3º Domingo da Páscoa – Ano A – Homilia
Evangelho: Lucas 24,13-35
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus se faz ver em cada partilha do pão
A morte de Jesus causou dispersão, confusão no grupo de discípulos. As mulheres vão procurá-lo onde não está, o Senhor, no sepulcro, e encontram dois homens que dizem às mulheres: «Por que procurais entre os mortos aquele que vive?». Os homens, ao contrário, os discípulos, dirigem-se para a história, para o passado, para um lugar glorioso em Israel, que os recorda a grande vitória de Israel sobre os povos pagãos. Vejamos o que nos escreve o evangelista Lucas no capítulo 24, a partir do versículo 13.
Lucas
24,13: «Naquele mesmo dia, dois dos discípulos iam para um povoado,
chamado Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém.»
A cena se passa no dia da ressurreição: “Naquele mesmo dia”. “Dois deles” (assim está no original grego) — estes “eles” são os apóstolos, a última referência foi aos apóstolos — “iam para um povoado, chamado Emaús”. Por que eles vão para Emaús? Emaús é famosa na história de Israel, encontramos as indicações no primeiro livro dos Macabeus, no capítulo quarto, para uma batalha que Judas, o Macabeu, travou contra os pagãos, derrotando-os; foi uma grande vitória e, como está escrito neste primeiro livro dos Macabeus: “E todas as nações saberão que existe Alguém que resgata e liberta Israel” (1Mc 4,11). O messias, que se esperava, era quem deveria ter redimido e salvado Israel e ao invés disso Jesus foi derrotado, foi uma grande decepção. Dos Evangelhos parece emergir que os discípulos estão mais desapontados com a ressurreição de Jesus do que com a sua morte, porque se Jesus tivesse simplesmente morrido, isso significava que eles estavam errados. Nessa época surgiram muitos pseudomessias, basta pensar em Judas o Galileu, Teudas, que criavam uma massa, que se revoltava contra os romanos, e sempre terminava em massacre. Bem, uma vez que um messias morria, esperava-se outro. Mas, se Jesus ressuscitou, significa que todos os seus sonhos de glória, precisamente de restauração, de libertação de Israel, de domínio sobre os romanos, tudo está chegando ao fim.
Lucas
24,14-21: «Conversavam
sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam,
o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles. Os seus olhos, porém,
estavam como impedidos de reconhecê-lo. Então Jesus perguntou: “O que andais
conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, e um deles,
chamado Cléofas, lhe disse: “És tu o único peregrino de Jerusalém que não sabe
o que lá aconteceu nesses dias? Ele perguntou: “Que foi?” Eles responderam: “O
que aconteceu com Jesus, o nazareno, que foi um profeta, poderoso em obras e
palavras diante de Deus e diante de todo o povo. Os chefes dos sacerdotes e as
nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. E
nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já
faz três dias que essas coisas aconteceram!»
Mas vamos ver o texto. Jesus é o pastor que não abandona os seus discípulos. Mas, escreve o evangelista: “Os seus olhos, porém, estavam como impedidos de reconhecê-lo”. Como os olhos desses discípulos são impedidos de reconhecê-lo? É claro, eles olham para o passado e não conseguem ver o presente e o futuro, para onde Jesus os conduz. Cléofas é a abreviação de Cleópatros, que significa “do pai glorioso, do pai ilustre”, o que nos faz entender a atitude, o sentimento desses discípulos, eles buscam a glória de seu povo. E esse Cléofas se maravilha e diz: “És tu o único peregrino de Jerusalém”, e fala-lhe de Jesus, o Nazareno. Eis que para eles Jesus era o Nazareno; Nazareno significava “o desordeiro, o revolucionário”. Isso é o que acreditavam que estivessem seguindo: um messias que derrotaria os romanos. E aqui está a decepção com “os chefes dos sacerdotes e as nossas autoridades”; é grave que esses discípulos, esses apóstolos, definam “nossas autoridades” como aqueles que assassinaram seu mestre. E aqui está a decepção que mencionamos anteriormente: “nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel”. Aqui está a grande desilusão: esperavam o messias, mas ele morreu, e a prova de que Jesus não era o messias é que morreu, porque o messias não podia ter morrido, e por isso a desilusão da comunidade que tinha colocado todas as suas esperanças em Jesus.
