O fracasso dos militares
Quais motivos os impedem de bem governar
José Luís Fiori* e William Nozaki**
Professores e pesquisadores universitários
José Luís Fiori (esquerda) & William Nozaki |
A nova geração de militares “neoliberais” do
século XXI aprofundou sua vassalagem americana, trocou o Estado pelo mercado,
seguiu atropelando a democracia e os direitos sociais dos cidadãos brasileiros
“Existe uma psicologia bem compreendida da incompetência militar […]. Norman Dixon argumenta que a vida militar, com todo o seu tédio, repele os talentosos, deixando as mediocridades, sem inteligência e iniciativa, subirem na hierarquia. No momento em que alcançam cargos importantes de tomada de decisão, essas pessoas tendem a sofrer alguma decadência intelectual. Um mau comandante, argumenta Dixon, nunca quer ou é incapaz de mudar de rumo quando toma a decisão errada”. (FERGUSON, N. Catástrofe. São Paulo: Editora Planeta, 2022, p. 184).
JAIR BOLSONARO não foi, apenas, apoiado por militares, mas colocado no poder por vontade e obra da atuação militar, desejosa de retomar o poder! |
Qualquer pessoa de bom-senso – dentro
e fora do Brasil – se pergunta hoje:
... como foi que um segmento
importante dos militares brasileiros chegou ao ponto de conceber e levar
adiante um governo militarizado e aliado a grupos e pessoas movidas por um
reacionarismo religioso extremado, e por um fanatismo econômico e
ideológico completamente ultrapassados, todos “escondidos” atrás de um
personagem grotesco e um “mau militar” [= Jair Bolsonaro], como afirmou o general
Ernesto Geisel em outro momento?
O historiador britânico Niall Ferguson defende a tese da incompetência universal dos militares para o exercício do governo democrático, e aponta algumas razões que explicariam tal incapacidade a partir da própria vida interna dos quartéis e da carreira militar. No caso específico da geração atual de militares brasileiros, há um contingente que vem se dedicando, há três anos, a desmontar aquilo que seus antecessores do século passado mais prezavam: o setor energético brasileiro.
Os militares brasileiros sempre tiveram uma visão elitista e caricatural do país, imaginando um país sem cidadãos e onde as classes sociais próprias do sistema capitalista são vistas com desconfiança e como uma ameaça à ordem social definida por eles segundo critérios ancorados, em última instância, na sua vassalagem [= estado de sujeição; submissão] internacional. Dentro desta concepção de um país sem sociedade civil, eles sempre se consideraram os verdadeiros responsáveis pela moral pública e pela definição do que fosse o “interesse nacional” dos brasileiros.
Os presidentes do Brasil - João Batista de Figueiredo - e do Paraguai, Alfredo Stroessner, ambos militares e ditadores, inauguram uma das fases da hidrelétrica de Itaipu |
Os militares de hoje desmontam o que fizeram os militares de ontem!
Num determinado momento da história brasileira, os militares entenderam que era importante para o interesse nacional que o país tivesse projetos industrializantes nos setores de metalurgia e siderurgia, ferroviário e rodoviário, petrolífero e petroquímico. No entanto, no momento seguinte, eles mesmos redefinem seu próprio conceito de “interesse nacional” brasileiro, invertem a estratégia econômica dos seus antecessores e promovem a privatização selvagem das empresas públicas, ao mesmo tempo que apoiam a desindustrialização da economia brasileira e seu retrocesso à condição primário-exportadora do início do século passado.
Como é sabido, as Forças Armadas
brasileiras tiveram uma participação ativa na construção da:
* Petrobras,
* Eletrobras,
* Gasoduto Brasil-Bolívia,
* Itaipu Binacional e
* inúmeras outras empresas estatais em
setores estratégicos para o desenvolvimento da economia nacional.
Mas hoje, como já dissemos, dedicam-se ao desmonte dessas mesmas empresas e setores econômicos, sem nenhum tipo de justificação estratégica de mais longo prazo, sobretudo no caso do setor energético, que é peça essencial da “segurança nacional” de qualquer país do mundo.
Veja-se o caso do Ministério de Minas e Energia (MME), por exemplo, que
é um dos mais militarizados do governo Bolsonaro: além do Ministro-Almirante, o
gabinete ministerial conta com a presença de mais vinte militares, da ativa ou
da reserva, ocupando cargos de chefia, coordenação e assessoria. E esta
situação se repete no Sistema Eletrobras, onde
militares têm postos destacados em unidades como Eletrosul, Eletronorte,
Eletronuclear, CHESF e Itaipu Binacional. E o mesmo se deve dizer do Sistema Petrobras, que é dirigido por militares com
presença na presidência e no conselho de administração da empresa, desde onde
lideram a desmontagem da própria empresa.
