6º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 6,17.20-26
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Felizes os que não se deixam escravizar pelos bens e pelas riquezas deste mundo
«Não haverá pobres no meio de ti», esta é a vontade de Deus, a qual encontramos expressa no livro de Deuteronômio no capítulo 15 versículo 4, e que, então, achará a sua realização nos Atos dos Apóstolos, onde o evangelista escreve que a primitiva Comunidade cristã testemunhava com força a ressurreição de Cristo, porque nenhum membro passava necessidade. Por esta razão, os pobres são considerados infelizes, pois é dever da comunidade cristã tirá-los da sua condição de pobreza.
Jesus jamais proclamou os pobres bem-aventurados, os pobres são
infelizes e é dever da comunidade cristã retirá-los da sua condição.
Encontramos as bem-aventuranças em duas versões:
a) no Evangelho de Mateus são oito [Mt 5,1-12a], onde Jesus se
dirige àqueles que devem optar por entrar nessa condição, por isso Jesus fala de
pobres de espírito, de força interior;
b) no Evangelho de Lucas que examinamos agora, no capítulo 6 do
versículo 17, ao contrário, a pobreza é uma condição que os discípulos já
escolheram.
Portanto, Jesus nunca proclama bem-aventurados os pobres que a sociedade fez, mas aqueles que livre e voluntariamente entraram nessa condição e não são abençoados porque são pobres, são abençoados pela resposta de Deus à sua escolha.
Lucas 6,17.20:** «Jesus desceu
com eles da montanha e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus
discípulos e uma grande multidão do povo, de toda a Judeia e de Jerusalém, e do
litoral de Tiro e Sidônia. Então ergueu o olhar para os seus discípulos e
disse-lhes: “Bem-aventurados vós, os pobres, pois vosso é o Reino de Deus!»
Escreveu o evangelista: «Vós que fizestes esta escolha, que deixastes tudo e o seguistes, sois abençoados, isto é, plenamente felizes». Essa não é uma condição estática, mas dinâmica, em andamento, porque o reino de Deus é de vocês, isto é, Deus cuida de vocês.
Lucas 6,21: «Bem-aventurados vós que agora passais fome, pois sereis
saciados! Bem-aventurados vós que agora estais chorando, pois haveis de rir!»
Jesus veio para inaugurar o Reino de Deus, uma sociedade alternativa onde, em vez de acumular para si, se reparte generosamente pelos outros e, para quem faz isso, há a resposta de Deus que cuida dele e de quaisquer elementos negativos dessa escolha. A necessidade e a perseguição são neutralizadas pela ação do Pai.
Lucas 6,22-23: «Bem-aventurados sereis quando vos odiarem, vos expulsarem e
injuriarem, quando banirem o vosso nome como coisa má, por causa do Filho do
Homem. Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois grande é a vossa recompensa no
céu. Assim os pais deles faziam aos profetas.»
Qual é o motivo dessa perseguição? Que a bem-aventurança
da pobreza torna a pessoa totalmente livre. Jesus diz: «por causa do
Filho do Homem». O Filho do Homem é o homem que tem a condição divina,
portanto o homem totalmente livre, e...
... a instituição, toda instituição seja religiosa que política,
detesta as PESSOAS LIVRES e desencadeia a perseguição.
Mas Jesus diz «não vos preocupeis porque Deus está do
vosso lado». Entre os perseguidos e os perseguidores, Deus está sempre
do lado dos perseguidos. É por isso que Jesus diz: «Alegrai-vos». E,
Jesus acrescenta: «Assim os pais deles faziam aos profetas».
Para Jesus o papel do discípulo na comunidade cristã é o do profeta, quem é o profeta? Aquele que torna visível o Deus invisível em sua própria existência, aquele que, sobretudo, em harmonia com Deus, amplia o horizonte da comunicação entre Deus e os homens.
Lucas 6,24-25: «Mas, ai de vós, ricos, pois já tendes vossa consolação! Ai
de vós que agora estais fartos, pois passareis fome! Ai de vós que agora estais
rindo, pois ficareis de luto e chorareis!»
Mas, depois de ter proclamado plenamente felizes aqueles que fizeram a escolha de compartilhar seus bens, porque é disso que se trata neste texto do Evangelho, Jesus faz um lamento fúnebre sobre os ricos. É traduzido como um problema, mas não são ameaças, não são palavrões, é uma compaixão. O “ai” refere-se à expressão hebraica “hoi” que era o lamento fúnebre. Jesus chora os ricos como se já estivessem mortos, aqueles que, em vez de compartilhar para os outros, acumularam para si.
Não esqueçamos que é o evangelista Lucas, que nos conta a parábola do rico e do pobre Lázaro [Lc 16,19-31], o rico que vive só para si e é condenado não porque maltratou os pobres, mas simplesmente porque os ignorou em sua existência.
