O pós-eleição 2022
Bolsonaro perdeu, mas seguirá influenciando na vida política do país
Cientista político, professor da Escola de Assuntos Públicos da Sciences Po (Paris) e da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade de Columbia (Nova York) e diretor do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS)
MIGUEL LAGO |
Presidente
articulou melhor que outros políticos valores emergentes da sociedade
Eleições costumam ser encaradas como forma de premiar ou punir o governo. O governante que melhora a vidas das pessoas seria reeleito ou elegeria seu sucessor. Aquele que piorasse a vida da população, não.
Em que pese a derrota, é surpreendente o sucesso
eleitoral de Jair Bolsonaro (PL):
* A economia piorou,
* a fome voltou,
* as políticas
públicas foram desmanteladas,
* milhares de pessoas
morreram na pandemia por causa do comportamento do presidente e
* o futuro foi
hipotecado.
Em circunstâncias normais, não estaria sequer no segundo turno.
De onde vem a força de Bolsonaro? Alguns dirão que a
sociedade brasileira é intrinsecamente conservadora e, portanto, preocupada com
a preservação dos valores cristãos e da família. O capitão reformado seria
aquele que melhor representa esse ideário.
A conclusão me parece apressada e superficial. Bolsonaro
não é conservador, muito menos representa os valores cristãos.
O conservadorismo político se construiu integralmente em
oposição à ruptura e à revolução. Mudanças radicais são seu pesadelo, e toda
a força política conservadora busca suavizar as mudanças, impedir os arroubos,
as rupturas. O conservadorismo é, por essência, contrarrevolucionário.
Bolsonaro é um revolucionário de extrema direita. Nada em seu
discurso se relaciona à tradição conservadora brasileira.
Ao contrário, ele articula forças emergentes e
insurgentes presentes em nossa sociedade:
* a religiosidade
neopentecostal,
* a estética do agro e
* a sociabilidade de perfil.
Apoiadores de Bolsonaro acompanham a apuração das urnas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília - Gabriela Biló/Folhapress |
Neopentecostais
O Brasil é o maior país católico do mundo, mas a
força religiosa preponderante é a neopentecostal. Para grande parte dos
fiéis católicos, a identidade católica não é definidora das escolhas do dia a
dia, como é a neopentecostal.
Esta identidade condiciona todas as decisões, desde a forma de se vestir, se comportar, consumir e votar. Sua influência no comportamento dos brasileiros é muito maior. Ainda que minoritária do ponto de vista estatístico, ela pesa muito mais do que a grande maioria silenciosa e desarticulada.
Agronegócio
Sobre o segundo ponto, o Brasil depende cada vez mais do agronegócio. Seu peso na economia tem sido crescente e acompanha a desindustrialização do país. Essa força econômica emergente articula uma estética própria.
A vestimenta de gaúchos e sertanejos, tão típica de nossa tradição rural, foi substituída pela de caubói. O rodeio se tornou o grande festival do país, e a música que mais toca nas rádios brasileiras é uma espécie de country music cantada em português.
A posse e o porte de arma completam a composição deste novo “homem do campo”. A promoção dessa nova estética é articulada pelo setor e difundida pelo país inteiro sob os slogans “o agro é pop”, “o agro é tech” e daí por diante…
Redes sociais – sociabilidade de
perfil
Quanto ao último ponto, a população brasileira está entre
as maiores consumidoras de redes sociais do mundo. A sociabilidade de
grande parte de nossos compatriotas se dá primordialmente através dos perfis de
redes sociais. Somos aquilo que desejamos projetar em nossos perfis.
O conhecimento foi substituído pela opinião, e o encontro na praça
deu lugar à aventura narcísica.
Bolsonaro soube articular muito bem esse novo ambiente comunicacional com a identidade neopentecostal e a estética do agro. Seu movimento se tornou o fio condutor dessas forças propulsoras e a partir delas o capitão reformado construiu uma nova gramática política desprendida da lógica do “bom governo”.
O que deseja a extrema-direita
O que está em jogo é derrubar a tradição brasileira e substituí-la
por uma nova visão de mundo.
Para tanto é necessário eliminar o “inimigo” —nomeado como “a
esquerda”, mas, na realidade, o bolsonarismo tem como alvo as construções
sociais e institucionais de décadas da sociedade brasileira.
O bolsonarismo representa uma ruptura política e cultural
com a tradição brasileira.
Quem vota em Bolsonaro não o faz por acreditar racionalmente que ele
representará melhor seus interesses, mas por representar suas opiniões.
Trata-se de um voto exclusivamente identitário.
Enquanto essas forças forem as identidades políticas preponderantes no país, o bolsonarismo seguirá ditando o ritmo da política. Bolsonaro perdeu neste domingo (30 de outubro) nas urnas, mas o trabalho para derrotar o bolsonarismo na sociedade será imenso.
Fontes: Folha de S. Paulo – Política – Eleições 2022 – Terça-feira, 1º de novembro de 2022 – Pág. A8 – Internet: clique aqui (Acesso em: 01/11/2022 – às 16h00).
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