Solenidade de Todos os Santos – Ano C – Homilia
Evangelho: Mateus 5,1-12a
Alberto
Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Aceitar e vivenciar as
bem-aventuranças promove o reinado de Deus no mundo
Introdução
A nova relação de amor entre Deus e seu povo precisa de uma nova
aliança. É o que Mateus nos apresenta em seu Evangelho no capítulo 5 com as
bem-aventuranças de Jesus. O evangelista apresenta Jesus colocado sobre “o”
monte. O artigo definido indica que não se trata de uma montanha qualquer,
mas uma montanha já conhecida. Ele quer representar o Monte Sinai, onde Moisés
recebeu de Deus a aliança com o povo de Israel.
Pois bem, agora Jesus não recebe a aliança de Deus, mas
ele – que é Deus e o evangelista o apresentou como “Deus conosco” – propõe
uma nova aliança com o povo. Moisés, o servo do Senhor, impôs uma aliança
entre os servos e seu Senhor baseada na obediência.
Jesus, que não é servo do Senhor, mas filho de Deus, propõe uma
aliança entre os filhos e o pai baseada na aceitação e na prática do seu amor.
E então Jesus abre a boca e lista as bem-aventuranças. O
evangelista teve um cuidado especial com este texto, tanto pelo número de
bem-aventuranças, que são oito. Por que oito? Jesus ressuscitou no
primeiro dia depois da semana, ou seja, no oitavo dia. Esse número “oito”, no
cristianismo primitivo, sempre indicou vida capaz de vencer a morte. O
número oito era o número da ressurreição.
Em seguida, o evangelista, que tem em mente o Decálogo de
Moisés (Ex 20,2-17; cf.: Dt 5,6-21), apresenta a alternativa das
bem-aventuranças. Enquanto a acolhida e prática do Decálogo garantia vida
longa nesta terra, a acolhida e prática das bem-aventuranças garante uma
vida tão forte, tão poderosa que não será interrompida nem pela morte.
Mas não é só isso, o evangelista chega a calcular com quantas
palavras, de acordo com o estilo literário da época, compor sua escrita.
Bem, são exatamente 72. Por que 72? Porque de acordo com o livro de
Gênesis era o número de nações pagãs conhecidas. Enquanto o Decálogo era
exclusivo do povo de Israel, as bem-aventuranças são para toda a humanidade.
O Decálogo se abria com a afirmação, a reivindicação
de Deus como o único Senhor de seu povo, razão pela qual a primeira das
bem-aventuranças não é igual às outras, tem o verbo no presente. É a escolha do
Pai como o único Deus.
O Decálogo prossegue com três mandamentos, exclusivos do povo
de Israel, e eram as obrigações absolutas para com Deus. Nas
bem-aventuranças não há obrigações para com Deus, porque Jesus é Deus conosco,
Deus se fez homem e deve-se ir com ele e como ele em direção à humanidade.
Assim, são elencadas em primeiro lugar situações de sofrimento humano, com
possibilidade de solução e ajuda de Deus e de seu povo.
O Decálogo continuava com sete mandamentos para com os
homens, no entanto, nas bem-aventuranças não há esses deveres para com os
homens, que já foram expressos, mas a ação de Deus na comunidade que acolhe as
bem-aventuranças.
E então, acolhendo as bem-aventuranças, será um
florescimento de diferentes atitudes que surgirão não como qualidades de
alguém, mas como atitudes reconhecíveis por parte daqueles que, acolhendo as
bem-aventuranças, serão por sua vez misericordiosos como o Pai é
misericordioso, serão puros de coração, serão construtores da paz.
E, por fim, a última bem-aventurança, que tem o verbo no
presente como a primeira, o acolhimento e a fidelidade às bem-aventuranças
não levará a aplausos do povo, mas à perseguição. Mas assim como a
escolha da primeira bem-aventurança, a da pobreza, que é a decisão de
compartilhar com alegria e liberdade com os outros, não tem efeitos negativos
porque Deus cuida dessas pessoas, assim também a última bem-aventurança, a da
perseguição, é atenuada pelo fato de que Deus cuida dos perseguidos.
A bem-aventurança inicial está ligada ao último dos
mandamentos. Qual
foi o último dos mandamentos? Não deseje as coisas dos outros. A primeira
felicidade é “querer que os outros tenham as mesmas coisas que você”.
Esta é a novidade do reino que Jesus veio propor.
