QUANDO DEUS SE CALA
Guardar silêncio é sinal de sabedoria
Frei Betto
É frade dominicano brasileiro, teólogo, escritor de dezenas de livros, vários deles publicados no exterior, assessor de movimentos populares e CEB’s, entre seus últimos livros, destacamos “Espiritualidade, Amor e Êxtase” (Ed. Vozes, 2021)
Não vale a pena falar se minhas palavras não
forem melhores que o meu silêncio
Chega a amiga sem o sorriso que lhe é peculiar. Recebo-a no parlatório do convento com o pressentimento de que algo lhe esmaga o coração. Então, desabafa. Fala do:
a) genocídio (mais de 630 mil mortos)
promovido pelo governo federal ao minimizar a pandemia e negar a ciência;
b) das invasões de terras indígenas;
c) do feminicídio alarmante;
d) dos múltiplos casos de racismo;
e) dos sucessivos assassinatos de
crianças, no Rio, por supostas “balas perdidas”.
E antes de se calar, conclui: “Não
suporto o silêncio de Deus”.
Uma
longa pausa se abre entre nós. Porque não me julgo portador de elixires capazes
de consolar os aflitos. Também carrego minhas angústias e tantas
interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me
inquieta. Não creio em um deus “pronto socorro” que venha em resposta às minhas
súplicas. Nem mesmo sei quem é Deus, digo a ela, por mais que os catecismos e
as teologias se esforcem em defini-lo. Pura bravata!
Admito que Deus extrapola todos os nossos conceitos e nossas
palavras, ideias e fantasias.
Não cabe na mente nem na alma dos
humanos. É radicalmente o Outro! O Inominável, como o considera o
centésimo nome da divindade na lista muçulmana.
Mesmo
na Bíblia – com raras exceções, como no batismo de Jesus
(Marcos 1,11) –, Deus se cala. Faz-se presente disfarçado de nuvem,
de brisa suave, de sopro, de anjo etc. É o “Deus absconditus” (oculto)
de Pascal. Fez silêncio inclusive na agonia do Filho pregado na cruz: “Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, clamou Jesus ao ecoar
o Salmo 22 (Marcos 15,34). Aquele que Jesus tratava com tanta
intimidade, a ponto de chamá-lo Abba – “meu pai querido”, em
aramaico – agora estava tão distante que foi invocado pelo nome
genérico.
Deus também fez silêncio nos campos de concentração nazistas. Até o papa Bento XVI, ao visitar Auschwitz, em abril de 2010, exclamou: “Por que, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estavas nesses dias?” Da mesma forma, o salmista clamou: “Meus Deus, eu grito de dia e não me respondes!” (Salmo 22,2). E Javé adverte no livro dos Provérbios: “Vocês me chamarão, mas não responderei; procurarão por mim, e não me encontrarão.” (1,28).
PAPA BENTO XVI caminha pelo interior do campo de concentração nazista, em Auschwitz, durante visita em abril de 2010 |
Deus
é definitivamente um ser insondável, enigmático. É isso, na opinião de João
da Cruz, que nos permite crer ou não crer. “Onde tu te escondes?”, indaga o
místico espanhol, ao fazer eco ao profeta Isaías: “Tu és um Deus que se
esconde” (45,15).
Minha
amiga diz que está em crise de fé. Como os amigos de Jó. Recordo o conselho
de Alfred de Vigny:
“Nunca fale e nunca escreva sobre
Deus. Restitua-lhe o silêncio com o silêncio”.
Esse
silêncio significa a morte de Deus, como alertou Nietzsche? Óbvio que não. A
religiosidade está em plena ascensão no mundo. Nos Estados Unidos é
politicamente incorreto se declarar ateu… Figuras como o Papa Francisco e o Dalai
Lama se destacam como as mais respeitáveis.
Mas
convém assinalar que Deus também é evocado:
* pelos terroristas,
* pelos autocratas, como Bolsonaro, e
* seu nome é amplamente
tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis
atrocidades.
“Graças
a Deus”, roga uma família que, por pouco, não foi esmagada pela grande
pedra que se desprendeu no canyon de Capitólio (MG). E o que dizer aos
familiares das vítimas fatais? Dizer que não mereceram a bênção de serem
agraciados pela mão salvadora de Deus?
Digo
à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa
forma, invejo-o.
Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar
silêncio é uma atitude de profunda sabedoria. De saúde psíquica.
Não vale a pena falar se minhas
palavras não forem melhores que o meu silêncio.
Temos
medo do silêncio. Deus não, o que comprova a sua sapiência. Temos dificuldades
frente a tudo que requer silêncio, como dormir, orar, meditar, ocupar-se com um
livro… O silêncio nos atordoa. E tememos o mais definitivo dos
silêncios – a morte.
Digo à
minha amiga que não creio em Deus, creio em Jesus. E, por tabela, no
Deus de Jesus. Mas não sei quem ele é e nem isso me preocupa.
Apenas sei que, segundo Jesus, ele pode ser encontrado em todo e
qualquer gesto de amor.
A fé é um salto no vazio. Creio sem
saber. O foco de minha fé não é Deus, é Jesus. E mais do que ter fé em
Jesus, quero ter a fé de Jesus. Como escrevi no poema Domingo
no circo: “Domingo redondo aberto picadeiro ∕ Ensolarado por tão forte
ardor ∕ Me refunde, queima, alucina: ∕ Olhos vendados, sem rede sobre o chão, ∕
Atiro-me do trapézio em teu amor.”
Após nossa conversa, minha amiga parecia menos angustiada. Fez-se prolongado e leve silêncio entre nós. Até que ela se levantou, deu-me um abraço apertado e partiu em silêncio.
Fonte: Enviado por um amigo – Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022.
Comentários
Postar um comentário