A petrolífera brasileira vendeu a
BR Distribuidora com seus postos de combustíveis, colocou à venda suas
refinarias e passou a refinar menos diesel, gasolina e gás. O
mercado foi aberto para a IMPORTAÇÃO DESSES DERIVADOS, e os importadores
passaram a pressionar para que o preço no Brasil fosse equivalente ao preço
no mercado internacional.
Assim se adotou a chamada “política de preço de paridade de importação”, que trouxe enormes lucros e ganhos para os acionistas da Petrobras, mas vem prejudicando diretamente os cidadãos brasileiros, com o aumento contínuo dos preços dos combustíveis e a aceleração em cadeia das taxas de inflação da economia.
O mesmo desmonte se dá no setor elétrico
Da mesma forma, no caso da energia elétrica, a elevação dos preços está primariamente relacionada a mudanças no regime hidrológico, mas no caso brasileiro atual ela está diretamente vinculada ao desgoverno do setor controlado por militares, mas carente de monitoramento, planejamento, coordenação e melhorias no Sistema Eletrobras, cujos investimentos sofreram redução significativa nos últimos anos.
Não há precedente, na experiência internacional, de um Estado que
esteja se desfazendo de sua principal empresa de energia elétrica em
meio a uma crise hidroenergética e num cenário de elevação na tarifa
de luz.
Mas é isto que os militares brasileiros estão fazendo ou deixando que façam. Praticando uma espécie de negacionismo energético que contraria toda sorte de fatos e dados, o Almirante Ministro das Minas e Energia afirmou que “a crise de energia, a meu ver, nunca ocorreu” (entrevista à Folha de S. Paulo, em 01/01/2022); manifestando total despreocupação com a soberania nacional, o oficial que preside o conselho de administração da Eletrobras reiterou que “o futuro da empresa é a privatização” (declaração à imprensa em 07/01/2021); e revelando integral descaso com a noção de cidadania, o General Presidente da Petrobras endossa que “a Petrobras não pode fazer política pública” (artigo ao jornal O Estado de S. Paulo em 08/01/2022).
Outros setores nos quais os militares são incompetentes
Isto está acontecendo no setor energético, mas a mesma incompetência ou desgoverno se encontra também em outras áreas do governo comandadas pelos seus militares, sejam eles velhos generais de pijama ou jovens oficiais que se especializaram rapidamente na compra e revenda de vacinas na área da saúde por exemplo, onde a incompetência militar teve efeitos mais dramáticos e perversos e atingiu a cidadania brasileira de forma extremamente dolorosa.
E o mesmo está acontecendo fora da área econômica, como no caso da administração militar verdadeiramente caótica da ciência e tecnologia e da questão ambiental amazônica, para não falar da situação esdrúxula de um Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República que não conseguiu monitorar, e nem mesmo explicar – até hoje – o carregamento de cerca de 40 quilos de cocaína encontrado dentro de um avião da comitiva presidencial, em uma viagem internacional do próprio presidente.
O desempenho dos militares brasileiros e a volubilidade de suas concepções sobre o desenvolvimento nos trazem de volta à tese do historiador britânico Niall Ferguson. Ele atribui a “incompetência universal” dos militares às próprias regras funcionais da carreira dos soldados, e é possível que ele tenha razão. Mas nossa hipótese extraída da experiência brasileira parte de outro ponto e vai numa direção um pouco diferente.
Grande patriota!!! Jair Bolsonaro batendo continência para a bandeira dos Estados Unidos da América - bem subserviente, do jeito que os gringos gostam! |
Militares submissos à uma potência estrangeira
Do nosso ponto de vista, a incompetência governamental dos militares brasileiros começa por sua subserviência internacional a uma potência estrangeira, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial. Uma falta de soberania externa que multiplica e agrava a fonte primordial da inabilidade e do despreparo do militar brasileiro para o exercício do governo em condições democráticas. Sintetizando nosso argumento: a maior virtude dos militares é sua hierarquia, disciplina e sentido de obediência e, portanto, para um “bom soldado”, é falta grave ou mesmo traição qualquer questionamento das “ordens superiores”. Como consequência, a “verdade” de todo soldado é definida pelo seu superior imediato, e assim sucessivamente, até o topo e ao fim da sua carreira. Dentro das Forças Armadas, a “obediência cega” é considerada uma virtude e condição indispensável do sucesso na guerra ou em qualquer outra “situação binária” em que existam só duas alternativas: amigo ou inimigo, ou “azul” ou “vermelho”, como costumam se dividir os militares em seus “jogos de guerra”.