Mateus 5,1-2:** «Ao ver as
multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os seus discípulos
aproximaram-se dele. Então, abrindo a boca, começou a ensiná-los, dizendo:»
Vendo as multidões, Jesus não se distancia, não se afasta, mas quer ativá-las, de onde? Sobre “a” montanha (cf. a Introdução acima). Então Jesus, através do anúncio dessas bem-aventuranças, quer levar as multidões e cada pessoa a alcançar a condição divina, então é um convite válido para sempre. “Ele sentou-se”, em uma atitude de mestre.
Mateus 5,3: «“Bem-aventurados os pobres no espírito, pois deles é o Reino
dos Céus.»
A primeira das bem-aventuranças é a mais importante de
todas, porque é a chave para a existência de todas as outras, e Jesus
começa proclamando: “Bem-aventurados”. Qual é o significado desta expressão? É
uma felicidade tão grande que foi considerada inatingível nesta terra.
Naquela época, naquela cultura, os bem-aventurados eram os deuses, que gozavam
de privilégios não concedidos aos humanos. Mas, para compreender as
bem-aventuranças, esta aclamação de Jesus “bem-aventurados” deve ser sempre
colocada depois das situações, ou das indicações que ele apresenta.
Os primeiros bem-aventurados são “os pobres no espírito”.
Deve-se dizer imediatamente que Jesus nunca proclama os pobres
bem-aventurados. Os pobres são infelizes, por isso, é dever da comunidade
cristã retirá-los de sua situação infeliz. Jesus não pede aos seus discípulos
que se juntem aos muitos, demasiados pobres que a sociedade produz, mas que se
comprometam a eliminar as causas da sua pobreza. Jesus proclama: “Bem-aventurados
os pobres no espírito”, ou de espírito. A partícula
grega (tō) pode ser traduzida de três maneiras, vamos ver qual pode ser
o significado:
a) Pobres “de” espírito, ou seja, os que carecem de espírito,
idiotas, mas não é possível que Jesus proclame a estupidez como a maior
aspiração do homem, por isso a descartamos.
b) Pode ser pobre “em” espírito, ou seja, uma pessoa que, apesar de
possuir bens, está espiritualmente desvinculada deles e, coincidentemente, essa
foi justamente a explicação apresentada pela Igreja. Mas Jesus não pede uma
pobreza espiritual, mas pede pobreza imediata. Quando encontra ou
colide com o rico, não lhe pedirá para se desapegar espiritualmente de suas
riquezas, mas pedirá um desapego imediato e real (cf. Mt 19,16-26).
c) Então a terceira possibilidade é pobres “para” o espírito, ou
seja, não aqueles que a sociedade empobreceu, mas aqueles que livremente,
voluntariamente, pelo espírito, por essa força interior que têm dentro de
si, optam por entrar nessa condição. O que não significa, como dissemos,
aumentar os muitos, demasiados pobres que a sociedade produz continuamente, mas
significa...
... diminuir seu padrão de vida, seu nível de vida, para permitir
que aqueles que o têm muito baixo o elevem um pouco!
Estes são os pobres no espírito, são aqueles que aceitam
partilhar generosamente o que são e o que têm.
Os pobres no espírito, aqueles que fazem esta escolha,
Jesus os proclama bem-aventurados “pois deles é”, o verbo está
no presente, não é uma promessa para o futuro, mas uma possibilidade
imediata, no presente. Infelizmente, no passado, esse reino dos céus criou muita
confusão, porque foi entendido como um reino nos céus, como se
fosse a vida após a morte, e de fato foi dito aos pobres que eles eram
abençoados porque iriam para o céu. Nada disso. Mateus é o único
evangelista que usa esta expressão “Reino dos Céus”, enquanto todos os outros
usam a expressão “Reino de Deus”. Jesus já havia anunciado o necessário
convite à conversão, porque o reino de Deus estava próximo (Mt 4,17).
Com a aceitação das bem-aventuranças, o Reino de Deus torna-se uma
realidade.
Mas o que significa este “Reino dos Céus”? Que Deus governa os seus. E como Deus governa seu povo? Não emitindo leis externas ao homem que ele deve observar, mas comunicando-lhes sua própria capacidade de amar. Então Jesus diz: aqueles que livremente, voluntariamente escolhem isso são bem-aventurados porque, a partir do exato momento em que fazem essa escolha, acolhem essa bem-aventurança, permitem que Deus se manifeste como Pai em sua existência.
Mateus 5,4-6: «Bem-aventurados os que choram, pois eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra. Bem-aventurados os que
têm fome e sede da justiça, pois eles serão saciados.»
Então todas as outras bem-aventuranças seguem em séries de três. As três primeiras (os que choram, os mansos e os que tem fome e sede da justiça) dizem respeito aos sofrimentos da humanidade, que uma comunidade cristã, pois as bem-aventuranças não são para um indivíduo, são para uma comunidade, é chamada a libertar desses sofrimentos.
