ao jornal O Estado
de S. Paulo, o presidente do Inpe afirmou que Bolsonaro fez “comentários
impróprios” e “ataques inaceitáveis”, que mais pareceram “conversa de botequim”.
Ricardo Galvão disse ainda que a atitude do presidente da República foi
“pusilânime e covarde”. Por fim, o presidente do Inpe afirmou que não pedirá
demissão do cargo.
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FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ) Reconhecida e prestigiada internacionalmente - atacada por Bolsonaro |
Por meio de nota, o ministro da
Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, fez coro às
críticas de seu chefe ao Inpe e disse “compartilhar a estranheza” do presidente
Bolsonaro sobre a variação do porcentual de desmatamento na Amazônia no último
ano. O ministro Pontes, a quem o Inpe está subordinado, disse que irá requerer
“mais dados” ao instituto e que convocará Ricardo Galvão a ir a Brasília para
“esclarecimentos e orientações”.
Marcos Pontes, embora
militar, é um homem com origem na comunidade científica. Dele era esperado
que soubesse que, em Ciência, dados são refutados por outros dados, não por
especulações, sobretudo as de natureza política. Ao chancelar, na prática,
a “tese” do presidente Jair Bolsonaro, segundo a qual as informações sobre
desmatamento apuradas pelo Inpe são “mentirosas” e se prestam apenas a
“desgastar a imagem do País no exterior”, o ministro faz clara opção por uma
política de baixa extração.
Jair Bolsonaro requereu que os
dados apurados pelo Inpe passem a ser submetidos a ele antes de serem
divulgados. O que pretende o presidente com essa medida? Caso se depare
novamente com dados que não estejam a seu gosto irá alterá-los ou, no limite,
proibir sua divulgação? Seria inútil, pois os dados de satélite do Deter são
acessíveis por uma série de instituições científicas mundo afora. O País,
afinal, é pioneiro nesse tipo de monitoramento do meio ambiente.
Afigura-se um padrão de
comportamento. O tempo irá dizer se a atitude de negação será uma marca
deste governo. Dados que consubstanciem teses “de esquerda”, como
supostamente seria a defesa do meio ambiente, não seriam por si sós confiáveis.
A construção de uma realidade
paralela pode funcionar muito bem para manter acesa a chama dos núcleos de
apoio mais aferrados ao governo. Mas Jair Bolsonaro não preside
nichos. Como presidente do Brasil, deve-se ater aos problemas reais e dar-lhes
soluções. Um bom começo é admitir que eles existem.
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