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 O clericalismo será o coveiro do catolicismo?

 Redação

Publicado por Saint-Merry Hors-les-Murs: 30-12-2022 

Concílio Vaticano II - Foto de Lothar Wolleh

“Cristo veio anunciar a Boa Nova, o diabo fez dela uma religião.” (Jacques Ellul)

A todo senhor, toda honra, vamos começar com a carta de [papa] Francisco ao povo de Deus:

«Todas as vezes que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir o povo de Deus a pequenas elites, construímos comunidades, projetos, escolhas teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rosto, sem corpo e, em última análise, sem vida. (…) Favorecido pelos próprios sacerdotes ou pelos leigos, o clericalismo engendra uma divisão no corpo eclesial que encoraja e ajuda a perpetuar muitos dos males que hoje denunciamos. Dizer não ao abuso é dizer não, categoricamente, a qualquer forma de clericalismo.»

Esta carta data de agosto de 2018. Dois anos depois, o relatório da CIASE (Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja) lançou a luz que todos os católicos temiam sobre a situação que esse abuso sexual ou espiritual suscitou. Estamos no final de 2022, mais de quatro anos após a publicação desta carta. O que foi decidido, além das denúncias, para acabar com o clericalismo? Nada, desesperadamente nada. 

Para entender completamente o clericalismo e por que é e será tão difícil, provavelmente impossível, livrar-se dele, é preciso voltar às suas origens e entender porque o clericalismo é parte integrante do “sistema” católico hoje. 

O clericalismo aparece nos séculos II e III, baseia-se na TEOLOGIA DA SUBSTITUIÇÃO que «se esforçará por sustentar que, dado o não reconhecimento de Jesus como Messias e a culpa dos judeus em sua execução na cruz, o povo da promessa e da antiga aliança teria sido rejeitada por Deus. Revogando esta última, Deus teria substituído o antigo Israel (vetus Israel) por um novo Israel (verus Israel – o Israel autêntico), por meio de uma “nova” aliança e de uma reformulação da promessa».[1]

Ao considerar-se o novo povo eleito, a Igreja cristã assume todos os atributos do sistema hierárquico que regia o povo judeu: o aparecimento de uma casta sacerdotal superior, que se considera sagrada (em conexão direta com Deus) e que detém o poder sobre o povo. 

Esta evolução da Igreja e o nascimento do clericalismo induzem mudanças fundamentais que foram introduzidas durante os primeiros concílios (Nicéia em 325, primeiro concílio de Constantinopla em 381), em conexão com a vontade afirmada de Constantino e seus sucessores de apoiar-se na força moral que constitui a Igreja nascente. Esses desvios, porque se trata justamente de desvios da mensagem do Evangelho, sairão reforçados da Contrarreforma (Concílio de Trento, em 1542). 

PAPA PIO X

1. A noção de hierarquia e segregação entre clérigos e leigos 

A encíclica Vehementer Nos [= Nós fortemente] do Papa Pio X em fevereiro de 1906 é uma boa ilustração disso:

«Esta Igreja é essencialmente uma sociedade desigual, isto é, uma sociedade que compreende duas categorias de pessoas: os pastores e o rebanho, aqueles que ocupam uma posição nos diversos graus da hierarquia e a multidão dos fiéis. E estas categorias são tão distintas umas das outras que só no corpo pastoral residem o direito e a autoridade necessários para promover e orientar todos os membros para o fim da sociedade; quanto à multidão, não tem outro direito senão deixar-se conduzir e, dócil rebanho, seguir os seus pastores».

Esta encíclica parece ser de uma outra época, mas parece ter inspirado a Lumen Gentium, citada mais tarde, que data de 1964 (Concílio Vaticano II).

O fato de que essas noções tenham sido combatidas e denunciadas por Jesus nos Evangelhos nunca envergonhou a Igreja.