Aqui, Jesus passa a chorar, poderíamos traduzir “infelizmente”
ou “pena de”: «vós que agora estais fartos, vós que agora estais
rindo», isto é, vocês que causaram a fome, vocês que causaram
sofrimento e Jesus chora por eles como gente já morta! No Evangelho, o
ensinamento de Cristo é que se possui apenas o que se dá.
O que retemos para nós não é possuído, mas nos possui.
Essas pessoas ricas acreditavam que possuíam bens, na verdade
eles eram possuídos por esses bens, adoravam Mamon e Mamon, o lucro e a
conveniência, os destruiu.
[Observação: Mamon era considerado o deus das riquezas entre o povo Sírio. Os evangelhos também consideram Mamon como sendo o demônio das riquezas e ao demônio de uma forma geral. Essa palavra vem do hebraico - que significa “dinheiro”.]
Lucas 6,26: «Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois assim os pais
deles faziam aos falsos profetas.»
O critério de autenticidade do discípulo, do
profeta pode ser visto pela relação que ele tem com o sistema:
... se o sistema lhe elogia, lhe gratifica, lhe recompensa, vê-se
logo que você é um falso profeta.
Se, por outro lado, o sistema persegue você, significa que você está indo contra a corrente, você está seguindo Jesus, mas só indo contra a corrente você encontrará a água sempre cristalina, sempre fresca.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos
os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial
da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 3. ed. Brasília
(DF): Edições CNBB, 2019.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Odeio o privilégio e o monopólio. Para mim, tudo o que não pode ser dividido com as multidões é tabu.” (Mahatma Gandhi: 1869-1948 – filósofo e político indiano)
Primeiramente, deve ficar bem claro que as bem-aventuranças, seja aquelas de Mateus, seja estas de Lucas (provavelmente as mais originais e antigas), foram pensadas e pronunciadas tendo como destinatários os(as) discípulos(as). Jesus fala para aqueles que se sentem vinculados, unidos a ele, ao seu projeto de Reino de Deus. Ele tem consciência de que, apenas uma minoria, está disposta a ser pobre por opção, por iniciativa e não por consequência de uma situação social injusta.
Jesus não é ingênuo, ressentido ou impotente diante do empobrecimento e da miséria de seus irmãos! Ele possui uma “visão intensa da justiça de Deus, que não pode permitir o triunfo final da injustiça” (J. A. Pagola). Por isso, ele não amaldiçoa os ricos, nem requer a vingança divina para eles. O que Jesus faz é compadecer-se, até o luto (!) daqueles que se deixam escravizar pelo dinheiro, pelas riquezas, pelos seus bens, mesmo que, para isso, tenham de explorar, expropriar e tomar, sempre mais, daqueles que já são pobres, já são humildes, já são pequenos!
Jesus vai no cerne da
questão:
Para ter sempre mais, para acumular
sempre mais, o ser humano se desumaniza, esquece-se de seus semelhantes, torna-se
indiferente, insensível ao que se passa na vida de seus irmãos e irmãs! Por
isso, essas pessoas ricas já estão MORTAS para a vida autêntica,
para a verdadeira felicidade, para o Bem, para o Reino de Deus!
A partir disso, surge a proposta radical das bem-aventuranças de Lucas: fazer-se pobre, acontentar-se com o essencial, saber partilhar, saber se doar, viver na sobriedade de quem sabe que NADA É SEU, tudo é de todos, tudo é de Deus! No fundo, Jesus pede que seus autênticos discípulos sejam PESSOAS LIVRES que não se igualam ao pensamento predominante que há neste mundo!
Não é por acaso que Jesus
respondeu a Pedro, quando este lhe interrogou sobre a recompensa que teriam seus
discípulos, aqueles que deixaram tudo, pelo fato de o seguirem:
“Em verdade, vos digo: ninguém que deixe casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos e campos, por causa de mim e do Evangelho,
ficará sem receber cem vezes mais: neste tempo agora, casas, irmãos, irmãs,
mães, filhos e campos – com perseguições –; e no mundo futuro, a
vida eterna” (Mc 10,29-30).
Que fique bem claro algo fundamental: “Se no mundo, chamado cristão, há a desigualdade que sabemos e sofremos, é que não cremos no Evangelho” (J. M. Castilo). Como dizia-nos o saudoso profeta, bispo-emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga:
“Na dúvida, fique do lado dos pobres”.
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Duas
coisas eu te pedi, esperando que não as recuses, antes de eu morrer: afasta de
mim vaidade e mentira, e não me dês indigência nem riqueza, concedendo-me
apenas minha porção de alimento. Isto para que, estando farto, eu não seja
tentado a renegar-te e comece a dizer: “Quem é o Senhor?” ou, tendo caído na
indigência, me ponha a roubar e profane o nome do meu Deus.»
(Provérbios 30,7-9)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – VI Domenica del Tempo Ordinario – 17 febbraio 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 10/02/2022).
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