Lucas
24,22-24: «É
verdade que algumas mulheres dentre nós nos deixaram espantados. Elas tinham
ido, de madrugada, ao túmulo e, como não encontraram o corpo dele, voltaram
dizendo que tinham visto anjos, os quais afirmaram que ele está vivo. Alguns
dos nossos foram ao túmulo, e não encontraram »
A ida das mulheres ao túmulo de Jesus e o testemunho delas são narrados com relutância, eles não afirmam que não acreditaram nas mulheres, no entanto, para aquela sociedade as mulheres não eram testemunhas confiáveis. O evangelista escreve “Estes [os Onze], porém, acharam tudo o que informaram um delírio e não acreditaram” (Lc 24,11).
Lucas
24,25-27: «Então ele lhes disse: “Como
sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Não
era necessário que o Cristo sofresse tudo isso, para entrar na glória?” E
começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas
as Escrituras, o que se referia a ele.»
E aqui está a resposta de Jesus diante dessa descrença; é uma resposta que se traduz em uma repreensão, “Como sois sem inteligência e lentos para crer” - isto é, teimosos. A locução verbal “ser necessário”, literalmente, “devia”, indica a vontade de Deus de que o Cristo passasse por esses sofrimentos. “E começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes” ― ou melhor, interpretou-lhes ― “em todas as Escrituras, o que se referia a ele”. Esse verbo “explicar, interpretar” é importante: é o verbo de onde vem o termo técnico hermenêutica. O que é hermenêutica? É a arte ou técnica de interpretar textos. Jesus não apenas lê os textos de Moisés ou dos profetas ou os conta, mas os interpreta. O que isso significa? Este é um critério válido para todos nós hoje, (significa) que, para ler a Escritura, deve-se interpretá-la, como? Com o mesmo espírito que a inspirou. E qual é esse espírito que inspirou as Escrituras? O AMOR DO CRIADOR por todas as suas criaturas: este é o único critério que permite entender as Escrituras.
Lucas
24,28-29: «Quando
chegaram perto do povoado para onde se encaminhavam, ele fez de conta que ia
adiante. Eles, porém, insistiram: “Fica conosco, pois já é tarde e o dia está
declinando!” Ele entrou para ficar com eles.»
A aldeia/povoado é sempre um lugar de tradição, do passado, isso mostra que os discípulos, ainda, não entenderam, querem ir para o passado ― Jesus mostra que vai mais longe. Eles vão para o velho e Jesus, ao contrário, para o novo. Os discípulos insistem com Jesus, e ele, o pastor que não perde suas ovelhas, permanece com eles.
Lucas
24,30: «Depois
que se pôs à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a
eles.»
Aqui, o evangelista nos oferece a cena da última ceia, com os mesmos gestos e as mesmas ações: “pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles”. Para compreender esta passagem, recordemos que Lucas é o único evangelista que, à hora da ceia, Jesus pronuncia as palavras “fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Então Jesus repete a sua presença, a sua memória.
Lucas
24,31-35: «Então
os olhos deles se abriram e o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista
deles. E diziam um para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando
ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” Naquela mesma hora,
levantaram-se e voltaram a Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os
outros discípulos. E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e
apareceu a Simão!” Então os dois relataram o que acontecera no caminho, e como
o haviam reconhecido ao partir do pão.»
É quando
Jesus se manifesta como aquele que parte o pão, ou seja, a própria vida pelos
seus discípulos, que eles, os discípulos, o reconhecem. “Ele, porém,
desapareceu da vista deles”, aqui o verbo realmente não é sumir,
sumir significa desaparecer; não, escreve o evangelista “fez-se invisível”,
é outra coisa. Desaparecer significa que se foi, invisível significa que
está lá, mas você não pode vê-lo. Por que Jesus se faz invisível? O
evangelista nos conta, no final desta passagem, “eles relataram” –
depois que voltaram a Jerusalém – “o que acontecera no caminho, e como o
haviam reconhecido ao partir o pão”. Esta é a mensagem que Lucas, o
evangelista, deixa às comunidades e aos crentes de todos os tempos:
Jesus é invisível, porque se faz visível cada vez que a comunidade
parte o pão.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Não
é bastante amar, é preciso prová-lo!»
