14º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

 Evangelho: Mateus 11,25-30 

Frei Alberto Maggi

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

Quem leva Deus a sério é quem leva a sério os humildes

É um momento difícil na vida de Jesus: começou a sua pregação, e imediatamente lhe chega um ultimato, que tem todo o sabor de uma excomunhão, por parte de João Batista, que está na prisão lhe manda dizer: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11,3). Evidentemente a pregação de Jesus decepciona, e Jesus começa a pregar nas cidades, mas o resultado é a frustração. E, de fato, Jesus se queixa dessas cidades ― há principalmente três delas: Corazim, Betsaida e Cafarnaum ― e Jesus se queixa de que se tivesse levado a mesma mensagem às cidades pagãs, elas teriam se convertido, estas não (cf. Mt 11,20-24). Por que essa resistência? Porque são cidades dominadas pelo ensino da sinagoga. 

Mateus 11,25: «Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.»

É neste contexto que chegamos ao capítulo 11 de Mateus, versículo 25: “Naquele tempo”, portanto em relação a isso que dizíamos antes, Jesus exclama: “Eu te louvo, ó Pai”, Jesus não fala de Deus, fala do Pai, é importante entender o seu ensinamento. “Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”, Jesus não está criticando as pessoas cultas, sábias e eruditas. Ele se refere, aqui, aos doutores da lei, aos escribas, que raciocinam em termos de doutrina e de lei. Ele questiona que, com a lei a doutrina pode-se chegar a discutir e falar de Deus, porém, do Pai pode-se, somente, experimentar a sua força de amor, imitando este amor, por isso Jesus fala do Pai e não de Deus! Para os doutos, para os sábios, portanto para os escribas, para os doutores da lei, Deus se manifesta na doutrina e não na vida, como Jesus ensina.

Apesar do fracasso da pregação de Jesus, há um grupo de pessoas que o segue: são os marginalizados, são os “nada” da sociedade, são os invisíveis, são estas pessoas ― os “pequeninos” ― que o seguem e ouvem a sua mensagem. 

Mateus 11,26-27: «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.»

E Jesus prossegue repetindo novamente a palavra Pai. E aqui Jesus usa um típico raciocínio teológico e rabínico. O que Jesus quer dizer com esse raciocínio? Deus, como vimos, pode ser conhecido pela lei, o Pai somente no amor.

Portanto, é sendo profundamente humano, sensível e atento às necessidades e sofrimentos dos outros, que se pode experimentar a presença do Pai.

Como dissemos, Deus pode ser conhecido pela lei, o Pai somente pela experiência do amor. Com Jesus, Deus se fez homem, e o ser humano, a humanidade, é o único valor sagrado. 

Mateus 11,28: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso.»

E, depois, há o convite de Jesus:Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados”, cansados ​​e fatigados de quê? Da observância da lei, dirá Jesus mais adiante neste mesmo Evangelho (cf. Mt 23,1-4), que precisamente esses doutos, esses escribas, esses doutores da lei, atam pesados ​​fardos aos ombros das pessoas. São as doutrinas que se acumulam, e por isso estão cansados e oprimidos, e diz: “e eu vos darei descanso”, o termo usado pelo evangelista significa cessar o cansaço, recuperar o fôlego, poderíamos dizer: eu serei a vossa respiração. 

Mateus 11,29: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso.»

Eis, aqui, o desafio proposto por Jesus: “Tomai sobre vós o meu jugo”, o jugo, como sabemos, era aquele utensílio que se colocava sobre os bois para conduzi-los no campo, e era a imagem da lei. A lei, a lei de Moisés, tornou-se um jugo, mas um jugo pesado. Então Jesus nos convida a fazer uma substituição: deixar o jugo da lei em paz, o crente não é mais aquele que obedece a Deus observando suas leis, mas aquele que se assemelha ao Pai praticando um amor semelhante ao dele. Jesus não está falando em imitar seu caráter, o que é impossível, mas imitar a sua escolha social. Os “mansos”, naquela época, indicam os deserdados, o termo “humilde” em grego é tapino, ou seja, colocar-se da parte dos últimos, da parte dos marginalizados, da parte dos invisíveis, ali Jesus se faz presente! E, de fato, ele diz: “vós encontrareis descanso/restauração”, esta é uma citação do livro da Sabedoria (6,11-16), que restaura as pessoas. 