«Nem Jesus nem nenhum dos doze apóstolos são apresentados como sacerdotes, nem de longe se referiu ao sistema hierárquico do templo. E no seguimento de Jesus ninguém assume a função de controlador da religião.»[2]

2. A aparição de um poder sagrado

 Aqui está um trecho da constituição dogmática Lumen Gentium publicada em 1964: 

«Aquele que recebeu o sacerdócio ministerial goza de um poder sagrado para formar e conduzir o povo sacerdotal, para fazer, no papel de Cristo, o sacrifício eucarístico e a oferta a Deus em nome de todo o povo».

É surpreendente que esta noção de sagrado e, além disso, de poder sagrado, ainda seja mantida em um dos maiores documentos do Concílio Vaticano II, quando sabemos que esta noção e o próprio termo “sagrado” não aparecem em nenhum lugar nos Evangelhos. Temos, inclusive, o direito de pensar que Jesus denunciou esta noção: os três Evangelhos sinópticos (Mt 27,51 – Mc 15,38 – Lc 23,45) evocam o rasgo do véu do Templo, o mais sagrado de todos os lugares sagrados entre os judeus, concomitantemente, com a morte de Jesus.

Isso não quer dizer que o advento de Jesus significa o fim do sagrado e o chamado à santidade?

O Evangelho não é, do começo ao fim, a narrativa de um homem, Jesus, a encarnação de Deus entre os homens, para cuidar de seu irmão, e colocá-lo de pé novamente. “Eu sei quem tu és: o Santo de Deus”, grita o primeiro possesso que Jesus cura (Mc 1,24). 

Outra interpretação do rasgo do véu do Templo – lembremo-nos que somente o Sumo Sacerdote era autorizado a entrar no Santo dos Santos (coração do Templo em Jerusalém) no dia da Páscoa judaica para honrar a Deus – é que Deus, através de seu filho Jesus, agora está acessível a qualquer pessoa e que não precisamos de nenhum intermediário para acessar os recursos do divino. Alguns autores ilustraram isso particularmente bem. Citemos Agostinho: “O divino é mais interior para mim do que eu mesmo”. Ou Maurice Zundel: “O sentido da nossa vida é salvar Deus dentro de nós. Somos habitados por uma presença, a vida continua através do nosso sim”. Em tal concepção de fé, não há necessidade de um intermediário sagrado entre Deus e nós

Por fim, citemos Mateus no capítulo 20, sobre o qual gostaríamos que nossa hierarquia eclesial meditasse um pouco mais:

«Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja vosso servo, da mesma forma que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.» [vers. 26-28].

Momento da Ladainha de Todos os Santos durante a Missa de Ordenação Presbiteral

3. O surgimento da noção de puro-impuro

Esta noção está muito presente nos ritos judaicos e é constantemente criticada por Jesus nos Evangelhos, as referências são inúmeras. Essa noção de puro-impuro reapareceu dentro da Igreja e é o ponto de partida:

* da segregação entre homens e mulheres, sendo a mulher, como em muitas religiões, o ser impuro (menstruação);

* da justificativa do celibato: para se tornar sagrado, o homem deve abster-se de todo contato sexual com a mulher; o sagrado torna-se, de certa forma, a contrapartida desse celibato; estando as noções de celibato e sagrado assim ligadas, é difícil retroceder, daí o impasse atual e a impossibilidade teológica de autorizar o casamento de padres ou ordenar homens casados ​​(e muito menos mulheres!). 

4. O surgimento da noção de sacrifício e do altar (lugar de sacrifício e espaço sagrado do Antigo Testamento)

Conhecemos todas as expressões: “renovar o sacrifício de Cristo”, “Cristo se sacrificou por nós como o cordeiro”, encontramos várias delas no texto da consagração (“que este sacrifício encontre graça diante de Ti”) . A pintura de Jan Van Eyck, que pode ser admirada na Catedral de Ghent, é uma boa ilustração disso:

Van Eyck, A Adoração do Cordeiro Místico (painel central), 1432, Catedral de Saint-Bavon, Gand

«Ao confirmar contra Lutero o caráter sacrificial da Missa, a doutrina dos sacramentos, especialmente a transubstanciação eucarística do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, e a necessidade de ser celebrada por um padre, etc., o Concílio de Trento consolida o sistema hierárquico clerical e a separação entre clérigos e leigos: é impossível para o simples fiel entrar em contato com o divino sem passar pela mediação dos sacerdotes-sacrificadores».[3]

5. Uma visão muito diferente da Eucaristia 

Esta nova visão da Eucaristia vai ao encontro da lógica e da linha reta das noções anteriores: primazia ao sagrado (altar), ao poder (único autorizado a celebrar é o sacerdote), à noção de sacrifício, à noção de puro-impuro. 

