A Igreja em tempo de sinodalidade
O Sínodo “vai exigir que a gente repense as estruturas da Igreja”
Luis Miguel Modino
Entrevista
com Agenor Brighenti
Doutor em Ciências Teológicas e Religiosas na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), especializado em Pastoral Social e Planejamento Pastoral pelo Instituto Teológico-Pastoral do Celam (Medellín, Colômbia) e licenciado em Filosofia pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Tubarão, SC).
As consequências desse Sínodo vão depender
muito do processo de escuta. Na medida em que escuta o clamor, as demandas, os
desafios, a Igreja também se converte à realidade
Você acaba de ser nomeado membro da Comissão
teológica do Sínodo sobre a Sinodalidade. O que representa essa nomeação em seu
trabalho como teólogo?
Agenor Brighenti: É um serviço que a gente acolhe com
muita alegria, apesar do grande desafio e das dificuldades que se vá encontrar,
mas é um momento único na Igreja. A gente nunca tinha pensado que a
sinodalidade pudesse ser uma realidade estrutural, porque vai ter um
momento nas igrejas locais. A partir dali vai ter um momento continental, nos
cinco continentes, para desembocar numa assembleia geral.
Nós podemos dizer que vai ser uma experiência única para a Igreja como um todo, porque nós teremos o Sínodo dos Bispos naquela perspectiva da Constituição Episcopalis Communio, que quer fazer da assembleia do Sínodo uma assembleia do Povo de Deus, onde a Igreja se configura como uma Igreja de igrejas, uma comunhão de igrejas locais. A sinodalidade, ela é expressiva realmente quando ela é expressão da voz do Povo de Deus através das Igrejas locais. É um fato inusitado de Francisco que a gente acolhe com muita alegria e que a gente vai tentar colaborar na medida do possível.
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Revendo o papel dos bispos na Igreja
Fala sobre sinodalidade como uma dimensão
estrutural da Igreja, que na verdade não é algo novo e sim uma proposta que
surgiu do Concílio Vaticano II. Por que aconteceram tantas dificuldades para,
só depois de quase 60 anos, se assumir essa dimensão estruturante que o
Concílio marcava como um elemento fundamental?
Agenor Brighenti: Nós estamos num processo de recepção
do Concílio Vaticano II, que é um processo de renovação da Igreja em grandes
proporções, e um dos aspectos em que se teve grande dificuldade de avançar
foi justamente no exercício da sinodalidade. Como fazer que o “sensus fidei”
pudesse ser expressão da Igreja como um todo, desde as igrejas locais, as
instâncias intermediárias, como são as conferências episcopais nacionais e
continentais, e sobretudo a questão da Cúria Romana.
O Papa Francisco, ele está dando
passos muito decisivos e consequentes na implementação dessa sinodalidade, que teologicamente já está na reflexão
do Vaticano II, mas que do ponto de vista da sua operacionalidade, se caminhou
muito pouco. O grande desafio era situar a episcopalidade ou a colegialidade
episcopal no seio da sinodalidade eclesial.
Sempre foi algo difícil na Igreja isso, situar o BISPO como membro
do Povo de Deus, não como condutor do Povo de Deus, não como mestre do Povo de
Deus, não como alguém que comanda o Povo de Deus, mas como MEMBRO do Povo de
Deus.
A Conferência de Aparecida, e
isso é muito interessante nesse sentido, situa os bispos como membros do
Povo de Deus, e Francisco tem insistido que os bispos não podem ser uma espécie
de elite na Igreja, eles precisam ser inseridos dentro do Povo de Deus.
Mesmo quando há um organismo como uma conferência episcopal ou como um sínodo, que
é de bispos, ele não pode ser expressão simplesmente de um setor da Igreja. Se
há uma reunião de um segmento da Igreja, ele deve ser porta voz de todo esse
sentir comum do Povo de Deus.
Nesse sentido, na atualidade, a
renovação do Vaticano II dá um passo substancial, como vai ser também a reforma
da Cúria, como vai se pensar, certamente, o estatuto das conferências
episcopais nacionais, para que sejam expressão de uma assembleia
eclesial e não simplesmente de bispos. Como se vai repensar também
certamente o papel do bispo nas dioceses, por que...
... canonicamente os bispos, dentro da Igreja local, eles são
muito pouco sinodais do ponto de vista do Direito Canônico, tanto que
conselhos e assembleias são facultativos.
Certamente, com esse sínodo vai se sentir necessidade de fazer com que esses organismos de comunhão, que hoje na Igreja existem mais ou menos funcionando, mas que eles precisam ser não facultativos, mas obrigatórios. Como a Igreja vai ser Povo de Deus, sinodal, o Povo de Deus vai exercer o “sensus fidei” se não há organismos estáveis que assegurem essa participação efetiva de todos no discernimento e na tomada de decisões daquilo que é relativo à vida pastoral.
