2º Domingo da Quaresma – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 9,28-36
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Qual é o “seu” Messias?
Chegamos ao segundo domingo da Quaresma. Com Jesus, estamos caminhando rumo a Jerusalém, a cidade onde ele sofrerá muito, morrerá e ressuscitará. Estamos, pois, caminhando em direção à Páscoa. No domingo passado, celebramos Jesus que, uma vez assumida a missão de salvador da humanidade, foi posto à prova, não somente, por quarenta dias, mas em toda a sua vida nesta Terra. Contudo, obediente à vontade do Pai, expressa nas Escrituras Sagradas, venceu toda sedução diabólica!
Um pouco antes da cena que nos é proposta para este segundo domingo da Quaresma, Jesus havia feito o primeiro anúncio de sua paixão, morte e ressurreição (Lc 9,22). Em seguida, esclareceu quais eram as condições para ser seu discípulo, onde se destacou a necessidade de “dar a vida” pelo projeto do Reino de Deus (Lc 9,23-27). É claro que isso causa ressentimentos, causa decepção naqueles que buscam seguir Jesus.
Lucas 9,28:** «Uns oito dias
depois dessas palavras, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à
montanha para orar.»
Eis, aqui, a nossa passagem deste domingo, é o capítulo 9 do
evangelista Lucas do versículo 28 ao 36. Nos evangelhos, sempre são
importantes as indicações de local e tempo. De fato, o evangelista escreve:
“Uns oito dias depois dessas palavras”, ou seja, depois que Jesus
anunciou a sua morte. Por que o número oito? É típico dos evangelistas
nunca mencionar a morte de Jesus sem também dar uma indicação de sua
ressurreição. O oitavo dia é o dia da ressurreição de Jesus. Então,
Jesus agora mostra quais são os efeitos para a pessoa que passa pela morte.
Não são de destruição, de aniquilação, mas de empoderamento.
Jesus levou Pedro consigo. Este discípulo é
apresentado com o único apelido negativo indicando sua teimosia. Ele levou,
também, João e Tiago.
Serão os discípulos mais difíceis que Jesus levará sempre consigo
nos momentos importantes da sua vida.
O evangelista escreve: “... e subiu à montanha”, com o artigo definido, não é uma montanha qualquer, mas não está indicado. O evangelista não quer indicar um lugar topográfico, mas teológico. A montanha é o lugar da esfera divina, da condição divina.
Lucas 9,29: «Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua veste se
tornou branca e resplandecente.»
É típico de Lucas, nos momentos importantes de Jesus,
apresentá-lo em oração. Esse versículo mostra os efeitos da morte
anunciada anteriormente. A morte não mergulha a pessoa na escuridão, mas a
envolve na luz.
A morte, como dissemos, não destrói a pessoa, mas libera todas as suas energias de amor e vida.
Lucas 9,30: «E eis que dois homens conversavam com ele: Moisés e Elias.»
Quando o evangelista usa a expressão: “E eis que”, ele indica algo inesperado, uma surpresa. Por que Moisés e Elias? Foram os personagens que, no Antigo Testamento, falaram com Deus, mas sobretudo Moisés foi o grande legislador e Elias foi o profeta que com zelo, e também com violência, fez cumprir a lei de Moisés.
Lucas 9,31: «Apareceram em glória e conversavam sobre o êxodo que ele
estava para consumar em Jerusalém.»
Esta é uma característica típica do evangelista Lucas, usar este termo “êxodo” para indicar a libertação que Jesus veio trazer. Em Jerusalém, a cidade santa, Jesus será assassinado pelos mais altos representantes de Deus, pela instituição religiosa.
Lucas 9,32a: «Pedro e seus companheiros, estavam com muito sono.»
E, aqui, o evangelista menciona algo incompreensível para nós: “Pedro (de novo com o apelido negativo) e seus companheiros...”. Agora, eles não são mais companheiros de Jesus, mas seguem Pedro. Diante de tal revelação, o evangelista nos apresenta esses discípulos oprimidos pelo sono. Por quê? O sono significa incompreensão em relação ao que está acontecendo.
Lucas 9,32b-33: «Ao acordarem, viram a glória de Jesus e os dois homens com
ele. E enquanto esses se afastavam de Jesus, Pedro lhe disse: “Mestre, é bom
estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para
Elias”. Ele nem sabia o que dizia.»