No entanto, nas primeiras comunidades cristãs nunca houve distinção entre sacerdotes e leigos e a partilha do pão ocorria nas celebrações domésticas, “em sua memória” nos espaços seculares (casas). Veja o primeiro relato da instituição da Eucaristia segundo São Paulo (1Cor 11) que enfatiza o aspecto fraterno da refeição. Não há referência a noções de sagrado ou de sacrifício

Essa visão da Eucaristia leva a práticas que para muitos parecem extravagâncias, como objetificar Deus e trancá-lo em uma caixa (tabernáculo/sacrário), ou pretender manipular Deus pedindo-lhe que desça ao altar... Na teologia católica , nossos brâmanes são supostos, em virtude de sua ordenação, a serem “Alter Christus”, alguns, como o cardeal Sarah, coautor de um livro com Joseph RatzingerDas profundezas de nossos corações” (publicado em 2020), e que não duvida de nada, não hesita em promover os sacerdotes como “Ipse Christus”, o próprio Cristo. Obviamente, essas considerações também servem para justificar o celibato dos sacerdotes. 

6. Uma consequência dramática que ceifou milhões de vidas 

Um dano colateral da teologia da substituição e suas insinuações é, evidentemente, o antijudaísmo e o antissemitismo que ela trouxe. Teríamos que aguardar até o Vaticano II, e a declaração Nostra Aetate, para que a posição da Igreja evoluísse sobre este assunto, cujas consequências ao longo dos séculos foram contadas em milhões de mortes

Tanto para a situação atual, o que a originou e o que muitos católicos chamam de “Tradição”. É risível constatar que quando estes tradicionalistas reivindicam a Tradição, esta nunca remonta aos primeiros séculos, mas, consoante o caso, ao século XVI, quando se instituiu a autoridade da Contrarreforma, ou ao século XIX, depois do Iluminismo e da Revolução Francesa, quando a Igreja quis estabelecer sua autoridade sobre as consciências das pessoas e se declarou infalível![4]

Observe que não há nada de novo sob o sol. Já no Antigo Testamento, o profetismo não se misturava bem com a instituição judaica e seus ritos. Exemplos: Isaías 1,11-17:

«De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios? - diz o Senhor - Estou farto de holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados. (…) Quando estendeis vossas mãos, desvio de vós os meus olhos; ainda que multipliqueis as orações, eu não ouvirei!».

Veja também Isaías 58,1-12, Jeremias 7,1-15, Amós 5,21-24, ou ainda Miqueias 6,7-8:

«Acaso o Senhor se agradará por milhares de carneiros por miríades de torrentes de óleo? Darei meu primogênito por minha transgressão, o fruto de meu ventre pelo meu pecado? Ele te deu a conhecer, ó homem, o que é bom e o que o Senhor procura de ti: Simplesmente praticar o direito, amar a bondade e caminhar humildemente com o teu Deus».

Sem esquecer as palavras que o próprio Jesus dirige aos fariseus (Lc 11,46):

«Ai de vós igualmente, doutores da Lei, porque carregais as pessoas com fardos insuportáveis, e vós mesmos, nem sequer com um só dedo tocais nesses fardos!»

Ou as duras palavras de Jesus relatadas por Mateus no capítulo 25 [vers. 34-36.40] e que lembram as de Miqueias:

“Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo; pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu, e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e viestes até mim. (…) Em verdade eu vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!»

