Lições para bloquear o fascismo brasileiro
CIA, Sicília e Rio Grande do Norte
Luiz Eduardo Soares
Antropólogo, Cientista Político e escritor. Ex-secretário nacional de segurança pública. Autor, entre outros livros, de O Brasil e seu Duplo (Todavia, 2019) e Dentro da Noite Feroz: o fascismo no Brasil (Boitempo, 2020)
Da esquerda para a direita, temos: Robert Kennedy e seu irmão John Kennedy |
Planos
de desestabilização da extrema direita
Impactante o artigo que Seymour Hersh publicou esta semana em seu blog no Substack [acesso aqui], desta vez não mais sobre o ato terrorista cometido pelo governo estadunidense contra os Nord Stream Pipelines [acesso aqui], que levavam gás russo à Alemanha, mas sobre a operação secreta deflagrada pela CIA contra a máfia na Sicília, por determinação dos irmãos Kennedy. Na ocasião, John era presidente e Bobby, attorney general [procurador-geral]. [1]
Além de fazer menção a várias tentativas de assassinar Fidel Castro, Seymour Hersh descreve o longo percurso pelo labirinto de contatos, silêncios, pistas falsas, entrevistas canceladas e mensagens cifradas, até descobrir o que se passou em 1962. Para efeito do que nos importa, nos limites deste breve artigo, registro apenas o resumo: com vistas a enfraquecer grupos da máfia nos Estados Unidos, especialmente em Chicago, o agente Charley Ford foi enviado à Itália. Tratava-se da retomada de uma ofensiva antimáfia, que marcara a atuação de Robert Kennedy como assessor de importante comissão de investigação no Senado, em 1959. Ofensiva sucedida por recuo, à época inexplicável, agora elucidada.
SEYMOUR M. HERSH - um dos melhores e mais ativos repórteres investigativos norte-americanos, descobridor de vários planos da CIA e atividades obscuras dos EUA |
Cito Seymour Hersh em tradução
livre:
“Outro
fator na decisão de Bobby de suspender as acusações contra Giancana [destacado
mafioso] tinha de ser a crença difundida de que seu pai, com a aprovação de Jack
(apelido de John), tinha feito um acordo com Giancana, cujas ligações políticas
em Chicago eram amplas, pelo apoio nas eleições de 1960. Além disso, Jack
Kennedy e Giancana estavam dormindo com a mesma mulher, um fato que só viria a
público depois que seu nome, Judith Exner, vazou durante as audiências do
Comitê Church. Bobby certamente também sabia disso.” [2]
Bobby recuperou a iniciativa e ousou um lance arriscado: exigiu que a CIA deslocasse um agente para cumprir missão que ele mesmo determinaria e o mandou para a Itália. Sua tarefa era grampear lideranças de duas famílias da máfia, ambas fiéis à sociedade Camorra, sediada em Nápoles, e semear a discórdia entre elas, com vazamentos direcionados e seletivos de traições e roubos mútuos inverídicos, até provocar a conflagração violenta.
O plano de contrainformação contou com o apoio dos Carabinieri e não teria sido possível sem o conhecimento já acumulado pela CIA, que vigiava a Camorra a partir de Roma, se beneficiando da precariedade dos meios de comunicação empregados pelos criminosos. Seymour Hersh afirma que, desde o fim da segunda guerra, agentes americanos estavam infiltrados e mantinham políticos da Democracia Cristã em sua folha de pagamento.
Nas palavras de Seymour Hersh,
que transcrevo a seguir:
“A CIA
jogou seu dinheiro nos democratas cristãos corruptos, na Máfia e na Mídia,
depois da segunda guerra mundial, temendo que a esquerda – ou seja, o Partido
Comunista –, com sua ênfase em programas sociais e estabilidade no trabalho,
pudesse conquistar o poder”. [3]
A guerra fratricida entre facções rivais provocou muitas perdas entre os mafiosos, mas acabou atingindo também militares e policiais italianos, assassinados num atentado, uma vez que a história chegou aos ouvidos da Camorra, que jurou vingança, inclusive contra Bobby e John. O presidente foi assassinado em novembro de 1963, mas a eventual participação da máfia jamais foi sequer considerada e essa trama nunca chegou à Warren Commission, responsável por investigar todas as linhas associadas ao homicídio.