O apelido pejorativo “Pedro” reaparece. É a
terceira vez, o número três segundo a linguagem dos evangelistas, sempre indica
o que é definitivo, então Pedro insiste em sua teimosia. Quando Pedro
dirige a palavra a Jesus, ele não o chama de “mestre” como vejo aqui na
tradução, mas o termo usado por Lucas é “chefe” (grego: epistáta),
alguém a quem se submeter. Esta é a ideia que Pedro tem de Jesus.
Por que essas tendas? Das três festas muito importantes que pontuavam a vida
religiosa de Israel, a festa da Páscoa, a festa de Pentecostes e
a festa das Tendas, a última era a mais importante. Tão importante, que
não precisou ser nomeada, bastava dizer “a festa” e ficou claro que era a festa
das Tendas. Era a festa que comemorava a libertação da escravidão egípcia,
e durante uma semana - ainda hoje em Israel - vive-se sob os galhos, sob as
tendas.
Bem, a tradição dizia que o Messias chegaria durante a Festa
das Tendas. Em memória da antiga libertação, a nova libertação seria
inaugurada. Assim, o esperado messias, o da tradição, se manifestaria nesta
festa. É por isso que Pedro pede para construir três tendas. Ele quer
que Jesus se manifeste como o messias.
Quando há três personagens, geralmente o mais importante é colocado no centro. Para Pedro, o mais importante não é Jesus, no centro, para Pedro, está Moisés, o legislador. Depois, Jesus assim como Elias, ao lado, como aqueles que fazem esta lei ser praticada. Mas para Pedro o mais importante é Moisés.
Lucas 9,34: «Enquanto ainda falava, desceu uma nuvem que os cobriu com
sua sombra. Ao entrarem na nuvem, os discípulos ficaram cheios de medo.»
Pedro ainda não havia concluído o seu discurso, então, “desceu
uma nuvem que os cobriu”. A nuvem, no Antigo Testamento, é uma imagem da
presença ativa de Deus. Então, Pedro e os demais discípulos fazem essa
experiência de Deus. É estranha, no entanto, a reação de Pedro! Na
primeira vez que ele se viu na frente de Jesus, durante a pesca milagrosa,
pediu a Jesus que se afastasse dele, porque era pecador (Lc 5,8-9). E, desta
vez, fazendo uma experiência de Deus, tem medo dele! Por isso, o evangelista
nos faz entender...
... o quanto uma tradição religiosa, uma ideologia religiosa, pode ser um obstáculo para a compreensão do verdadeiro Deus.
Lucas 9,35: «E da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o
Eleito. Escutai-o!”»
Por FILHO se entende não apenas aquele que nasceu do pai, mas aquele que se assemelha a ele no comportamento. Então, Deus diz que ele está todo em Jesus. “O Eleito. Escutai-o!” É um imperativo, isto é: “Ouçam-no!” Depois, desaparece Moisés, desaparece Elias e há só Jesus para se escutar, é uma indicação muito preciosa que o evangelista dá à sua comunidade. Devemos ouvir a mensagem de Jesus, e o que está escrito nos textos de Moisés ou nos livros proféticos deve ser confrontado com o ensinamento de Jesus: se estiver em harmonia leva-se em conta, senão não será a norma de comportamento para a comunidade cristã.
Lucas 9,36: «Ao ressoar a voz, Jesus ficou só. Os discípulos ficaram
calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que haviam visto.»
Esse silêncio é típico dos inimigos de Jesus. Por que eles
não contam nada? Porque não estão de acordo. Continuam ruins. Querem
um Jesus segundo a lei de Moisés e segundo o zelo violento de Elias, não
aceitam Jesus sem Moisés e sem Elias. Então, eles discordam de Jesus e
ficam em silêncio.
