Nada a ver com a Bíblia
Por que é um erro usar Bíblia para legitimar genocídio palestino?
Frei
Betto
Frade dominicano brasileiro, teólogo, filósofo, escritor de 76 livros e assessor de CEB’s e movimentos sociais no Brasil e exterior
GAZA: terra arrasada! Se isto não é genocídio, o que seria? |
Atual
conflito entre israelenses e palestinos deita raízes no documento religioso, em
especial no Livro de Josué, que teria sido escrito no século XII a.C.
Sionistas são aqueles que advogam pela supremacia do Estado de Israel e impedem que os palestinos tenham um Estado independente, inclusive com direito a terem, como todo Estado constituído, Forças Armadas.
O atual conflito entre
israelenses e palestinos deita raízes na Bíblia, em especial no Livro de
Josué, que teria sido escrito no século XII a.C. Nem tudo nele possui
base histórica. Segundo o relato, Deus teria assumido postura de
colonizador e dito a Josué, herdeiro de Moisés, quando o povo hebreu
terminava a travessia do deserto após se libertar do Egito: “Atravessa o rio
Jordão e entra na terra que dou aos filhos de Israel. Todo lugar que pisar a
planta dos pés de vocês, darei a vocês conforme prometi a Moisés” (1,2-3).
Josué então enviou dois espiões a
Jericó, onde foram acolhidos pela prostituta Raab, que figura na genealogia de
Jesus descrita por Mateus (1,5). O rei de Jericó mandou expulsá-los, mas Raab
os escondeu e, mais tarde, orientou-os na fuga.
A “terra prometida”,
genericamente conhecida por Canaã, não era um espaço vazio.
Compreendia todos os territórios nos quais se encontram, hoje, Líbano,
Síria, Israel e Jordânia. Ali habitavam os povos cananeus:
*
hiteus,
*
heveus,
*
ferezeus,
*
girgazeus,
*
amorreus e
* gebuseus, hoje conhecidos como palestinos.
Mapa de Canaã com as cidades pretensamente conquistadas por Josué e suas tropas |
Na época do domínio grego [na
realidade, foi bem antes], muitos passaram a ser conhecidos como fenícios,
sobretudo os que viviam no litoral.
O assalto a Jericó resultou em um
massacre, “passaram a fio de espada tudo o que nela se encontrava: homens,
mulheres, crianças, velhos, e até mesmo bois, ovelhas e jumentos” (6,21).
Só a traidora Raab (vista pela ótica palestina) ou a heroína Raab (vista pela
ótica israelita) e sua família foram salvos. “Queimaram a cidade com tudo o
que ela continha, exceto ouro, prata e todos os objetos de bronze e ferro”
(6,24).
A maioria dos povos cananeus foi
exterminada, exceto os gabaonitas, submetidos à escravidão, e os jebuseus,
aos quais se concedeu o direito de continuarem a habitar Jerusalém. Já
quase centenário, Josué instruiu o seu povo: “Reparti entre vós, por
sorteio, todos esses povos que restam a combater; é a herança de vossas tribos,
assim como aqueles que exterminei desde o Jordão até o mar Grande, do Ocidente
(Mediterrâneo)” (23,4). E admitiu no fim da vida:
“Dei-vos uma terra que não lavrastes; cidades
que não construístes, onde agora habitais; vinhas e oliveiras que não
plantastes, das quais comeis agora os frutos” (24,13).
Josué: relato não histórico
O Livro de Josué, além de legitimar
o sionismo, serviu de referência às Cruzadas e à colonização das
Américas. A arqueologia comprova, hoje, que o relato não merece
credibilidade histórica. Jericó, embora seja a cidade mais antiga do mundo,
nem sequer existia naquela época.
Pesquisas arqueológicas indicam
que muitas cidades cananeias, consideradas conquistas de Josué, não existiam
no final do Bronze Tardio, dentre elas Jebson,
capital do Amorreus, Sijon, Arad, Jericó e Hai, cujas quedas são descritas com detalhes.
Outras cidades, tidas por
arruinadas pela conquista feita de uma só vez foram, na verdade,
destruídas em um período de tempo de várias gerações (Kochavi, M. “The
Israelite Settlement in Canaan in the Light of Archeological Evidence”. Biblical
Archaeology Today, Jerusalém, v. 40, n. 3, 1985).
Já que Moisés morreu antes de ingressar na “terra prometida”, o
relato atribuído a Josué é uma forma de os israelitas compensarem a frustração
mosaica.
É um erro tomar a Bíblia ao pé
da letra ou como livro histórico ou científico. Trata-se de um documento
religioso, repleto de mitos e enxertos de tradições mais antigas. É a
hermenêutica rasteira, literal, que nutre o fundamentalismo.
Como se Deus tivesse, de fato, reservado aquele território do
Oriente Médio para um determinado “povo escolhido”.
No entanto, esses textos antigos
continuam a alimentar o imaginário e o comportamento dos sionistas, a ponto de
o atual Estado de Israel, que se gaba de ser democrático, não possuir até hoje
uma Constituição. É um Estado teocrático.
Enquanto o povo palestino não for reconhecido em seus direitos, como exige a ONU, a guerra não terá fim. Pode ter pausas, mas a tensão persistirá.
Fonte: Opera Mundi – Diálogos do Sul – Quarta-feira, 25 de outubro de 2023 – 14h50 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui (acesso em: 10/11/2023).
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