13º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 9, 51-62
Alberto
Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
É urgente anunciar o Reino de
Deus, a grande novidade, sem nostalgia e apego ao passado
Breve introdução:
A partir de Lucas 9,51, inicia-se uma parte importantíssima do Evangelho Segundo Lucas, é a denominada “Subida a Jerusalém”, que se conclui em Lc 19,27. Nessa seção de seu evangelho, o autor insiste sobre a ideia de “Jerusalém”, pois é nessa cidade que deverá se realizar o cumprimento da promessa de Salvação, que vinha desde a Antiga Aliança, o Antigo Testamento.
Os discípulos de Jesus o acompanham, mas não o seguem. Ou seja, mesmo estando fisicamente próximos, estão distantes porque dão continuidade à ideia de um messias vitorioso e triunfante. No capítulo 9 do Evangelho de Lucas, a partir do versículo 51, há uma passagem importante que infelizmente as traduções, no mínimo imprecisas ou inadequadas, não traduzem.
Lucas 9,51-52a:** «Quando estavam
para se completar os dias de sua elevação, Jesus tomou a firme decisão de
partir para Jerusalém. Enviou então mensageiros à sua frente.»
De fato, acima temos a tradução que se costuma fazer do
início desse relato sobre a subida a Jerusalém. E então veremos mais adiante,
que, em uma aldeia samaritana, a população não o recebe bem. Mas por quê? Então
vamos tentar traduzir o texto literalmente e veremos que essa inconsistência
na verdade não existe.
O texto diz: “Quando estavam para se completar os dias de
sua elevação”. Portanto, Jesus é apresentado pelo evangelista já na jornada
final em direção à cidade assassina dos profetas, aquela que o matará. E aqui o
evangelista não diz “tomou a firme decisão”, mas escreve literalmente
que “endureceu o rosto para Jerusalém”. Esta é uma expressão que
também aparece no Antigo Testamento, que significa ir contra alguém.
Por exemplo, no livro do profeta Jeremias, no capítulo
21, versículo 10, lê-se: “Sim, eu volto minha face contra esta cidade para o
mal, não para o bem”. Ou, no livro de Ezequiel, no capítulo 21,
versículo 7, o Senhor diz ao profeta: “Filho do homem, volta o rosto para
Jerusalém e vaticina contra o santuário deles”.
Então, esta expressão que o evangelista usa: “endureceu o rosto para Jerusalém” significa que Jesus vai contra Jerusalém, vai contestar esta cidade que dizia representar Deus, mas era, na realidade, a assassina de todos os profetas enviados por Deus.
Lucas 9,52b-53: «Tendo partido, entraram num povoado de samaritanos para lhe
preparar hospedagem. Os samaritanos, porém, não o receberam, porque demonstrava
estar a caminho de Jerusalém.»
Mas os discípulos não entendem. Sabemos da rivalidade e inimizade que existia entre samaritanos e judeus, eles se odiavam, era uma inimizade secular. Mas não dizem como estava Jesus em relação a Jerusalém, dizem que Jesus ia a Jerusalém, mas os samaritanos pensam que, sendo considerado este Jesus o Messias, vai a Jerusalém para tomar o poder e depois subjugar os povos pagãos e também subjugar os Samaritanos. É por isso que eles não querem recebê-lo.
Lucas 9,54-55: «Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu, para que os destrua?” Ele, porém,
voltou-se e os repreendeu.»
Foram os discípulos que não entenderam a intenção de Jesus.
Que eles não entendem isso pode ser visto pela reação de dois discípulos, os
mais fanáticos, Tiago e João, a quem Marcos em seu Evangelho chama de “filhos
do trovão” por seu caráter autoritário [cf.: Mc 3,17]. A referência, claramente,
é ao profeta Elias que em um episódio localizado bem na Samaria, queima
cinquenta de cada vez dos emissários, dos soldados, que foram até ele [cf.: 2Rs
1,9-12].
Então eles acreditam que Jesus seja uma espécie de Elias, um homem que, pela violência, impõe a lei de Deus, a vontade de Deus. Mas “Jesus voltou-se e os repreendeu”, exatamente como faz com os demônios!
Lucas 9,56-58: «E partiram para outro povoado. Enquanto estavam a caminho,
alguém disse a Jesus: “Eu te seguirei aonde quer que fores”. Jesus respondeu:
“As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não
tem onde reclinar a cabeça”.»
Portanto, o mal-entendido, a hostilidade dos samaritanos
se deve ao mal-entendido por parte dos discípulos. E, sempre em Samaria, há
três indivíduos – um deles é convidado diretamente por Jesus – que pedem
para seguir Jesus. O número três não quer ser numérico e indica inteireza,
completude. Portanto, são regras para seguir Jesus, válidas para todos.
