Podemos controlar a inflação?

 Principais causas do retorno da inflação no Brasil seguem incólumes

 Antonio Corrêa de Lacerda

Presidente do Conselho Federal de Economia, professor-doutor do Programa de Pós-graduação em Economia Política da PUC-SP, é autor de “O mito da austeridade” (Contracorrente) 

ANTONIO CORRÊA DE LACERDA

A subida dos juros e a busca desenfreada de “ajuste” fiscal a qualquer preço não vão resolver o problema

O Brasil se vê às voltas com um velho problema que estava adormecido, mas que retorna com ênfase: a inflação. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, indicador oficial da variação de preços no Brasil, atingiu 10,25% no acumulado dos últimos 12 meses, com destaque para os subgrupos de expressivo impacto, especialmente para a população de baixa renda:

* Alimentação no domicílio, com 14,66%;

* habitação, com 14,00%; e

* transportes, com 17,93%. 

A indexação, ou reajuste automático de contratos com base em índices de variação da inflação passada, prevalece como herança do nosso período de inflação crônica dos anos 1980 e início dos 1990, gerando fator inercial e propagando a inflação. 

Como enfrentar o drama inflacionário é sempre uma questão relevante para nosso futuro. Embora haja pressões decorrentes da elevação dos preços das commodities (matérias-primas, petróleo e grãos, por exemplo), o que vem impactando mundialmente a economia e representado um desafio ainda mais expressivo para os países emergentes, há o que possa ser feito domesticamente, ao contrário de algumas das visões correntes: 

1) a desvalorização do real e a volatilidade da taxa de câmbio são um fator que pode ser enfrentado com uma atitude mais proativa do Banco Central, tanto no mercado à vista quanto no futuro;

2) os preços administrados, especialmente derivados de petróleo e energia, representam outro foco de pressão. O governo federal pode adotar uma política mais adequada;

3) os oligopólios ainda mantêm grande capacidade de formação de preços domésticos, o que pode ser combatido com medidas de concorrência, via órgãos competentes;

4) o regime de metas de inflação, introduzido em 1999 e em vigor atualmente, tem potencial de melhoria, dadas as distorções apontadas nos itens anteriores.

A elevação da taxa de juros é uma contradição, uma vez que as pressões inflacionárias decorrem de choques de oferta, e não de excesso de consumo. Além disso, ela está elevando custo e as condições de crédito aos tomadores finais, outro fator restritivo da demanda.

A subida dos juros e a busca desenfreada de “ajuste” fiscal a qualquer preço não vão resolver a inflação.

Até porque proporcionam elevados ganhos aos privilegiados, enquanto causas relevantes da inflação, como as já apontadas, seguem incólumes. 

Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia & Negócios – Quarta-feira, 20 de outubro de 2021 – Pg. B2 – Internet: clique aqui (Acesso em: 21/10/2021).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A necessidade de dessacerdotalizar a Igreja Católica

Dominação evangélica para o Brasil

Eleva-se uma voz profética