3º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 1,1-4; 4,14-21
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Jesus anuncia a libertação dos pobres e é
rejeitado!
A liturgia deste domingo nos apresenta o início do Evangelho de Lucas e, depois, passa a apresentar a primeira pregação de Jesus em sua terra, Nazaré, que foi um grande fracasso. Mas vejamos o que o evangelista nos escreve.
Lucas 1,1:** «Muitas pessoas
já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós...»
Lucas pega quase dois terços do evangelho de Marcos e os coloca em seu trabalho. Lucas, de acordo com os estudos mais recentes, aparece como um rabino, portanto uma pessoa muito culta, muito familiarizada com toda a história e tradição de seu povo.
Lucas 1,2: «... como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o
princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra.»
Literalmente «servos» da palavra, este termo é importante. Os que creem são servos dessa palavra, não devem dominar essa Palavra, não são os senhores dela. Colocam-se ao serviço dessa palavra para que chegue a toda criatura.
Lucas 1,3: «Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu
desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti,
excelentíssimo Teófilo.»
Neste versículo, observa-se, realmente, o escrúpulo do
rabino, a sua atenção, em escrever uma história ordenada. E esta obra é
dedicada ao «ilustre» Teófilo, ou seja, excelentíssimo. Era um título
reservado às grandes personalidades como, nos Atos dos Apóstolos, são os
governadores romanos. O nome Teófilo significa «amigo de Deus», ou «amado
por Deus». Quem é esse Teófilo? Os estudos mais recentes, do início
de 2000 em diante, confirmam que este Teófilo seria o terceiro filho de
Anás, o sumo sacerdote. Ele, também, teria sido sumo sacerdote entre os
anos 37 e 41 e seria cunhado de Caifás [Josep Rius-Camps e Jenny
Read-Heimerdinger].
Portanto, Lucas dirige a sua obra a um sumo sacerdote que, com sua família, teve uma importante história na vida de Jesus.
Lucas 1,4: «Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos
que recebeste.»
Aqui, nos faz entender que este sumo sacerdote acolheu Jesus como o messias de sua vida. Então, o evangelista quer mostrar-lhe a origem, a profundidade desta mensagem. Em seguida, a liturgia salta e nos leva até o capítulo 4.
Lucas 4,14aα: «Jesus voltou para a Galileia...»
A Galileia era uma região desprezada, no Evangelho de João, por exemplo, lembremos com que desprezo os fariseus e sumos sacerdotes se referem a essa região, quando dizem: «Não surge profeta da Galileia» [Jo 7,52], portanto uma região ignorada por Deus.
Lucas 4,14aβ-15: «... com a força do Espírito, e sua fama
espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam.»
O evangelista jamais afirma que Jesus foi a uma sinagoga para o culto! Jesus vai às sinagogas para ensinar sua mensagem, livrando e se confrontando com o ensino que os escribas davam, justamente, nas sinagogas.
Lucas 4,16: «E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme
seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura.»
E é claro que isso só poderia ser uma ocasião para incidentes. Essa primeira das quatro vezes que Jesus entra em uma sinagoga será uma situação de conflito. Na liturgia da sinagoga havia – como fazemos nós também – um ciclo trienal de leituras. Começava com um salmo, o Salmo 92, depois havia a leitura de passagens da Lei, do livro de Deuteronômio, e terminava com o que era a leitura da saudação, a leitura de um profeta.
Lucas 4,17: «Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus
achou a passagem em que está escrito:»
Naquele sábado devia-se ler este profeta, mas Jesus comete uma primeira transgressão. O evangelista escreve: «Abrindo o livro [= rolo], Jesus achou» (traduz-se como «achou/encontrou», mas o verbo correto é «procurou»). O verbo grego é eurisko, daí a famosa exclamação de Arquimedes que todos conhecemos, «Eureka!» O que isso significa? Eu encontrei. Mas encontrei o que procurava. Assim, Jesus não concorda com o que a liturgia lhe apresenta naquele dia, mas vai em busca de uma passagem bíblica específica.
Lucas 14,18aα: «“O Espírito do Senhor está sobre mim...»
E qual é? É a passagem da consagração do messias, capítulo 61 do profeta Isaías. Na liturgia hebraica os textos eram lidos na língua sagrada, o hebraico, mas como o povo não entendia mais essa língua sagrada, havia um tradutor que, para cada versículo, traduzia a passagem.
Lucas 14,18aβ: «... porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa
Nova aos pobres...»
Aqui encontramos «unção», em hebraico messiah,
de onde deriva o termo «messias», portanto consagrado com a unção de
Deus.
Qual é a boa notícia que os pobres esperam? O fim da pobreza.
E este será o objetivo de Jesus: criar uma sociedade alternativa onde as pessoas, em vez de acumular para si mesmas, compartilhem com os outros.
Lucas 14,18b-19: «... enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos
cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um
ano da graça do Senhor”.»
Os «cegos» eram os prisioneiros que viviam em cavernas
subterrâneas. O «ano da graça» é o jubileu, aquele da libertação de
todos os habitantes do país. E Jesus interrompe a leitura. Isso não
podia acontecer! Ele interrompe porque o versículo continuava com o que era
a expectativa do povo: «o dia da vingança do nosso Deus» [Isaías 61,2b].
