CARTA AO PRESIDENTE DANIEL ORTEGA
Um dos mais renomados e reconhecidos teólogos da Espanha escreve ao presidente da Nicarágua
José Ignácio González Faus
Teólogo jesuíta espanhol – publicado por: Religión Digital – Miradas cristianas: 29/06/2023
![]() |
Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo |
“A
humanidade já teve Neros demais, Calígulas demais e Somozas demais para o
senhor, apenas, aspirar a ser mais um nessa lista”
Meu caro Sr. Presidente e irmão:
Ainda te chamo de irmão porque,
apesar da maldade e da crueldade de algumas de suas ações, acredito que o
senhor ainda é melhor do que seu comportamento.
O Tribunal Penal Internacional
acaba de ordenar a soltura do bispo Rolando Álvarez,
por motivos de mera humanidade e saúde. Se o senhor desconsiderar essa ordem,
muito mais coisas serão negadas em todo o mundo do que já são.
Vamos supor que o senhor, através
de sua ditadura política, acredita estar defendendo uma causa justa e
trabalhando por ela. Mas a vida me ensinou uma lição que não canso de repetir:
... mais dano se faz a uma boa causa defendendo-a mal por dentro do
que atacando-a por fora.
É o que mais de uma vez chamei de “a
irracionalidade de nossa razão”. E nós, os humanos, somos tão cegos que não
percebemos quanto isso nos afeta.
Se deixarmos por um momento a
querida Nicaraguita, o senhor verá até que ponto o que lhe digo está
acontecendo hoje em todo o mundo:
... as esquerdas não percebem que o atual crescimento da
extrema direita (que tanto as surpreende) foi gerado em grande parte por
si mesmas por causa de quão mal elas defenderam a razão que tinham.
E a mesma coisa vai acontecer com
essa reação de extrema-direita: não vai durar muito porque defendem mal a
(pouca ou grande) razão que tenham.
Sempre uma reação totalmente individualista como se a revolução fosse “eu”, o socialismo fosse “eu”, a democracia fosse “eu” ou o sandinismo fosse “eu”. Nesta Catalunha de onde escrevo, há um ditado que diz: “há tantos chapéus quantas cabeças”. E isso não é importante quando se trata de chapéus, mas é gravíssimo quando se trata das grandes causas e objetivos da vida: porque é simplesmente a fonte de todas as ditaduras.
![]() |
Prisão de Dom Rolando Álvarez bispo de Matagalpa (Nicarágua), dia 19 de agosto de 2022 |
Desconfio que um fator que pode
contribuir para esses seus erros de hoje é o que nos faz cometer tantas
bobagens: o medo oculto. O senhor já tem 77 anos, seu governo não pode
durar muito. E o senhor, com todo o poder que tem agora, não consegue parar de
se perguntar o que pode acontecer a seguir. O senhor sabe melhor do que
eu como Somoza morreu. E em algum momento o
senhor se lembrará de como manchou e desacreditou aquele esperançoso e nobre
sandinismo de 1979, quando gritavam que “os olhos do mundo estão
voltados para a Nicarágua” e cantavam que “nosso povo é o dono de sua
história”. Talvez até tenha chegado aos seus ouvidos que a Nicarágua já
cantou em voz baixa que “nosso Ortega é o dono da minha história”...
Todas essas coisas acabam
explodindo em algum momento, como a história já mostrou mil vezes. São
verdades que assustam; e hoje ainda mais:
... porque a cultura dominante de hoje passou a acreditar que o
sofrimento do carrasco é a verdadeira reconstrução da vítima.
Sem perceber que esse
princípio, ao invés de reconstruir a vítima, a degrada ainda mais.
Tudo isso deve ter passado pela
sua cabeça em algum momento: a humanidade já teve Neros demais, Calígulas demais
e Somozas demais para o senhor, apenas, aspirar a ser mais um nessa lista. A
reação espontânea então é rejeitá-lo rapidamente. Mas isso não elimina essas
verdades. E elas retornarão de novo e de novo, aumentando seu medo
inconsciente ou não confessado. Eu gostaria apenas de lhe dizer: irmão
Daniel, o senhor ainda tem tempo para se arrepender.
Se o senhor me pedisse um conselho, eu lhe diria: vá ver o bispo Rolando; admiro sua fidelidade e coragem ao decidir não deixar a Nicarágua, por mais que isso o incomodasse. Tente conversar (não sei se por meio de alguns mediadores) para ver que acordos podem ser feitos. Peça-lhe perdão pelo modo mal com o qual o tratou, sem esquecer que Rolando é agora também um símbolo que inclui milhares de outras vítimas. E se ele perdoar ao senhor, essa será sua melhor defesa.
Para facilitar isso, tente
olhar para Rolando como um ser humano e
não como um eclesiástico. Neste momento, pouco me importo com as críticas e
objeções que o senhor possa ter ou levantar contra a Igreja: posso
assegurar-lhe que (fora do Senhor Jesus) ninguém sabe melhor do que os cristãos
o quão maus cristãos nós, cristãos, somos. Talvez também ninguém saiba melhor
do que nós o que significa sentir-se plenamente aceito sendo quem você é:
talvez seja a única coisa que realmente nos faz querer mudar. E o senhor já deve
ter ouvido aquela frase de Jesus de Nazaré: “no céu há mais alegria por
um pecador convertido do que por 99 justos que dizem não precisar de conversão”.
Anime-se então. A ordem do Tribunal
Penal Internacional pode ser uma oportunidade para facilitar um caminho
para o senhor que evite que suas coisas terminem da pior maneira possível. 77
anos são muitos e já não há desculpa de que o fim está longe.
Só posso terminar expressando meu medo: se o senhor não prestar atenção a essas pobres (mas fraternas) palavras, acho que um dia o senhor se arrependerá. Só peço que o senhor pense muito, muito seriamente, sobre tudo o que tentei lhe dizer.
Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo. A versão original desta carta é encontrável aqui.
Comentários
Postar um comentário