3º Domingo da Quaresma – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 13,1-9
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Deus não pune, pois deseja a
conversão de todos!
O caminho pascal é, sobretudo, um caminho de libertação! Somente seres humanos livres podem ser felizes, de verdade! Sempre que Jesus tenta libertar as pessoas, aqueles que são contra esse processo de libertação aparecem imediatamente. É o que emerge no capítulo 13 de Lucas em seus primeiros 9 versículos, um episódio que só este evangelista tem.
Lucas 13,1:** «Nesse momento,
chegaram algumas pessoas trazendo a Jesus notícias a respeito dos galileus,
cujo sangue Pilatos tinha misturado aos dos sacrifícios que ofereciam.»
O evangelista escreve: “Nesse momento”. Que momento?
Jesus disse anteriormente, à multidão: “Por que não julgais por vós mesmos o
que é justo?” (Lc 12,57). Jesus tenta emancipar o povo da influência e
doutrina dos escribas e fariseus. São as autoridades religiosas que
determinam o que as pessoas devem acreditar e como devem acreditar, o que devem
praticar.
Então, Jesus convida as pessoas a crescer, a serem pessoas
maduras, que pensam com a própria cabeça e andam com as próprias
pernas. Isso é inadmissível para o poder religioso que deve sempre subjugar
as pessoas, tratando-as como se fossem crianças. E aqui está a reação.
Alguns vieram contar-lhe sobre uns galileus. Dizer “Galileu”, na época de Jesus, não indicava apenas a origem de uma região específica. Galileu significa “revolucionário” e indicava os zelotes, os terroristas da época. Recordemos a grande revolta de Judas, o Galileu, que está escrita nos Atos dos Apóstolos (5,35-37). Jesus, é bom ter em conta, era galileu.
Lucas 13,2: «Jesus lhes respondeu: “Pensais que esses galileus eram mais
pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa?»
Então, Jesus está tentando libertar o povo da influência das autoridades religiosas e esta ameaça vem a ele, um claro aviso ao estilo da máfia: “Cuidado Galileu, aqui os galileus têm um fim muito ruim”. Pois bem, Jesus não só não se deixa intimidar, mas vai ao ataque, reagindo.
Lucas 13,3: «Digo-vos que não. Se não vos arrependerdes, porém,
perecereis todos do mesmo modo.»
Jesus nega a conexão que vê o castigo como uma ação da parte de Deus para punir os pecados dos homens. “Digo-vos que não. Se não vos arrependerdes...”, isto é, se vocês não mudarem sua vida. Conversão ao evangelho indica colocar o bem do outro como o principal valor de sua existência. Portanto, Jesus diz: “Não, cuidado! Vocês, se não mudarem de vida, terão um final ruim”.
Lucas 13,4: «E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu
sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de
Jerusalém?»
Agora, Jesus continua. Se antes ele deu um exemplo geral, apontando para os galileus, agora ele está em Jerusalém e fala justamente dessa cidade, de Jerusalém. Siloé é um bairro de Jerusalém, ainda hoje, pode-se ver a base dessa torre que desabou. Aqui, se antes o exemplo era para os galileus, agora, Jesus o toma sobre o lugar de onde fala, ou seja, Jerusalém.
Lucas 13,5: «Eu vos digo que não. Se não vos arrependerdes, porém,
perecereis todos do mesmo modo”.»
Jesus reafirma, novamente, o que foi dito antes. Portanto, Jesus exclui absolutamente o castigo divino e os convida novamente à CONVERSÃO.
Lucas 13,6-9: «E Jesus contou-lhes essa parábola: “Certo homem tinha uma
figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar figos, mas não encontrou. Então
disse ao agricultor: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta
figueira e nada encontro. Corta-a! Para que ela ocupa inutilmente o terreno?’
Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano. Vou cavar em volta e
pôr adubo. Pode ser que venha a dar fruto; caso contrário, tu a cortarás.’”»
Jesus, em seguida, amplia o tema e aqui está uma resposta
a João Batista, que foi o último herdeiro dessa tradição que via Deus como
aquele que punia os pecadores. Recordemos que João havia dito: “Toda árvore
que não der bom fruto, será cortada e lançada ao fogo” (Lc 3,9).
Aqui, Jesus amplia o discurso e continua. A figueira e a
videira, no Antigo Testamento, são imagens de Israel, do povo de Israel.
Vimos João Batista dizer que se não der fruto, deve-se cortar e lançar no fogo.