Isso é o que as pessoas esperam. Jesus não concorda com Isaías. Da parte de Deus há apenas uma palavra de AMOR, de GRAÇA, mas não de vingança. A tensão, na sinagoga, está no máximo.
Lucas 14,20: «Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se.
Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.»
Portanto, a leitura acabou. Há uma grande tensão: todos fixam Jesus! Bem, Jesus começa com o que causará uma explosão de raiva. Eles vão tentar matá-lo.
Lucas 14,21: «Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem
da Escritura que acabastes de ouvir.”»
E o evangelista acrescenta: «com os vossos ouvidos».
Por quê? Ele prepara a rejeição a Jesus, com a citação do profeta
Ezequiel, que diz: «Filho do homem, você vive entre uma raça de rebeldes que
têm olhos para ver e não veem, têm ouvidos para ouvir e não ouvem, porque são
uma raça dos rebeldes» [Ez 12,2].
Prepara a rejeição que veremos no próximo episódio.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 2. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2016.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“O sistema não teme o pobre que passa
fome, teme o pobre que sabe pensar.” (Paulo Freire –
1921 a 1997: educador, filósofo e escritor brasileiro)
O evangelho que a liturgia nos oferece neste domingo não é uma passagem como tantas outras! É claro que TODO o Evangelho é importante e fundamental! No entanto, estamos diante de uma texto-programático, isto é, um texto que contém um programa, uma proposta concreta de Jesus ao mundo!
Antes de iniciar a sua missão, o evangelista Lucas quer deixar claro aos seus ouvintes-leitores qual é a meta, o objetivo de Jesus, nesta Terra. Sendo iluminado, conduzido pelo Espírito Santo, Lucas quer nos dizer para onde esse Espírito empurra Jesus e, por consequência, cada um de nós que nos dispomos a ser seus seguidores.
E, como bem observa José Antonio Pagola, biblista e teólogo espanhol:
«Surpreendentemente, o texto não fala de
organizar uma religião mais perfeita ou de implantar um culto mais digno, mas
de comunicar libertação, esperança, luz e graça aos mais pobres e
desgraçados.»
Essa deve ser a nossa tarefa, a nossa direção, a nossa meta: defender e sermos solidários e próximos aos pobres, marginalizados e esquecidos de nossa sociedade. Promovermos uma sociedade que seja boa para todos, não apenas para alguns privilegiados! Sem isso, não vivemos, não sentimos, não seguimos o Cristo! Simples, assim! O nosso lado, neste mundo, é aquele no qual encontram-se os pobres, os pequenos, os indefesos, os esquecidos, os sofredores...
Como dizia Albert Schweitzer (1875-1965: teólogo e filósofo
alemão): “Minha vida é meu melhor argumento”. O melhor e mais autêntico
modo de seguir Jesus Cristo, de ser cristão é um só:
Ficando, sempre, ao lado dos que mais
padecem, dos que mais necessitam, dos que quase ninguém se
importa!
Do contrário, cada um deverá se fazer estas questões abaixo (J. A. Pagola):
* que
evangelho estamos pregando?
* A
qual Jesus estamos seguindo?
* Que
espiritualidade estamos promovendo?
*
Dito de maneira bem clara: que impressão passamos na Igreja atual?
* Estamos caminhando na mesma direção que Jesus?
«Quero
que saibas que cada vez que me convidas, eu venho sempre, sem falta. Venho em
silêncio e de forma invisível, mas com um poder e um amor que não acabam. Não
há nada na tua vida que não tenha importância para mim.
Sei o que existe no teu coração, conheço
a tua solidão e todas as tuas feridas, as tuas rejeições e humilhações. Eu
suportei tudo isto por causa de ti, para que pudesses partilhar a minha força e
a minha vitória.
Conheço,
sobretudo, a tua necessidade de amor. Nunca duvides da minha
misericórdia, do meu desejo de te perdoar, do meu desejo de te bendizer e viver
a minha vida em ti, e que te aceito sem me importar com o que tenhas feito.
Se te sentes com pouco valor aos
olhos do mundo, não importa. Não há ninguém que me interesse mais no mundo do
que tu. Confia em mim. Pede-me todos os dias que entre e que me encarregue da
tua vida e eu o farei.
A única coisa que te peço é que confies
plenamente em mim. Eu farei o resto. Tudo o que procuraste fora de mim só te
deixou ainda mais vazio. Portanto, não te prendas às coisas passageiras.
Mas, sobretudo, não te afastes de mim quando caíres. Vem a mim sem demora,
porque quando me dás os teus pecados, dás-me a alegria de ser o teu Salvador. Não
há nada que eu não possa perdoar.
Não importa o quanto tenhas andado sem
rumo, não importa quantas vezes te esqueceste de mim, não importa quantas
cruzes levas na tua vida. Tu já experimentaste muitas coisas, no teu desejo de
seres feliz. Porque é que não experimentas abrir-me o teu coração, agora mesmo,
mais do que antes?»
(Oração
de
Madre Teresa de Calcutá)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – III Domenica del Tempo Ordinario – 27 Gennaio 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 22/01/2022).
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