Que lições podemos tirar, hoje, no Brasil, de um fato longínquo e distante no tempo? De meu ponto de vista, várias:
Livro revelador de como os Estados Unidos espionam e se intrometem no mundo inteiro, defendendo seus interesses econômicos e geopolíticos |
(a) Em
2023, 60 anos depois, o monitoramento dos alvos prescinde da tecnologia
rudimentar dos “grampos”, como nos mostrou Edward Snowden [cf. Eterna
vigilância: como montei e desvendei o maior sistema de espionagem do mundo,
editora Planeta, 2019]. Os recursos são muito mais potentes.
(b) A
ideia de mobilizar grupos criminosos contra seus competidores, parceiros
ou potenciais oponentes, visando enfraquecer cada um deles ou o conjunto, não é
nova e comprovadamente funciona.
(c) Funciona
segundo uma perspectiva estreita e socialmente irresponsável, pois, como
demonstra o caso em pauta, não é plenamente controlável: os
desdobramentos eram (e são) imprevisíveis, uma vez que a dinâmica desencadeada
não atendia a uma política sistêmica, compatível com a legalidade e o Estado de
direito, mas, ao contrário, apenas realizava a lógica da guerra (Proxy)
exportada para terreno alheio, em condições geopolíticas ostensivamente
imperialistas.
(d) A
CIA não corrompe somente políticos, como se sabe.
(e) A
arena em que atua não se esgota no campo criminal, evidentemente.
(f) A
questão criminal pode proporcionar um deslocamento do foco, mas a matriz das
intervenções é política, e mesmo geopolítica, quando não diretamente
econômica. Portanto, assim como o palco de operações num confronto bélico
pode se deslocar para um terceiro país, as ações também podem se deslocar de
uma esfera a outra. Por exemplo, se o objetivo for eliminar uma liderança de
esquerda, pode-se tentar neutralizá-la via justiça, em lugar de matá-la,
como nas décadas precedentes, foi o caso de Lula. São diversas as
esferas em que se desenrolam ações estratégicas, de porte transnacional, da
mídia à própria chantagem econômica — não por acaso os especialistas falam
em guerra híbrida.
(g) Finalmente, o ensinamento mais relevante, no momento presente: se o fascismo brasileiro quiser desestabilizar o governo, produzir crises e trazer de volta as Forças Armadas para o proscênio, devolvendo-lhes o protagonismo que a vitória da democracia lhe retirou, não será surpreendente se adotar estratagema análogo àquele descrito por Seymour Hersh, empregado pela CIA na Itália, em 1962: estimular conflagrações entre facções criminosas para provocar o caos. A Força Nacional dificilmente teria condições de garantir a segurança pública se as demandas locais se multiplicassem. A pressão para deflagrar uma operação de garantia da lei e da ordem (GLO), que sabiamente foi descartada em 8 de janeiro e de novo refutada no Rio Grande do Norte — apesar da solicitação de alguns agentes políticos, entre eles o presidente do Senado —, pode se tornar incontornável.
Conclusão: convém formular com urgência um plano B, que não envolva os militares. De preferência, um plano de caráter preventivo. E um plano dessa natureza envolverá, necessariamente, uma política de segurança pública, ou melhor, a reforma estrutural da segurança. Dado o contexto político, eu tomaria a liberdade de recomendar que se iniciasse pelo sistema penitenciário, criando condições para que a LEP (Lei de Execuções Penais) seja cumprida e o Estado, não as facções, domine as unidades.
Para isso, será preciso sustar o encarceramento em massa de pequenos varejistas do comércio de substâncias ilícitas. Tais medidas corresponderiam ao fim da perversa, iníqua e racista guerra às drogas. Vejam como nos prevenindo de golpes fascistas terminaríamos beneficiando a luta antirracista.
NOTAS
[2] — Versão
original inglesa: “Another factor in Bobby’s decision to drop the charges
against Giancana had to be the widespread belief that his father, with Jack’s
approval, cut a deal with Giancana, whose political ties in Chicago were
extensive, for political support in the 1960 election. It was also the case
that Jack Kennedy and Giancana were sleeping with the same woman, a fact that
would not be known to the public until her name, Judith Exner, was leaked
during the Church Committee hearings. Bobby surely knew that, too.” (Hersh, Seymour.
The Kennedys’ secret sicilian operation; What the CIA didn’t tell the Warren
Commission. Mar 29 at Substack).
[3] — Versão original inglesa: “The CIA had thrown its money into the corrupt Christian Democrats, the Mafia, and the media after World War II in fear that the left—that is, the Italian Communist Party—with its emphasis on social programs and worker stability, would gain power”. (Idem, ibidem).
Fonte: a terra é redonda eppur si muove – Colunista – Sexta-feira, 31 de março de 2023 – Internet: clique aqui (Acesso em: 01/04/2023).
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