Mateus: evangelho do verdadeiro Messias
Assessor da Comissão Bíblica Diocesana – Diocese de Jales – SP
A Igreja Católica propõe, em sua liturgia dominical, a leitura quase que contínua dos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) durante três anos consecutivos denominados de Ano Litúrgico A, B e C. Desde o advento iniciado no domingo 27 de novembro do ano passado, adentramos no Ano Litúrgico A, o qual se dedica a ler e meditar o Evangelho Segundo Mateus.
Os evangelhos surgiram como resposta das primeiras comunidades cristãs, no século I da era cristã, às questões levantadas nas relações:
[a] no
interior das comunidades,
[b] com
as comunidades judaicas ligadas à sinagoga ou
[c] com
o ambiente social e cultural romano da época.
Esses escritos, os evangelhos, não tinham a intenção de ser uma biografia completa de Jesus, mas um esforço de repensar a fé, à luz da vida e da pregação do Cristo, diante de tantas ameaças e problemas que atingiam o cristianismo das origens. As duas principais ameaças eram a dispersão das comunidades e o desaparecimento das mesmas. Pois era extremamente complicado as pessoas acreditarem em uma salvação oferecida por um Crucificado! Pois, o condenado à cruz era considerado um maldito de Deus, na mentalidade dos judeus e o pior dos malfeitores, na mentalidade romana.
Cada evangelho, portanto, dará suas respostas, segundo a realidade específica na qual aquela comunidade vive. A comunidade na qual originou-se o Evangelho de Mateus é predominantemente constituída por judeus convertidos ao cristianismo. O local não é bem certo, há possibilidade de ser na Palestina, no sul da Síria ou em um lugar onde o judaísmo fosse marcante. Existe uma tendência de localizar a comunidade mateana em Antioquia da Síria, a capital oriental do Império Romano. Mateus procurará, então, entender a fé em Jesus, o Nazareno, à luz da tradição religiosa de Israel, uma vez que ele se comunica com judeus.
Ao
mesmo tempo que Jesus representa uma continuidade em relação à religião de
Israel, o judaísmo, preservando a sua essência, ele realiza uma ruptura com o
passado! Isso fica claro em Mateus 5,17: “Não penseis que vim abolir a Lei e
os Profetas. Não vim abolir, mas levá-los à plenitude”. A passagem de
Mateus 5,21-48 concretiza essa intenção de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos
antigos... Eu, porém, vos digo”. Portanto, diante de judeu-cristãos com uma
firme tendência a serem reacionários diante do Cristo e a novidade que ele
representa, Mateus, com equilíbrio, vai apresentando um Messias:
[1] livre
diante das tradições religiosas de seu povo (sábado, ritos de purificação,
costumes e tabus religiosos);
[2] que ensina com autoridade, bem diferente dos respeitadíssimos doutores da Lei (cf. Mt 7,29);
[3] que liberta os seus discípulos do
legalismo, do apego às normas pelas normas;
[4] com
isso, ele revela a “alma” da Lei, o “essencial” da fé que é o amor, o bem que
fazemos aos outros. Resumindo, Mateus nos revela um Cristo que se pauta pela continuidade,
ruptura e plenificação do judaísmo do qual ele provém.
Em
uma grande síntese, Mateus apresenta as seguintes respostas aos seus três
maiores desafios, vejamos:
1ª) A fé cristã no ambiente judaico:
desmontando a argumentação que via em Jesus de Nazaré um amaldiçoado por Deus,
pelo fato de ter sido crucificado (cf. Dt 21,23), Mateus mostra Jesus como o
“Filho amado” de Deus (cf. Mt 3,17 e 17,5), e os fariseus e escribas como sendo
os desobedientes da verdadeira tradição dos pais (cf. Mt 15,3)! A cruz foi
fruto de uma injustiça não de uma maldição divina (cf. Mt 27,19 e 27,54). Deus
encontra-se, sempre, ao lado de quem é fiel a ele, mesmo sendo um crucificado! Jesus
supera Moisés, o grande profeta de Israel, porque ele:
*
percorre o caminho de ida e volta do Egito, a terra da escravidão (cf. Mt
2,13-21),
*
atravessa o mar Vermelho pelo seu batismo (cf. Mt 3,13-17),
*
supera as tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11) e
*
oferece a “autêntica lei”, a “nova lei” ao povo (cf. Mt 5–7:
sermão da montanha).
Mas, o ponto central da
argumentação de Mateus, está na diferenciação do modo de agir da
comunidade dos discípulos de Jesus e aquele da liderança sinagogal. A
“fidelidade” dessa liderança é exibicionista e inescrupulosa (cf. Mt 6,1-18),
trai a lei, dando uma aparência de santidade (cf. Mt 15,3-9). Já, os discípulos
do Reino, aqueles que ouvem e seguem Jesus possuem um modo de vida
baseado na “justiça”, a qual é superior àquela das lideranças judaicas (cf.
Mt 5,20). Sendo submissos à vontade de Deus (cf. Mt 7,21-23), sem fingimentos e
hipocrisias, o discípulo deverá se distinguir pela sua capacidade de ser
solidário, concretamente, com os mais fracos e pequenos da sociedade, isso
é fundamental (cf. Mt 25,31-46)!