Mesmo aos trancos e barrancos, a gente pode
dizer que a América Latina tem sido o continente onde tem se realizado maiores
esforços nessa tentativa de viver a sinodalidade. O que pode aportar a Igreja
da América Latina e do Caribe ao próximo Sínodo sobre a Sinodalidade?
Agenor Brighenti: A Igreja na América Latina, ela tem
sido muito pioneira em muitos aspectos da recepção do Vaticano II, tanto que se
diz que aqui houve uma recepção criativa do Concílio. Não no sentido de
simplesmente repetir ou implementar a letra de um texto, mas aqui se fez uma
recepção dentro do nosso contexto latino-americano. Por exemplo, categorias
como nova evangelização, conversão pastoral, e essa renovação
com relação a organismos eclesiais mais de comunhão e participação e mais
sinodais, tem sido também a Igreja da América Latina uma pioneira.
Medellín, enquanto conferência continental,
já tinha havido em 1955 em Rio de Janeiro, são conferências pioneiras.
Que um continente receba um concílio de maneira tão consequente, incisiva, como
foi a partir de Medellín e depois Puebla. Também foi inspirador para a
Igreja como um todo o Sínodo da Amazônia, porque o Sínodo da
Amazônia é o primeiro sínodo que foi feito sobre a inspiração da Constituição Episcopalis
Communio.
Nesse sentido, a assembleia
sinodal do Sínodo da Amazônia foi muito mais do que uma conferência
simplesmente de bispos, sobretudo, o processo de escuta, que foi muito
inovador enquanto ao envolvimento de todas as Igrejas locais de toda a região
amazônica. Essa escuta desembocou na aula sinodal, não simplesmente através dos
bispos, mas também de outros atores como os indígenas, as mulheres, leigos
também. Depois, a consequência do Sínodo da Amazônia, que pediu um
organismo episcopal representativo para a região e a partir da ideia de um
organismo episcopal, veio, até por sugestão do Papa Francisco, um organismo
eclesial e não só episcopal.
A partir da experiência do Sínodo da
Amazônia é que nós temos também um passo muito mais consequente no Sínodo dos
Bispos, tanto relativo:
* ao processo de escuta, agora
envolvendo todas as Igrejas locais do mundo inteiro, como também, depois,
* na assembleia geral, que vai
passar pelos continentes.
Aí está a reafirmação da importância
do Celam [Conselho Episcopal Latino-Americano] na Igreja universal, dos
nossos 5 documentos, que tem sido uma reflexão importante para outras Igrejas.
Também Aparecida, a gente sabe
do peso que tem Aparecida, tanto que a nova Assembleia Eclesial no continente,
o Papa pediu que não se redija um outro documento, mas que se retome
Aparecida, porque realmente é um documento, como está expresso na Evangelii
Gaudium, que é capaz de continuar iluminando a Igreja no continente por
muito tempo ainda. Como tem sido iluminador para outros continentes através
da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que bebe muito de Aparecida.
Este sínodo, conta com este novo perfil. Nosso Papa, que é latino-americano, também se deixou inspirar e auxiliar por essa experiência de Igreja presente na América Latina, de modo especial, agora, a Igreja presente na Amazônia.
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Retomando a visão de Igreja – eclesiologia – do Concílio Vaticano II
A Assembleia Eclesial da América Latina e do
Caribe retoma as ideias de Aparecida e a metodologia do Sínodo para a Amazônia,
sobretudo no processo de escuta. Poderíamos dizer que essa Assembleia Eclesial
está sendo uma ponte, um banco de prova para o próximo Sínodo sobre a Sinodalidade?
Agenor Brighenti: Sem dúvida essa experiência da
Assembleia Eclesial, como ela vem antes do Sínodo sobre a Sinodalidade,
certamente vai ser um bom aprendizado. Nessa Assembleia latino-americana e
caribenha existem duas novidades:
1ª) uma primeira novidade é o próprio
perfil da Assembleia, que não é episcopal, mas eclesial. Também, já
estamos no processo de escuta e se está envolvendo todas as Igrejas locais.
Nesse sentido, vai muito em sintonia.
2ª) A retomada de Aparecida, e
nada mais é do que o resgate da renovação do Concílio Vaticano II, que
durante as últimas décadas nós havíamos ficado num marca passo, quando não no
retrocesso. Retomar Aparecida é retomar a renovação do Vaticano II, e
nada mais é objeto do próximo Sínodo dos Bispos.