Não existe a possibilidade do “contraditório” nesse tipo de hierarquia, e é por isso que se pode dizer que a hierarquia militar é por definição antidemocrática. Mais ainda, nesse tipo de hierarquia altamente verticalizada, como é o caso dos militares, a crítica, a mudança e o próprio exercício inteligente do pensamento são proibidos ou desestimulados, e é considerado uma falta muito grave. Portanto, é a própria disciplina indispensável ao cumprimento das funções constitucionais das Forças Armadas, que os incapacita para o exercício eficiente de um governo democrático.
No caso brasileiro, este tipo de
cabeça autoritária pôde conviver, durante o período da ditadura militar – entre
1964 e 1985 – com o projeto econômico do “desenvolvimentismo conservador”,
porque não havia democracia nem liberdade de opinião, e porque as prioridades
do projeto já estavam definidas de antemão desde a segunda revolução
industrial. A planilha era simples e ajustada para cabeças binárias: construir
estradas, pontes, aeroportos e setores fundamentais para a industrialização do
país.
Ao mesmo tempo, essa mentalidade binária e autoritária, e
distante da sociedade e do povo brasileiro, contribuiu para a criação
de uma das sociedades mais desiguais do planeta, devido a
sua total cegueira social e política.
Depois da redemocratização, em 1985, essa mesma cabeça bitolada das novas gerações militares perdeu a capacidade de entender a complexidade brasileira e o lugar do país na nova ordem mundial multilateral do século XXI. A Guerra Fria acabou, os Estados Unidos deixaram de apoiar políticas desenvolvimentistas, e tudo indica que a formação militar foi sequestrada pela visão neoliberal. Como resultado, os militares brasileiros ainda não conseguiram:
* se desfazer de sua visão
anticomunista do período pós-guerra,
* volta e meia confundem a Rússia com
a União Soviética, e ainda somam a isto
* uma nova visão binária, oriunda dos manuais de economia ortodoxa e fiscalista, em que o próprio Estado é tratado como grande inimigo.
Resumindo nosso ponto de vista: a geração dos militares “desenvolvimentistas” brasileiros do século XX foi “vassala” com relação aos EUA, tinha uma visão apenas territorial do Estado e da segurança nacional, e possuía uma visão policialesca da sociedade e da cidadania, mas apoiou uma estratégia de investimentos que favoreceu a industrialização da economia até os anos 1980. Já a nova geração de militares “neoliberais” do século XXI aprofundou sua vassalagem americana, trocou o Estado pelo mercado, seguiu atropelando a democracia e os direitos sociais dos cidadãos brasileiros.
Porque os militares não conseguem governar o Brasil:
Neste ponto, podemos voltar à tese
inicial de Niall Ferguson, para complementá-la
ou desenvolvê-la, porque no caso de uma “corporação militar vassala”, e em um
país periférico como o Brasil, a incompetência militar se vê agravada pela
sua submissão à estratégia militar e internacional de outro país:
1) Não se pode governar um país quando não
se tem autonomia para definir quais são seus próprios objetivos estratégicos,
e quais são seus aliados, competidores e adversários.
2) Não se pode governar um país quando não
se aceita o contraditório e se trata como inimigos todos os que divergem de
suas opiniões.
3) Não se pode governar um país quando se
tem medo ou está proibido de pensar com a própria cabeça.
4) Não se pode governar um país
enquanto se olha para seus cidadãos como se fossem seus subordinados.
5) Não se pode governar um país
enquanto não se compreender que a obrigação fundamental do Estado e o
compromisso básico de qualquer governo é com a VIDA e com os DIREITOS À
SAÚDE, ao EMPREGO, à EDUCAÇÃO, à PROTEÇÃO e ao DESENVOLVIMENTO MATERIAL E
INTELECTUAL de todos os seus cidadãos, independentemente de sua classe,
raça, gênero, religião ou ideologia, sejam eles seus amigos ou inimigos.
– * – * – * – * – * –
* José
Luís Fiori é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em
Economia política Internacional (PEPI), coordenador do Grupo de Pesquisa da
UFRJ/CNPQ “O poder global e a geopolítica do Capitalismo”, coordenador adjunto
do Laboratório de “Ética e Poder Global”, pesquisador do Instituto de Estudos
Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou: O Poder
global e a nova geopolítica das nações, 2007, e História, estratégia e
desenvolvimento, 2014, pela Editora Boitempo (São Paulo – SP); Sobre a
Guerra, 2018, e A Síndrome de Babel, 2020, pela Editora Vozes
(Petrópolis – RJ).
** William Nozaki é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 31 de janeiro de 2022 – Internet: aqui (Acesso em: 02/02/2022).
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