Jesus não concorda. E esta é a ação de Jesus que é contrária a uma ação
que destrói, a uma ação que pune.
Jesus não veio para destruir, mas para trazer vida, para vivificar.
A ação de Jesus diante dos pecadores, diante das
pessoas estéreis, diante dos que não dão frutos, não é uma ação punitiva, mas vivificante,
ainda oferece novas possibilidades de dar frutos, de dar vida, e muito mais,
oferece essa possibilidade, mas colabora para que isso aconteça.
O Deus de Jesus, aquele que Lucas nos apresenta, é o Deus
para quem nada é impossível. Como ele escreveu no momento da Anunciação: “já
está no sexto mês aquela que era chamada estéril” (Lc 1,36b), falando de
Isabel, a parente de Maria, que todos diziam estéril.
Assim, mesmo uma árvore que parece estéril, pela ação de Deus e pela
colaboração do homem, pode dar frutos.
O ensino de Luca é muito claro, muito preciso. A quem vê uma relação entre pecado e castigo, Jesus anuncia de forma clara, exaustiva e definitiva que a ação de Deus com os pecadores não é punitiva, destrutiva, mas vivificante.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 4. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2020.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Com efeito, o Filho do Homem veio
procurar e salvar o que estava perdido.” (Lucas 19,10)
O evangelho de Lucas mostra, de modo didático, a trajetória de Jesus, o Filho do Homem, nesta terra. Jesus deixou claro, desde a sinagoga de Nazaré, sua terra, que ele...
foi enviado pelo Espírito de Deus a fim de anunciar a Boa Notícia
aos pobres, ou seja, a libertação dos mais fracos e oprimidos de todo tipo de
escravidão e precariedade!
Portanto, Jesus tem a missão de abrir caminho para fazer um mundo mais humano para todos. Porém, a maioria daqueles que o escuta, não compreende ou não quer abrir-se e abraçar esse Reino de Deus, que pede uma mudança grande das pessoas e deste mundo!
É muito mais cômodo e
menos trabalhoso prosseguir crendo em um Deus que:
pune os pecadores, recompensa os justos
e exerce uma vigilância estreita sobre a humanidade, que ele controla! Com
isso, sempre há um ou uns “culpado(os)” por tudo de ruim que acontece neste
mundo. Nós nunca somos responsáveis!
Precisamos nos dar conta de algo fundamental: Deus não pode mudar o mundo sem que nós mudemos! Sem a nossa conversão, sem a nossa mudança de mentalidade e atitude, Deus não conseguirá fazer seu REINO se concretizar nesta terra!
E, aqui, se encontra algo
difícil de ocorrer em qualquer um de nós:
* A
mudança de mentalidade!
* A
mudança na maneira de pensar!
Desgraçadamente, sem isso, não há evangelização! Sem isso, o Evangelho não frutifica, a árvore de nossa vida permanece estéril, sem sentido!
Assim como o agricultor que mantém viva sua esperança de que “cavando em volta e pondo mais adubo” na figueira que não produz fruto, ela poderá reagir e tornar-se produtiva, também nós, devemos renovar as esperanças de que, Deus quer fazer o mesmo em cada uma de nossas comunidades frágeis e vulneráveis! Ele quer dar mais uma chance para acolhermos o REINO e devolvermos os FRUTOS que ele espera de cada um de nós!
Não desapontemos o nosso Senhor e Deus!
«Quantas
poucas vezes, ó Senhor Jesus, tomamos em mãos o jornal e lendo-o, nos detivemos
sobre cada notícia para considerá-la na sua verdade e torná-la ocasião de
oração e conversão. Não é isto que, hoje, o seu Evangelho nos pede? Salva-me da
desventura de pensar que eu não tenha nada a ver com esses acontecimentos do
mundo! Eu poderei estar envolvido neles sem querer, repentinamente. Salva-me da
desventura de pensar que tenha, ainda, tanto tempo para fazer frutificar os teus
dons. Cuida de mim, Senhor! Agita-me, converta-me. Faz com que, nesta Quaresma,
eu não possa suportar-me irascível, preguiçoso guloso, apático na oração, árido
e todo centrado sobre mim mesmo! [...] Dá-me aquele medo de ti que é o santo
temor de Deus: o medo de não ter mais tempo para converter-me e para amar-te
com todo o coração e fazer-te contente. Amém.»
(Marino Gobbin.
In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi per l’anno
litúrgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 150-151)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – III Domenica di Quaresima – 24 marzo 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 16/03/2022).
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