4º Domingo da Páscoa – Ano A – Homilia
Evangelho: João 10,1-10
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Em Jesus, somos plenos de vida e liberdade!
Por ter aberto os olhos ao cego de nascença, Jesus foi acusado de pecador porque para eles o pecado é a transgressão da lei divina (cf. Jo 9,1-41). Pois bem, responde Jesus, afirmando que eles — os fariseus — são os pecadores, porque, para Jesus, o pecado é o que ofende o homem e é aos fariseus que Jesus dirige a advertência, que está contida no capítulo décimo do Evangelho de João; dirige-a aos fariseus de então, mas também aos de hoje. Vamos ouvir o que o evangelista nos escreve.
João
10,1: «Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra no redil
das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, esse é ladrão e assaltante.»
“Em verdade, em verdade”, quando
esta expressão é usada no Evangelho de João significa: eu vos asseguro, vos
digo com firmeza. “Vos digo”: portanto o discurso é dirigido aos
fariseus — “quem não entra no redil” — aqui o evangelista, para o
termo “cercado”, usou aquele que se usa não para ovelhas, mas para o
átrio do templo (αὐλή, lê-se aulê), porque ele quer fazer as pessoas entenderem: “atenção, não
se trata de cercas e ovelhas, mas de uma questão de pessoas e instituição
religiosa”. Jesus é muito claro, está falando aos fariseus:
“Vocês são ladrões, porque vocês se
apoderaram do povo de Deus. Jesus era o Deus, era o verdadeiro pastor e, acima
de tudo, vocês são bandidos, porque vocês usaram de violência para subjugar
esse povo”.
No fundo da denúncia de Jesus está toda a acusação que o profeta Ezequiel, especialmente no capítulo 34, faz contra os pastores, que governam o rebanho apenas para seu próprio interesse, para sua própria comodidade, e não estão interessados no bem e no bem-estar das ovelhas.
João
10,2-3a: «Quem,
porém, entra pela porta é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as
ovelhas escutam a sua voz...»
Jesus afirma ser, como Deus, o verdadeiro pastor de seu povo. Por que as ovelhas ouvem sua voz? Porque reconhecem, na voz de Jesus, a resposta à necessidade, ao desejo de plenitude de vida que cada pessoa traz dentro de si.
João
10,3b-4: «...
ele chama cada uma pelo nome e as leva para fora. E depois de conduzir para
fora todas as que são suas, ele caminha à frente e as ovelhas o seguem, porque
conhecem sua voz.»
Jesus não tem uma relação com a multidão, com a massa, com o rebanho, mas Jesus tem uma relação especial com cada indivíduo, com cada ovelha. “E ele as leva para fora”, o verbo usado pelo evangelista é o mesmo usado no livro do Êxodo para indicar a libertação da escravidão, rumo à terra da liberdade. “Depois de conduzir para fora” – literalmente expulsar – “todas as que são suas” – Jesus, no episódio da entrada em Jerusalém, já havia expulsado as ovelhas do templo. Jesus liberta as ovelhas do recinto da instituição religiosa, mas não as encerra em outro recinto, ainda que melhor, concede-lhes plena liberdade.
João
10,5-6: «A um estranho, porém, não
seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Tal foi a
comparação que Jesus lhes propôs, mas eles não entenderam o que ele queria
dizer.»
Essa palavra de Jesus não é uma constatação, é um conselho que ele dá: “mas fogem dele” — devemos fugir destes que se apresentam como pastores e, ao contrário, como veremos, são apenas lobos vorazes. As ovelhas conhecem a voz de quem as ama e não de quem as quer explorar, reconhecem, na voz dos falsos pastores, o desejo de poder, o desejo de dominação. “Tal foi a comparação que Jesus lhes propôs” — portanto ele se dirige aos fariseus, no entanto, aqui está a surpresa: “mas eles não entenderam o que ele queria dizer”. Como eles podem não entender? Simples, porque não são suas ovelhas, porque não são surdos, mas estão obstinados em sua tentação de poder, de ambição.
João
10,7-8: «Então,
Jesus tornou a falar: “Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das
ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas
não os escutaram.»
“Em verdade, em verdade vos digo: eu sou...”, e esta é a reivindicação do nome de Deus, portanto a plenitude da condição divina que se manifesta em Jesus. Em seguida, Jesus reitera a acusação contra os líderes religiosos de terem se apoderado do rebanho que pertencia a Deus — Deus era o pastor — e tê-lo subjugado pela violência. “Mas as ovelhas não os escutaram”, eis a observação de Jesus: o povo pode ter sido subjugado por medo, mas não por escolha própria.
João
10,9: «Eu
sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá, e encontrará
pastagem.»
Este
entrar e sair significa que Jesus não encerra o rebanho em outro recinto,
e a porta não se fecha. O fechamento da porta indica segurança para o rebanho,
mas falta de liberdade; não, seguindo Jesus, a liberdade é total, se entra e
sai. “E encontrará pastagem”: e aqui o evangelista joga com os
termos da língua grega, pois “pastagem”, na língua grega, diz-se “nome”,
enquanto para “lei”, diz-se “nomos”.