Mateus 11,30: «Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.»

E Jesus conclui: “o meu jugo”, isto é, a aceitação da imitação do amor do Pai, este é o jugo, “é suave e o meu fardo é leve”, já não há fardos a carregar, que oprimem o povo como São Pedro mais tarde denunciou no concílio/assembleia de Jerusalém, quando afirma (At 15,10): “Por que continuais a tentar Deus, impondo sobre o pescoço dos discípulos um jugo” ― e aqui está a constatação do fracasso dessa vivência religiosa ― “que nem os nossos pais, nem nós mesmos fomos capazes de suportar?” Então a observância da lei não permitiu a comunhão com o Pai, o acolhimento, o amor, a prática do seu amor! 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«Contra o amor não há lei. Amar é a lei.»

(Lilian Arriel — terapeuta e coaching brasileira)

Podemos até pensar que somente nós, cristãos de hoje, temos decepções, cansaço, frustrações com os resultados de nossa missão evangelizadora. No entanto, o capítulo 11 de Mateus oferece-nos exemplos abundantes de que o próprio Jesus não obteve sucesso pleno e constante em sua atividade de anúncio do Evangelho! Porém, é notória a esperança que Jesus traz consigo, justamente fruto do tipo de relação entre o Pai e o Filho. Fica evidente que é uma relação de iguais: “ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho” (Mt 11,27). 

É esta relação especial entre Jesus-Filho e Deus-Pai que nutre e sustenta Jesus! Dessa relação lhe vem a confiança para fazer-nos três convites muito especiais que podem nos retirar desse desânimo que muitos cristãos vivem hoje. Estes são seus apelos:

1º) “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados... e eu vos darei descanso” (Mt 11,28): Jesus não vem aumentar o peso da religião em nossas vidas! Ele não vem trazer uma religião repleta de preceitos e normas a seguir! Ele não vem nos aborrecer com controles e repressões!

2º) “Tomai sobre vós o meu jugo... Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29a.30a): Jesus vem nos libertar de tudo aquilo que nos impede de sermos livres, de verdade: riquezas, bens materiais, relacionamentos possessivos, ambições desmedidas, egoísmos, ódios, rancores. Ele vem nos trazer a verdadeira paz e alegria, porque ele faz agirmos com bondade e amor, contagiando felicidade!

3º) “... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29b): ser manso é saber controlar-se, manter o autodomínio, não ser impulsivo, abusivo, descontrolado. E humildade não é diminuir-se, humilhar-se, mas é o inverso de ostentação, é assumir a própria condição humana. Portanto, Jesus ensina-nos a não complicar a nossa própria vida! Com Jesus somos mais sadios e humildes, portanto, felizes! 

Por tudo isso, é que Jesus manifesta, neste Evangelho, a preferência clara pelos “pequeninos”, as pessoas simples (em grego: nêpioi), aqueles que não são vistos, não são notados, não são notáveis, não são importantes! Se não compreendermos isso, jamais entenderemos e assumiremos a missão de Jesus. E por que ele e o Pai preferem esses “pequeninos”? A resposta é simples e óbvia:

«Porque são esses “pequenos”, simples, últimos, os que não têm mais que a sua própria humanidade. Decididamente, aquele que se relaciona sério e profundamente com Deus não pode estar com todos. Ou seja, quem leva Deus a sério é quem leva a sério os humildes e desamparados da sociedade. Mas, acima de tudo, o mais decisivo aqui é entender que encontramos Deus no ser humano» (José M. Castillo).


 Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Também esta vida terrena está repleta de amor, de dons de “verdade”, dons escondidos e ao mesmo tempo revelados pelo sinal... Sinto uma imensa gratidão por cada valor humano. Viver em comunhão com a criação, em amizade com os irmãos, em abertura à obra de Deus e à obra do homem, em contínua experiência dos dons da vida, ainda que sofrida, mesmo que simplesmente humana, é uma graça contínua, um dom constante.»

(Fonte: Ir. Maria Evangelista da Santíssima Trindade, O.Carm. Orazione finale. In: CILIA, Anthony, O.Carm. Lectio divina sui vangeli festivi per l’anno liturgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2010, p. 446.)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –14ª Domenica del Tempo Ordinario – Anno A – 5 luglio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 04/07/2023).

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