A reflexão
sobre a sinodalidade nada mais é do que retomar, com força e
consequência, a eclesiologia do Concílio Vaticano
II de uma Igreja Povo de Deus e da necessidade do exercício do sensus
fidelium na Igreja.
Da mesma forma que o Sínodo da Amazônia, ele foi precursor e inspirou e ajudou a Assembleia Eclesial Latino-americana, que já estamos no processo de escuta, ela vai ser um aprendizado e vai ser muito inspiradora também para se aprimorar o processo do Sínodo que se vai viver a partir de outubro deste ano, em que se dará o processo de escuta nas igrejas locais, as dioceses.
A sinodalidade pode ser vista como o caminho
contrário ao clericalismo. Existe realmente aceitação na hierarquia, no
episcopado, no clero, desse caminho da sinodalidade ou, ainda, na prática, na
base, há dificuldades diante dessa proposta do Papa Francisco?
Agenor Brighenti: Aparecida denuncia que faltou
coragem, faltou audácia, na Igreja da América Latina, para levar adiante a
renovação do Vaticano II e das conferências anteriores. Diz Aparecida que a expressão dessa
falta de audácia, de coragem e de docilidade ao Espírito é:
* a volta de eclesiologias
pré-conciliares,
* a volta de espiritualidades
pré-conciliares, e o documento original de Aparecida também nomeava
* a volta do clericalismo como retrocesso
em relação à renovação do Vaticano II.
Quando se retoma o Vaticano II, a questão
da sinodalidade, sem dúvida, está no centro, aí está aquilo que o Papa
Francisco chama um câncer na Igreja, que é o clericalismo. É dos
clérigos, evidentemente, mas também de uma elite de leigos clericalizados, que
imitam, evidentemente, o exemplo que eles têm. Nós poderíamos dizer que, do
ponto de vista eclesiológico, aquilo que é um passo importante do Vaticano II,
que é essa superação desse binômio clero-leigos, substituído por
um outro binômio que é comunidade-ministérios, a Igreja toda ela
ministerial e sinodal.
Do ponto de vista teológico, o passo
que nós havíamos dado e as experiências que havíamos feito, poderíamos dizer
que nessas décadas de involução eclesial, perdemos muito terreno e hoje
volta o clericalismo com força, voltam as eclesiologias pré-conciliares com
força. É preciso ainda, infelizmente, trabalhar essa conversão que
Aparecida fala no nível da consciência eclesial, que é retomar
a eclesiologia do Vaticano II.
Aí é um campo a percorrer, que não é
tão fácil, mas o mais difícil ainda é colocar em prática essa eclesiologia,
através da implementação de um modelo de Igreja que seja expressão da
corresponsabilidade de todos os batizados. Seja expressão também da igualdade e
dignidade de todos os ministérios, como diz a Lumen Gentium.
A dificuldade é colocar em prática essa Igreja, toda ela comunidade,
em que todos sejam sujeitos.
E isso se faz através dos organismos
de comunhão e participação, como são as assembleias, os conselhos e as
equipes de coordenação.
Poderíamos dizer que está aí um desafio grande, no campo inclusive da consciência e da mentalidade, e um desafio ainda maior quando nós vamos para a operacionalização dessa eclesiologia que retrocedemos. Aí nós precisamos resgatar o que havíamos ganho, mas avançar inclusive ao patamar em que nós estávamos quando começamos esse processo de retrocesso em relação à renovação do Vaticano II.
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PAPA FRANCISCO |
O que marca o pontificado de Papa Francisco
Na última Assembleia do CELAM, na análise da
conjuntura eclesial, Austen Ivereigh, um dos biógrafos do Papa Francisco,
definia o atual pontífice como o Papa que passará na história como o Papa da
Sinodalidade. Poderíamos dizer que este Sínodo é o ápice do pontificado do Papa
Francisco?
Agenor Brighenti: O Papa Francisco, ele tem diversas
frentes de reforma, de renovação. A questão da sinodalidade, sem dúvida que
é uma questão importante. Desde a primeira hora, ele tomou a questão da
reforma da Cúria, tornando-a mais sinodal, como uma tarefa deste
pontificado, que vai bastante avançada, e este ano, quem sabe, até se tenha uma
luz no fundo do túnel.
Mas eu diria também que o Papa
Francisco é o Papa que vai ajudar a entender a missão da Igreja não naquela
perspectiva da cristandade, que é uma missão que consiste em sair para fora
para trazer pessoas para dentro da Igreja Católica, mas uma missão que é uma
Igreja em saída, no sentido de uma Igreja que vai, como sacramento do Reino,
tornar presente o Reino de Deus no mundo. Ele tem dito em Evangelii
Gaudium, número 176, que
... EVANGELIZAR é tornar presente o Reino de Deus no mundo,
essa é a missão da Igreja.