Portanto, o caminho da comunidade de Jesus, de compreensão de sua realidade, ainda é longo.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 4. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2020.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“E se o Cristo e o Messias vierem, e
eles forem dois caras diferentes?” (Thomas Eugene “Tom” Robbins:
89 anos – escritor norte-americano)
Quantas coisas nos fazem perder o foco, extraviar do caminho, distrair-nos com o que não é importante! Por isso, a Quaresma é um convite para adentrarmos no DESERTO com Jesus. Ele, assim, o fez no Evangelho do 1º Domingo da Quaresma, penetrando no deserto da sua vivência a fim de enfrentar as seduções atraentes que se apresentaram durante toda a sua vida entre nós. No deserto nos encontramos diante do essencial, diante da sobriedade, diante da carência, por isso, não há com o que se distrair, não há o que desperdiçar!
Estou me referindo a isso, a fim de chamar a atenção para a atitude de Pedro (e seus companheiros), no Evangelho deste 2º Domingo da Quaresma. O fato de possuir uma ideia bem cristalizada de messias em sua mente, faz com que ele tenha dificuldade em compreender (daí o sono da ignorância!) e aceitar o messias que é Jesus. Chegando ao ponto de colocá-lo abaixo (na realidade, ao lado) de Moisés e Elias!
Por isso, é bom nos perguntarmos,
sempre, como formamos a ideia que temos de Jesus Cristo? De onde retiramos
aquilo que forma a nossa crença nele?
Há um sábio provérbio chinês apropriado para essa circunstância:
“Nunca é tão fácil se perder como
quando se julga conhecer o caminho”.
Nessa cena da transfiguração, ficam claros alguns aspectos fundamentais de Jesus Cristo: a) Jesus está disposto a ir até as últimas consequências com seu projeto de reino de Deus, incluindo a morte! b) Está prometida a sua glorificação, mediante a ressurreição. c) Deus está presente em todos esses acontecimentos da vida de Jesus (= nuvem que envolve a todos). d) Jesus é a expressão e a palavra mais evidentes de Deus para a humanidade! Em Jesus, Deus se dá por inteiro! Ele se identifica, completamente, em seu Filho! Nenhum outro profeta, nenhum outro personagem pode substituí-lo!
Isso quer dizer algo muito
simples e sério:
Não há outro modo de conhecer e
obedecer a Deus a não ser conhecendo e seguindo Jesus Cristo, seu Filho!
E, para conhecer o Filho, basta observar o seu ESTILO DE VIDA,
seu projeto revela-se na maneira dele ser e atuar neste mundo!
Agora, assim como Pedro e outros discípulos, podemos viver em uma permanente contradição, como nos adverte J. M. Castillo:
«Por um lado, vai a nossa “fé”,
enquanto o “seguimento” de Jesus não focaliza nossas vidas no mesmo projeto
de humanização que traçou a vida de Jesus para nós.»
Qual é a solução? Há uma só! Nós, que nos consideramos cristãos e cristãs, necessitamos “interiorizar” a nossa religião a fim de reavivar a nossa fé. Isso quer dizer que (J. A. Pagola):
«Não basta ouvir o evangelho de maneira
distraída, rotineira e desgastada, sem desejo algum de escutar. Não basta,
tampouco, uma escuta inteligente preocupada somente em entender.
Necessitamos escutar Jesus vivo no mais íntimo de nosso ser... precisamos escutar
a Boa Nova de Deus, não a partir de fora, mas a partir de dentro.»
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Senhor
Jesus Cristo, ícone da majestosa glória do Pai, luz da luz, face do amor, faze-nos
subir à tua presença sobre o monte da oração e do diálogo com o Pai. Conquistados
pelo teu fulgor, desejaríamos que tu nos tivesses sempre contigo sobre o monte onde
amor e glória se fundem, mas o coração se perde com o pensamento do batismo
de sangue no qual devemos nos empenhar para participar de tua vida. Assusta-nos
o sacrifício, o dom total de nós mesmos. O monte da oração é muito árduo
para escalar sem ti. Único é o caminho que alcança a meta: passar
através da altura do Calvário. Nossas forças não podem resistir, gostaríamos
de fugir, desviar nossos passos e nosso olhar para outro lugar. Mas tu, por um
momento fugaz, dá-nos também, como aos três apóstolos, Pedro, Tiago e João, o dom
de ver além da vida quotidiana, para que até a cruz se transfigure e já
não nos assuste. Amém.»
(Marino Gobbin.
In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi per l’anno
litúrgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 139-140)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – II Domenica di Quaresima – 17 marzo 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 08/03/2022).
Comentários
Postar um comentário