Então, com Jesus, não se encontra uma LEI a obedecer, mas se encontra pastagem, isto é, um ALIMENTO que dá vida.
João
10,10: «O
ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida, e a
tenham em abundância.”»
E na
conclusão, Jesus usa para esses autodenominados pastores as mesmas características
dos lobos, portanto não são pastores, mas são lobos, é preciso ter cuidado!
E aqui está o eco da acusação que o profeta Ezequiel já havia feito, no
capítulo 22, versículo 27:
“Os
príncipes no seu meio são como lobos que despedaçam a presa, derramando sangue
e destruindo vidas em sua avidez de lucro”.
Então Jesus identifica esses pastores como lobos, deve-se ter cuidado, deve-se fugir, afinal o que fazem é “roubar, matar e destruir”. As verdadeiras vítimas da adoração no templo são as pessoas: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”. Portanto, é um convite de Jesus a emancipar-se destes pastores, que impõem, que obrigam e para acolher o dom da plenitude de vida que Jesus oferece incondicionalmente a cada pessoa que escuta a sua voz.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«O farisaísmo
está vivo hoje, visto que segue abundando religião que domina e faltando
Evangelho que liberta!»
(Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo)
É desconcertante o fato de Jesus fazer um ataque tão duro e direto aos pastores mais observantes dos rituais religiosos e normas morais bíblicas daquela época, ou seja, os FARISEUS! Todo o problema reside no fato de que os rituais e normas religiosos acabam sendo um fim em si mesmos! Quem os pratica se convence de que o importante é a obediência a esses ritos e normas! Esquecem-se que o fundamental, para Cristo, é a conduta de vida, a conduta moral, a vida que devemos ter como pessoas que creem em Deus.
Traduzindo, isso significa que existem muitas pessoas que se acham “extremamente religiosas e piedosas” pelo fato de frequentar assiduamente a Eucaristia, grupos de terço, participar de pastorais ou movimentos ou equipes que existem em nossas comunidades, ser dizimista, contribuir em campanhas da Igreja etc., etc., etc. Porém, a vida dessas mesmas pessoas como empresário(a), empregado(a), marido, esposa, estudante, namorado, namorada, mãe, pai, filho, filha... não expressa, absolutamente, o amor, a doação de si mesmo, a misericórdia, o perdão e a justiça que Jesus Cristo tanto vivenciou em seu dia a dia!
As pessoas confundem qual é a PORTA que, de fato, conduz à vida, à salvação, à eternidade! Essa porta não é a IGREJA, em si mesma, mas JESUS, em pessoa! Jesus, somente Ele, é a porta tanto para as ovelhas, quanto para aqueles que devem ser os pastores (cf. Jo 10,7.9)! Quem não vivencia, em sua vida, aquilo que Ele fez, pregou e manifestou em tudo o que Ele foi, não pertence ao seu rebanho! Não é dos d’Ele! Não é seu discípulo ou discípula! Infelizmente, há muitos maus e falsos pastores, ainda, hoje em nossa Igreja! Pois, eles preferem massagear, apaziguar, tranquilizar as consciências de tantas pessoas que deveriam se converter, mas se sentem “salvas”, pois há pastores que não lhes pregam o Evangelho, mas uma pseudodoutrina cristã! Com isso, se beneficiam de presentes, viagens, dinheiro e tantas outras coisas mundanas das quais deveriam ser livres, se fossem, de verdade, discípulos de Cristo!
Afinal, a “voz do verdadeiro pastor”, que é Jesus Cristo (cf. Jo 10,11-18), não se confunde com tradicionalismo, com o conservadorismo, com o saudosismo, mas é algo inovador, por isso, o conteúdo da pregação de Jesus recebeu o nome certo em língua grega: euangélion = boa nova, boa notícia, novidade das novidades! Vivamos o Evangelho, não o mofo de um passado que não nos diz mais nada para sermos cristãos e cristãs autênticos nos tempos atuais!
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«O Senhor é o pastor que me conduz; / não
me falta coisa alguma. / Pelos prados e campinas verdejantes / ele me leva a
descansar. / Para as águas repousantes me encaminha, / e restaura as minhas
forças. / Ele me guia no caminho mais seguro, / pela honra do seu nome. / Mesmo
que eu passe pelo vale tenebroso, / nenhum mal eu temerei; / estais comigo com
bastão e com cajado; / eles me dão a segurança! / Preparais à minha frente uma
mesa, / bem à vista do inimigo, / e com óleo vós ungis minha cabeça; / o meu
cálice transborda. / Felicidade e todo bem hão de seguir-me / por toda a minha
vida; / e, na casa do Senhor, habitarei / pelos tempos infinitos.»
(Fonte: Salmo 22[23],1-3a.3b-4.5.6)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –IV Domenica di Pasqua – Anno A – 3 maggio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 24/04/2023).
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