Mas esta oposição, desde tempos imemoriais, entre profetismo e autoridade institucional tem, parece-me, pouquíssimas chances de encontrar um desfecho favorável nos tempos atuais. A extrema direita e uma parte da direita católica (incluindo, em seu tempo, os maurrassianos[5], embora fossem agnósticos ou ateus!) perceberam todo o interesse que a instituição da Igreja pode lhes trazer como modo de poder sobre as consciências: a proteção da identidade cristã diante da ascensão do Islã, questões éticas (casamento para todos, aborto, fertilização in vitro, barriga de aluguel, fim da vida) e a proteção dos bons costumes etc. Recorde-se que 37% dos católicos praticantes votaram em Marine Le Pen e Éric Zemmour, um tipo de voto que a Conferência dos Bispos da França e as grandes figuras da Igreja, outrora, condenaram inequivocamente. Claramente, a Igreja é percebida pela grande maioria daqueles que nela investem hoje, padres e bispos em primeiro lugar, como o último bastião contra “as coisas vão de mal a pior” e, portanto, não se trata de a Igreja abandonar um poder e menos ainda as bases desse poder, o sagrado, sob pena de perder toda a autoridade que considera necessária para cumprir o seu papel. E se papa Francisco nada faz, é porque prefere o cisma silencioso dos que saem na ponta dos pés, ao cisma brutal da ruptura com aqueles que, doravante, constituem as forças vivas da instituição. 

PAPA FRANCISCO

Assim sendo, a Igreja não passa de uma seita identitária. Joseph Moingt expressa claramente o impasse em que a Igreja se encontra agora:

«Enquanto a sociedade e a Igreja funcionaram sob o modo do exercício mundano do poder, a comunicação interna e externa da Igreja funcionou bem. Em um mundo quase totalmente cristão, todos ouviam esse anúncio. Mas em um mundo ocidental democratizado e sem religião, o funcionamento da autoridade na Igreja parece ser desigual e a Palavra não é mais anunciada ao mundo porque se esgotou o modelo religioso que a carrega».[6]

Em outras palavras, o clericalismo funcionou muito bem nos tempos da cristandade, não funciona mais hoje

O termo seita usado aqui pode parecer imprudente e abusivo, mas é da natureza de uma seita ser reduzida a virar cinzas, ter uma linguagem que é compreensível apenas por si mesma e que deixa a sociedade totalmente indiferente. A encarnação no mundo que era a essência do cristianismo simplesmente desapareceu. 

O que aconteceu com a profecia da mensagem do evangelho?

Ao não querer questionar o clericalismo, a Igreja Católica arcará com a pesada responsabilidade de tê-lo reduzido a nada.

Recordemos a citação de André Gouzes: «Se não nos tornarmos como os primeiros cristãos, seremos os últimos».[7] 

Traduzido do francês por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Observação: todas as citações bíblicas desta tradução foram extraídas de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022. 

N O T A S :

[1] – Loïc de Kerimel, préf. Jean-Louis Schlegel. (2020). En finir avec le cléricalisme. Le Seuil. (p. 125)

[2] Op. cit. (p. 45).

[3] Op. cit. (p. 58); a noção de sacrifício também é discutida no capítulo 6 do livro.

[4] – No Concílio Vaticano I, em 1870, depois que Garibaldi reduziu os Estados Pontifícios e o poder temporal da Igreja.

[5] O nacionalismo integral, muitas vezes referido como Maurrassismo, é uma ideologia política teorizada por Charles Maurras no início do século XX. Ele falou principalmente nos círculos monarquistas da Action française. A base desta doutrina baseia-se na unidade da sociedade.

[6] – Joseph Moingt. (2002). Dieu qui vient à l’homme. Le Cerf.

[7] – Citado por Anne Soupa e Christine Pedotti em seu último livro: Espérez! Manifeste pour la renaissance du christianisme. (2022). Albin Michael. 

Fonte: Saint-Merry Hors-les-Murs – À la une – Sexta-feira, 30 de dezembro de 2022 – Internet: clique aqui (Acesso em: 09/01/2023 – às 10h00).

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