Diante desse pedido de seguimento, Jesus coloca as condições.
Raposas e pássaros são os animais mais insignificantes que existem.
Então Jesus diz:
“Cuidado! Você quer me seguir? Mas não pense em HONRA, CARREIRA ou SUCESSO.
Mas, pior do que os animais mais inúteis e insignificantes, não tenho nem casa,
não tenho onde reclinar a cabeça”.
Porém, em seguida, o evangelista apresenta o indivíduo que Jesus convida a segui-lo.
Lucas 9,59-60: «A outro disse: “Segue-me”. Esse pediu: “Permite-me que
primeiro eu vá enterrar meu pai”. Jesus respondeu: “Deixa que os mortos
enterrem seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus”.»
A resposta de Jesus a este homem pode parecer desumana! No
entanto, a resposta de Jesus não é desumana, o PAI representa o
passado. Então, enterrar o pai significa manter, ainda, o passado em grande
honra, em grande respeito.
Jesus não, Jesus pede uma ruptura radical com o passado.
Vinho novo não pode ser colocado em odres velhos [cf.: Lc 5,37], então: “Deixe as pessoas que vivem no passado – os mortos – enterrarem seus mortos. Você vai e anuncia a novidade”.
Lucas 9,61: «Outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas
deixa-me primeiro despedir-me dos de minha casa.”»
Na Bíblia houve o conhecido episódio de Elias que permitiu
que Eliseu se despedisse de sua família [cf.: 1Rs 19,19-20]. Jesus, por
outro lado, não.
A urgência do Reino de Deus não permite nostalgia do passado, mas devemos nos desapegar radicalmente dele.
Lucas 9,62: «Jesus, porém, respondeu-lhe: “Ninguém que ponha a mão no
arado e olhe para trás é apto para o Reino de Deus”.»
Esta frase de Jesus não significa ter uma relação distante ou desumana com a própria família, nada disso, mas que a urgência de anunciar a boa nova, o REINO DE DEUS, é tão importante que não se pode sentir nenhuma saudade por aquilo que parece apenas com o passado.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 5. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2021.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Não
fiqueis a lembrar coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos
antigos. Eis que farei uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis?”
(Isaías
43,18-19)
Caminhando em direção a Jerusalém, Jesus dedica-se, sobretudo, a formar e bem preparar seus discípulos para prosseguirem a sua missão, nesta terra. Nas três cenas de chamado e autochamado que o Evangelho, deste domingo, nos traz, fica evidente algo que o grande teólogo luterano e mártir alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), já nos havia dito em sua famosa obra “Discipulado” (editora Mundo Cristão, 2016).
Bonhoeffer destacou que o
chamado ao seguimento é Jesus mesmo! O chamado a seguir Jesus não é uma “proposta”,
não é um “programa de vida”, não é um “ideal”, nem um “objetivo”, nem sequer um
“objeto”, nos explica o teólogo luterano.
O que é, então, o seguimento de Jesus?
Responde Bonhoeffer:
“É a atração, é a sedução, do próprio Jesus e somente de Jesus”.
Jesus me deve seduzir e me tirar de mim mesmo! A confiança que ele desperta em mim, deve fazer-me perder todo outro tipo de segurança! A partir daí, o seguimento de Jesus passa a constituir o centro da minha vida. Portanto, como destaca o teólogo espanhol J. M. Castillo:
“O projeto do seguimento de Jesus é o projeto da liberdade
a serviço da misericórdia”.
É a nossa liberdade autêntica que superará todos os nossos medos, nesses tempos sombrios em que vivemos! Por isso, somente em Cristo podemos encontrar a verdadeira SEGURANÇA! Ele não ilude nem engana os seus seguidores! Como profeta itinerante que era, diz claramente: Aquele que quiser me seguir deverá ser como eu! Sem seguranças, prestígio, honras e vantagens mundanas!
E você, quer, mesmo, seguir Jesus??? Ele aguarda a sua resposta.
«Somente
a CARIDADE pode dilatar o meu coração. Jesus, desde quando esta chama doce me
consome, eu corro com alegria no caminho do mandamento novo. Desejo
correr nele até o dia feliz, no qual poderei seguir-te nos espaços infinitos
cantando o teu cântico novo, aquele do AMOR. Amém.»
(Santa Teresa de Lisieux, Manuscrito C)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – XIII Domenica del Tempo Ordinario – 30 giugno 2016 – Internet: clique aqui (Acesso em: 22/06/2022).
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