2ª) A fé no ambiente romano: Mateus
orienta a sua comunidade a ser aberta aos cidadãos romanos, livre de qualquer
preconceito e condenação. Afinal, foram os pagãos os primeiros a reconhecer e
acolher Jesus (cf. Mt 2,1-12), chama um cobrador de impostos e senta-se à mesa
com seus amigos (cf. Mt 9,9-10), curava a todos, inclusive romanos (cf. Mt
4,24), elogia a fé de uma pagã (cf. Mt 15,28). No entanto, Mateus não se furta
de alertar sua comunidade sobre os perigos da ideologia romana dominante.
O Reino de Deus (Reino dos Céus, como Mateus o chama) se contrapõe ao Império
Romano. Afinal, o poder sobre os vários reinos e povos do mundo tem algo de
diabólico (cf. Mt 4,8-9)! Deus está muito acima de César, por isso, o
dinheiro que lhe pertence pode lhe ser devolvido, mas não a vida, a adoração, a
reverência: “O que é de César, devolvei a César, e o que é de Deus, a Deus”
(Mt 22,21). O reino que deve prevalecer, nesta terra, é o de Deus, por
isso, os discípulos devem suplicar por ele (cf. Mt 6,10), afinal, só Deus é o
“Senhor do céu e da terra” (Mt 11,25). Algo terrível, no Império Romano, era o recurso
constante à violência! Jesus, o verdadeiro e único Mestre, ensina os
discípulos a não serem violentos como os romanos, e sim mansos (cf. Mt 5,4) e pacíficos
(cf. Mt 5,9), dispostos a oferecer a face esquerda a quem bater na direita (cf.
Mt 5,39). Com isso, invalida-se a lei de talião, o famoso “olho
por olho, dente por dente” (cf. Mt 5,44-48). E, ao final do evangelho, fica
claro que: “Todos que usam da espada, pela espada perecerão” (Mt 26,52).
3ª) A fé cristã no interior das comunidades:
a crise pela qual passa a comunidade é uma oportunidade para os seus membros
reavivarem a fé! E o antídoto, a vacina contra isso está bem
explícito em Mateus 24,12-13: “A iniquidade se espalhará tanto que o amor de
muitos esfriará. Quem, porém, perseverar até o fim, esse será salvo”.
O único caminho de salvação para o cristão é a perseverança no
amor.
Afinal, esse será o critério de
julgamento da humanidade (cf. Mt 25,31-46). E esse amor ao próximo deve ser
vivido em todos os momentos e em todas as instâncias da vida. Quando não há
amor, incorre-se, segundo Mateus, nos seguintes erros:
3.1) Conflitos de liderança: vontade de ser mais e ter mais poder que os outros. A ambição dos discípulos é combatida com a máxima de Jesus: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja vosso servo, da mesma forma que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,26-28). Por isso, na comunidade, não pode haver intolerância com aqueles que cometem erros, mesmo que graves (cf. Mt 18,15-21). O julgamento, a condenação e a exclusão de membros faltosos devem ceder lugar ao perdão, à acolhida e ao incentivo para se prosseguir na caminhada (cf. Mt 18,23-34). Portanto, para ser perdoado, há de se perdoar, isso é evidente (cf. Mt 6,14-15)!
3.2) Fragilidade da fé das lideranças: no apóstolo Pedro, Mateus personifica essa realidade. O orgulho, a vaidade, o autoritarismo impedem que haja uma autêntica fé! Provocando: dúvidas e desconfianças (cf. Mt 14,29-32), a sabotagem dos planos de Deus para nós (cf. Mt 16,13-23), a traição e negação (cf. Mt 26,33.34 > 26,69-75).
3.3) A queda nas tentações: Jesus
resume, muito bem, a situação de seus discípulos com a seguinte frase: “Vigiai
e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, na verdade, está pronto, mas
a carne é fraca” (Mt 26,41). Nessas palavras encontramos, também, o
antídoto: vigilância e oração sempre! A oração é algo que se faz
em retiro, em silêncio (cf. Mt 14,23; 26,36), ela consiste em escutar
o Pai, com o propósito de conhecer a sua vontade e transformá-la em ação
(cf. Mt 26,39.42). É importante destacar que as tentações-simbólicas sofridas
no início de sua atividade (cf. Mt 4,1-11) são a síntese de tudo o que
experimentará ao longo de sua vida: atuar em seu próprio benefício, visar o seu
sucesso pessoal (cf. Mt 27,40). Sendo inevitáveis, Jesus ensina que a força
para vencer as tentações provém da súplica contínua dirigida ao Pai dos Céus:
“E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal [= maligno]”
(Mt 6,13).
O objetivo maior da comunidade cristã é a de ser fermento do Reino neste mundo, mediante seu testemunho, seu modo de vida, o discípulo torna possível e realidade o Reino de Deus nesta terra (cf. Mt 13,33).
É deveroso sublinhar que me inspirei, na totalidade deste artigo, na obra do biblista jesuíta capixaba, Jaldemir Vitório, intitulada “Lendo o evangelho segundo Mateus: o caminho do discipulado do Reino” (Paulus, 2019).
Nota:
Todas as citações bíblicas, neste artigo, foram extraídas de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Comentários
Postar um comentário