Precisamos deter o TikTok

 Causa declínio da saúde mental por ser viciante

 Fareed Zakaria

Colunista do «Washington Post» 

Adolescentes e jovens são os mais “fisgados” pela rede

Na semana passada, argumentei contra o banimento do TikTok. Ao conversar com as pessoas sobre a plataforma, percebi que a verdadeira preocupação que a maioria tinha não era sobre a propriedade chinesa do TikTok, mas sim o quão assustadoramente viciante ele é — e também grande parte da mídia social. Isso é verdade e profundamente preocupante. Devemos fazer algo a respeito — e logo. 

O TikTok é o aplicativo dominante, em downloads nos Estados Unidos em 2022, e tem cerca de 150 milhões de usuários em todo o país. Drew Harwell, do Washington Post, resume bem os dados: em 2021, o site do TikTok foi visitado com mais frequência do que o Google. Dois terços dos adolescentes americanos o usam, com 1 em cada 6 dizendo que o usam “quase constantemente”. 

Também está arrasando com a concorrência. Harwell cita um relatório da Bernstein Research que descobriu que, entre 2018 e 2021, o tempo que os americanos passaram no aplicativo aumentou 67%, enquanto as horas no Facebook e no YouTube cresceram menos de 10%. 

O que o TikTok faz de tão especial? Ninguém sabe ao certo. “É constrangedor sabermos tão pouco sobre o TikTok e seus efeitos”, disse Philipp Lorenz-Spreen, pesquisador do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano em Berlim, ao jornal britânico The Guardian. Em parte, porque o TikTok é relativamente novo e em parte porque seu algoritmo é altamente sofisticado.

Em vez de uma imagem ou uma postagem escolhida por um amigo, o TikTok apresenta um fluxo de vídeos e avalia o que você gosta para oferecer mais, substituindo “o atrito de decidir o que assistir”, explicam os pesquisadores de Bernstein, com uma “explosão sensorial de vídeos pequenos entregando endorfina hit após hit.” 

Dopamina

A maioria dos psicólogos diz que ele também entrega dopamina, a substância química secretada no cérebro quando se espera uma recompensa, como comida, drogas ou sexo. Qualquer coisa que nos conecte aos outros desencadeia essa sensação de prazer, pois é uma resposta evolutiva — sobrevivemos melhor em grupos do que como indivíduos. Os aplicativos de mídia social capitalizam esse mecanismo de sobrevivência para obter lucro. E o TikTok fornece esse golpe de dopamina talvez mais rápido, melhor e mais prazeroso do que outros aplicativos populares. 

A melhor maneira de entender como a mídia social está afetando nossos cérebros é voltar à psicologia para iniciantes. B.F. Skinner, um dos estudiosos fundamentais no campo, demonstrou como o “condicionamento operante” funciona usando um sistema simples de recompensas contínuas para pombos, e os ensinou a voar em círculos, guiar mísseis e até jogar pingue-pongue.

A versão mais simples é assistir a um treinador de cães, que dará ao animal de estimação uma série de pequenas guloseimas para recompensá-lo por seguir as instruções. Os aplicativos de mídia social fornecem esses pequenos golpes de dopamina com a mesma confiabilidade. 

Tradução da frase do renomado psicólogo social JONATHAN HAIDT: "Nós vivemos em uma bolha, onde os algoritmos confirmam o que nós já queremos acreditar".

Jonathan Haidt tornou-se famoso como crítico das redes sociais. Renomado psicólogo social (ele leciona na Universidade de Nova York), Haidt argumenta que a ascensão da mídia social e seu sistema de recompensa está intimamente relacionado com declínios impressionantes na saúde mental dos adolescentes. Por volta de 2012, ele argumenta, você começa a ver todos os tipos de indícios de declínio da saúde mental, desde busca por ajuda psicológica até hospitalizações e tentativas de suicídio. Ele diz que isso aconteceu nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e vários outros países com uso generalizado de mídia social.

O aumento da ansiedade, depressão e tentativas de suicídio entre adolescentes é particularmente assustador. E esses números estão piorando a cada ano.

Início

O momento faz sentido quando você considera que o início dos anos 2010 é quando os adolescentes trocavam seus telefones flip por smartphones carregados com aplicativos de mídia social — e 2009 é quando o Facebook introduziu o “like/curtir” e o Twitter introduziu o recurso “retweet” que imita as guloseimas do treinador de cães. Então, em 2012, ano em que o Facebook comprou o Instagram e sua base de usuários explodiu, um grande número de adolescentes estava “fisgado”

Haidt, que trabalha em um livro sobre este tópico, mantém um banco de dados contínuo de estudos acadêmicos e comentários relacionados em seu Substack, After Babel. Saí totalmente convencido de que ele está certo e precisamos de regras e leis sérias em torno dessa tecnologia

Ele argumenta que a idade em que as empresas de mídia social podem coletar dados infantis sem o consentimento dos pais deve ser aumentada de 13 para 16 anos, protegendo assim os anos mais vulneráveis da puberdade precoce. (O projeto de lei inicial do Senado que definia a idade havia escolhido 16 anos, mas os lobistas das empresas de mídia conseguiram rejeitá-lo.) Pode haver leis federais exigindo mais notificações quando o aplicativo for usado por muito tempo, desligamentos automáticos à noite e muito mais. Para aqueles preocupados com esse tipo de legislação, lembre-se de que as empresas de mídia social são amplamente protegidas contra ações judiciais por um dispositivo generoso, a Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações (que rege a internet nos Estados Unidos). Eles podem ser razoavelmente instados, em troca, a tornar seus produtos mais seguros para as crianças. 

O próximo salto tecnológico é a inteligência artificial generativa. Uma vez que isso esteja totalmente casado com a mídia social, essas empresas terão uma capacidade sobre-humana de criar máquinas de dependência de poder surpreendente que podem nos fisgar permanentemente, talvez até reconectar nossos cérebros com consequências devastadoras. Devemos agir agora, enquanto temos tempo — e atenção. 

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional – Sábado, 15 de abril de 2023 – Pág. A22 – Internet: clique aqui (Acesso em: 17/04/2023).

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