Portanto, um segundo campo
importante desse pontificado é marcar a missionariedade da Igreja, uma missão
centrífuga, para fora. Uma Igreja que rompa e supere uma postura
autorreferencial, típica de uma mentalidade de cristandade. Esse é um passo
também gigantesco. E nesse particular, Francisco pede muito da Igreja na
América Latina. Aí está Aparecida, em cuja conferência ele esteve presente
também, que tematiza isso com muita propriedade.
Juntamente com a Igreja em saída, um
outro aspecto importante do pontificado de Francisco, é levar a Igreja para
as periferias e para as fronteiras, que é outro tema importante. Porque
nas periferias estão os excluídos, e nesse campo da exclusão, o pontificado
de Francisco resgata com toda força e consequência, um modelo de Igreja de João
XXIII, uma Igreja pobre e para os pobres, que
seja uma Igreja de todos, e de modo particular a opção pelos pobres na América
Latina.
Neste pontificado, a questão dos
pobres, juntamente com a sinodalidade e a missão são uma
marca central, importante, e que vai muito ao encontro com a caminhada da
Igreja na América Latina. E junto ao tema das periferias está também aí o
tema das fronteiras. A fronteira é o espaço de encontro com os diferentes e com
as diferenças.
E esse pontificado tem dito desde a primeira hora, que a gente
precisa sair para as periferias, sair para as fronteiras, mas sem
a tentação, diz o Papa Francisco, de domesticar as fronteiras.
Não é ir para as periferias, ir para
as fronteiras e trazer essas diferenças para dentro da Igreja e domesticá-las,
e fazê-las, no fundo, parecidas conosco.
Aí está algo muito desafiante desse pontificado, que é a relação com os diferentes, mas abrindo-se a acolher as diferenças, e deixar-se enriquecer pelas diferenças, e que as diferenças não são uma ameaça, mas que as diferenças são instâncias de novas possibilidades, que nós podemos enriquecer, nós podemos lá no fundo também ampliar o serviço de diálogo e de presença da própria Igreja. A fronteira é esse mundo pluralista, diversificado que está aí, no seio do qual a Igreja precisa viver. Pelo menos essas bandeiras são muito fortes no pontificado de Francisco, juntamente com a sinodalidade.
As consequências que o Sínodo poderá trazer
Quais as perspectivas que abre este Sínodo, não
somente para a Igreja universal, mas também para a Igreja em nível diocesano e
em nível comunitário?
Agenor Brighenti: As consequências vão depender muito
do processo de escuta,
porque, na medida que se escuta o clamor, as demandas, os desafios, a Igreja
também se converte à realidade, abre-se a possibilidade de uma conversão
aos ideais do Evangelho. Mas, sem dúvida, esse processo, se ele é bem feito
em nível das Igrejas locais, ele vai, depois, provocar processos, vai
provocar necessidade de sermos mais consequentes com ele.
Nesse particular vai exigir que a
gente repense as estruturas da Igreja, não só, como se está fazendo, agora, em
nível de Cúria Romana, mas vai ter que:
a) repensar as estruturas desde as comunidades
eclesiais mais de base,
b) repensar a estrutura da paróquia,
c) da diocese,
d) de uma conferência episcopal
nacional ou continental, no sentido de que sejam estruturas flexíveis de
comunhão e participação, que possibilite a efetiva presença da Igreja, como
um todo, nos processos de discernimento e também de tomada de decisão.
E para que isso aconteça, certamente vai
haver a necessidade de repensar muitos dos estatutos das instituições que a
Igreja tem na atualidade. E haverá, certamente, a necessidade de reforma,
inclusive, de alguns cânones do próprio Direito Canônico, para acolher essa
sinodalidade em sua experiência concreta, também do ponto de vista jurídico.
Porque o Direito precisa segurar os passos que se vão dar, e que já se estão
dando, eles realmente sejam assegurados e que não haja possiblidade,
segundo a mudança das pessoas, que se volte a estágios anteriores.
Se esse Sínodo for bem vivenciado nas
Igrejas locais, continental e na Igreja toda, certamente haverá consequências
em todos os níveis, positivas, no sentido de uma Igreja muito mais comunhão
e participação, que aliás é um binômio que o Papa propõe. Comunhão,
participação, sinodalidade são categorias de nossa Igreja da América Latina,
que no fundo é o Vaticano II, Igreja comunhão. E como é que vai haver
comunhão, não pode ser algo simplesmente espiritual ou algo simplesmente
afetivo.
Tem que haver também participação efetiva para que haja comunhão
verdadeira.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 23 de junho de 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 28/10/2021).
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