Mateus 5,7-12a: «Bem-aventurados os misericordiosos, pois eles alcançarão
misericórdia. Bem-aventurados os puros no coração, pois eles verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz, pois eles serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo,
disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque
grande é a vossa recompensa nos céus”.»
As outras três bem-aventuranças (misericordiosos, puros no coração e promotores da paz) são os efeitos, o florescimento do amor no interior dos indivíduos e da comunidade, em consequência de acolher estas bem-aventuranças.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 5. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2021.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Não
andes averiguando quanto tens, mas o que tu és. A verdadeira felicidade não
consiste em ter muito, mas em contentar-se com pouco.”
(Santo Agostinho [354-430]: bispo,
filósofo, teólogo e escritor)
Hoje, tomarei a liberdade de reproduzir aqui, ipsis litteris, a profética e clara interpretação que o teólogo espanhol José María Castillo oferece para essa passagem do Santo Evangelho. Sua argumentação é tão lógica e profunda, que seria uma pena desconfigurá-la!
«A primeira impressão que se
tem, ao ler as bem-aventuranças, é uma impressão desconcertante. Porque se
trata de um texto contraditório e “contracultural”. Em que cultura se pode
afirmar que os “felizes” são todos os desgraçados deste mundo? É verdade que
Jesus disse as bem-aventuranças pensando em sua comunidade de discípulos e,
portanto, dirigindo-se a eles. Porém, quando se lê os evangelhos até o final,
nos encontramos com a inesperada surpresa de constatar que, no juízo último e
definitivo de Deus sobre a história, as nações e os seres humanos, encontramos
a chave da mensagem que contêm as bem-aventuranças.
E essa chave nos diz que Deus se identifica com todo aquele que
sofre. O que encontra a dor e o desamparo, o que realmente encontra é Deus.
Nisso consiste a mensagem
mais profunda das bem-aventuranças...
Um grupo, que se rege e
organiza sua vida a partir do que viveu e disse Jesus, é um espaço humano no
qual se produzem fatos incríveis:
* os pobres
deixam de ser uns desgraçados e se sentem felizes;
* os
que sofrem e choram encontram o remédio para seus males;
* os perseguidos
e caluniados se dão conta que o ódio e a maldade dos outros não lhes
causam dano e que vale a pena passar por cima de tudo isso. Porque a alegria
que se vive na comunidade dos discípulos vale mais do que qualquer outra coisa.
Se, efetivamente, as
bem-aventuranças expressam os frutos que se produzem em uma comunidade de
pessoas que “creem” em Jesus e o “seguem”, então, deve-se
chegar à conclusão de que Jesus não pensou, nem poderia pensar, que sua
mensagem poderia (e teria que) abarcar toda a sociedade. Porque é absurdo
pensar que toda a sociedade pensará assim e viverá assim... Para isso, seria
necessário modificar a condição humana. O cristianismo e a Igreja preferiram a
“extensão/tamanho” ao custo da “autenticidade”. Estamos falando de mais de um
bilhão de cristãos. Mas, realmente, somos tantos assim? Os pobres
"cristãos" são felizes? E os que sofrem e choram também? O que
fizemos com o Evangelho? Mero falatório vazio de conteúdo, se nos atermos
ao nosso comportamento.
A coisa mais urgente - agora e sempre - é que a Igreja creia no
Evangelho. E viva de acordo com ele. Essa é a primeira e principal coisa!»
(Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentarios al Evangelio diario – Ciclo C (2018-2019). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2018, p. 406-407)
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Senhor
Jesus, tu nos mostras o caminho das bem-aventuranças para alcançar aquela
felicidade que é plenitude de vida e, portanto, santidade. Todos nós somos
chamados à santidade, mas o tesouro dos santos é somente Deus. Tua Palavra, ó
Senhor, chama de santos todos aqueles que, no batismo, foram escolhidos por teu
amor de Pai, para serem conformes a Cristo. Faze, ó Senhor, que por tua graça
saibamos realizar esta conformidade com Cristo Jesus. Nós te agradecemos,
Senhor, pelos teus santos que colocaste em nosso caminho como manifestação de
teu amor. Pedimos teu perdão se desfiguramos teu rosto e negamos nosso chamado
para sermos santos. Amém.»
(Fonte: PAGLIARA, Cosimo O.Carm. 1 novembro: Tutti i Santi. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi: per l’anno liturgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 630)
Assista ao vídeo com a íntegra da homilia acima, clicando sobre esta imagem:
Comentários
Postar um comentário