(Santa Teresa de Lisieux: 1873-1897 — freira carmelita
descalça francesa)
Nessa cena dos discípulos que se dirigem ao povoado de Emaús vê-se, claramente, as duas partes de nossa Eucaristia: a liturgia da Palavra (a partilha do pão da Palavra de Deus — Lc 24,27) e a liturgia Eucarística (a partilha do corpo e sangue de Cristo — Lc 24,30). Muitas vezes, acentua-se a importância do “partir o pão” para a identificação e confirmação da presença de Cristo em meio à comunidade! No entanto, sem a “explicação das Escrituras” como Jesus fez àqueles discípulos, a compreensão deles teria ficado a desejar! Seguiriam no escuro, sem compreender o porquê o Cristo sofreu tanto e terminou a sua vida daquele modo escandaloso!
As Escrituras eram conhecidas, mas não bem interpretadas! A Igreja dos primeiros tempos teve dificuldade em assimilar a experiência com Jesus, justamente porque se manteve atrelada à interpretação das Escrituras — leia-se Antigo Testamento — tal como se dava no judaísmo! A chave de leitura estava equivocada, pois o Messias aguardado por Israel era fruto de uma má e imperfeita interpretação das Escrituras (Antigo Testamento). O nacionalismo, o belicismo, a violência e o revanchismo predominavam nessa visão messiânica! Israel esperava um Messias somente seu! Enquanto, Deus enviou seu Filho para o mundo, tal como expressou bem o autor do Evangelho de Lucas, na segunda parte de sua obra, em Atos dos Apóstolos: “recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, até os confins da terra” (1,8).
O engano das
lideranças religiosas judaicas e dos próprios discípulos de Jesus foi prenderem-se
ao PASSADO, pretendendo restaurá-lo em modo nostálgico-idealista, sem ter
os pés na realidade! Tanto é verdade que, quando eclodiram as duas principais
revoltas judaicas contra Roma, a derrota foi fragorosa e terrível! Vejamos:
* Primeira Revolta de 66 a 70 d.C., com Vespasiano (que
se tornou imperador durante esse período) e seu filho Tito destruindo
Jerusalém, o Templo e matando milhares de judeus;
* Segunda Revolta de 131 a 135 d.C., durante o governo do imperador Adriano, sob o comando do revoltoso Simeão Ben Koseba.
Hoje, corremos um risco muito semelhante, pois há grupos dentro de nossa Igreja que idealizaram o passado, também! Há os saudosistas da época do concílio de Trento (1545 a 1563), da missa celebrada em latim (Missal de São Pio V – 1570), da época da cristandade, na qual a Igreja estava unida ao Estado e funcionava apoiada pelo mesmo (a cristandade colonial brasileira durou de 1500 a 1759). O curioso que essas pessoas tão “saudosistas” dessas práticas que não nos dizem mais nada e não são próprias para os tempos de hoje, jamais viveram ou foram formadas nessa época, ou seja, no século XVI! Portanto, é uma aberração! Elas têm saudades daquilo que jamais conheceram ou viveram! Continuam presas ao passado, enquanto Jesus demonstrou que temos de olhar e nos preocuparmos com o presente e o futuro!
A maior urgência de nossa Igreja é fazer o possível e o impossível para que o Evangelho esteja nas mãos e na mente de nossos fiéis! Se o coração de tantos fiéis não arde mais, não consegue fazer uma experiência viva com o Cristo Ressuscitado, é porque não é apresentado, do modo correto, à palavra de Cristo nos evangelhos! Por melhor que sejam preparadas e executadas, as homilias das missas não bastam para evangelizar, de verdade, o nosso povo! Faz-se necessário criar outros momentos e espaços para a reflexão, meditação e compreensão correta da Palavra de Cristo na Igreja. Sem isso, o nosso futuro não será nada bom!
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Senhor Jesus, agradecemos-te a tua
palavra que nos conduziu passo a passo, como os discípulos de Emaús, a
compreender melhor a vontade do Pai. Deixa que teu Espírito ilumine nossas
ações e nos dê forças para seguir o que tua Palavra nos mostrou, realizando
assim a "ressurreição" de nossas mortes para nós como foi para os
discípulos naquele dia de Páscoa. Que nós, como Maria, tua Mãe, possamos não só
ouvir, mas também praticar a Palavra e que os nossos irmãos e irmãs possam ver
em nossa vida o testemunho vivo de uma adesão sempre nova e pessoal a ti. Tu
que vives e reinas com o Pai na unidade do Espírito Santo por todos os séculos.
Amém.»
(Fonte: MESTERS, Carlos O.Carm. 3ª Domenica di Pasqua: orazione
finale. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi: per
l’anno liturgico A. Leumann [TO]: Elledici, 2010, p. 248.)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –III Domenica di Pasqua – Anno A – 26 aprile 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 19/04/2023).
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