28º Domingo do Tempo Comum – Ano B – HOMILIA

 Evangelho: Marcos 10,17-27 

Alberto Maggi *

Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano 

Eu possuo ou sou possuído pelos meus bens?

Na comunidade de Jesus não há lugar para os ricos, mas apenas para os seres humanos gentis. Qual é a diferença? O rico é aquele que tem e guarda para si, a pessoas gentil é aquela que, mesmo que tenha pouco, dá e compartilha com os outros. Nos Evangelhos, os ricos são apresentados como doentes terminais com egoísmo, para os quais não há esperança de salvação. Vamos ver o retrato impiedoso que o evangelista Marcos nos faz no décimo capítulo, versículos 17 em diante. 

Marcos 10,17a: «Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele...».

Jesus estava indo pela estrada, aqui o evangelista já nos dá uma chave de compreensão porque a “estrada” é o lugar da semeadura infrutífera [cf. parábola do Semeador ― Mc 4,3-9], é onde a semente foi semeada, mas aí os pássaros vieram imediatamente. Por isso o evangelista já nos avisa: “olha que nesta história a semeadura de Jesus será infrutífera”. O personagem é anônimo, mas o evangelista nos apresenta como aquele que corre, no Oriente nunca se corre, correr é desonroso. Até agora, neste evangelho, só corre o endemoniado, então ele é um possesso, um prisioneiro de algo mais forte que ele. Ao jogar-se, aos pés de Jesus, ele nos faz lembrar o leproso, a pessoa considerada mais impura, que também havia realizado esse mesmo gesto. Portanto, este anônimo está possuído por algo que o exclui de Deus. 

Marcos 10,17b-19a: «... perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” Jesus disse: “Por que me chamas de bom?” Só Deus é bom, e mais ninguém. Tu conheces os mandamentos:

Jesus não veio ensinar uma maneira melhor de ter a vida eterna, Jesus veio para mudar esta realidade aqui, esta sociedade. Por isso, recorda à pessoa que o interroga, que ela já tem o ensinamento de Deus para a vida eterna, ou seja, os mandamentos. Aliás, os mandamentos estavam figurativamente representados em duas tabelas: em uma havia os três exclusivos de Israel, as obrigações absolutas para com Deus, na outra estavam os comportamentos, os deveres para com os homens que eram a herança comum de qualquer cultura. Pois bem, Jesus, ao listar os mandamentos, não coloca os mandamentos relativos às obrigações para com Deus, mas apenas os deveres para com os seres humanos. 

Marcos 10,19b: «... não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!»

Jesus enumera cinco mandamentos: «não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe!» Mas antes deste último mandamento (honrar pai e mãe), Jesus coloca algo que não é um mandamento, mas é um preceito. É tirado do livro de Deuteronômio, no capítulo 24, versículos 14 e 15, onde o legislador diz: «Não explorarás o assalariado pobre e indigente... No próprio dia lhe pagarás. O sol não se ponha sobre seu salário, pois ele é pobre e o salário sustenta sua vida». Exploração significava reter o salário do assalariado para si mesmo. Veremos, depois, porque Jesus introduziu esse preceito aqui. 

Marcos 10,20-21a: «Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te falta:

vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu”.»

No texto original grego, vemos que o indivíduo enche a boca para dizer que tem cumprido tudo isso que Jesus lhe disse, desde que era jovem. Na verdade, em grego, é "tauta panta", sente-se que enche a boca. Jesus, então, lhe fixa o olhar, o que significa entrar nas profundezas da pessoa, e o olhar de Jesus está sempre acompanhado de amor, e ele disse-lhe (traduzo literalmente): «falta-te um», isto é, falta-lhe praticamente tudo, por quê? E aqui o evangelista faz uma sequência de três verbos imperativos: vai, vende e. E o tesouro no céu é aquele que não é consumido e tem valor perene, enquanto os tesouros da terra podem ser expostos a muitas pessoas ricas. 

Marcos 10,21b-22: «“Depois vem e segue-me!” Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.»

Então, Jesus adiciona um convite: venha! Venha atrás de mim e siga-me! Aquela pessoa tinha ido até Jesus para ter mais, para ter algumas regras, alguns preceitos para ter certeza de ter a vida eterna e Jesus o surpreendeu porque Jesus o convidou a dar mais, não ter mais. Ele foi até Jesus angustiado e não lhe fez bem encontrar Jesus porque ele voltou do mesmo modo. Qual é o motivo? Na verdade, ele possuía muitos bens. Então, a lição que o evangelista nos dá é que: possuímos algo, de verdade, quando conseguimos dar essa coisa, aquilo que seguramos conosco, aquilo que retemos nos possui!

É por isso que o evangelista o apresentou mais impuro que o leproso e mais possesso do que um endemoniado. Jesus conseguiu libertar o possuído, conseguiu purificar o leproso, mas nada pôde fazer com o rico. 

Marcos 10,23-24: «Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!”»

Na realidade, os ricos são possuídos pelas riquezas, por isso, é tão difícil entrarem no Reino de Deus. Esta é a comunidade do Reino onde não se acumula para si, mas tudo é generosamente compartilhado com os outros. Os discípulos ficaram desconcertados com suas palavras porque uma vez que um rico pode entrar na comunidade, colocando-lhe como condição livrar-se de tudo, surge um alarme: “Como vivemos?”. Mas Jesus, com muita ternura (“filhinhos”) reafirma o quanto é difícil para os ricos, pois está se referindo a eles, entrarem no reino de Deus. 

Marcos 10,25-27: «”É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.»

E aqui Jesus faz uma comparação que é típica da muito imaginativa cultura oriental. O camelo era o maior animal conhecido naquela cultura, o buraco de uma agulha tem a menor abertura. Então, é praticamente impossível. Jesus não diz que é difícil, mas impossível porque para entrar no Reino de Deus o rico teria que se livrar de suas riquezas, mas isso um homem rico nunca fará. Então, o ensino que o evangelista nos dá é que se possui apenas o que se dá, e isso ajuda a entrar plenamente no Reino de Deus e ter a vida eterna.

Quem guarda para si, exclui-se da plenitude da vida. 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«Os Atos dos Apóstolos contam que “ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum” (4, 32). Não é comunismo, mas cristianismo no seu estado puro.»

(Papa Francisco: 11/04/2021 ─ Homilia – 2º Domingo da Páscoa)

Ainda há muitos, nos dias de hoje, que pensam que para seguir Jesus, para encontrar a salvação, para fazer parte do Reino de Deus, basta seguir algumas regras, observar alguns costumes, praticar algumas devoções, e cumprir com alguns mandamentos bíblicos. No entanto, no Evangelho deste domingo, Jesus estraga com essa festa, com essa mentalidade mesquinha e simplista! 

Quantos querem seguir Jesus, sem nada deixar, sem nada mudar, sem nada sacrificar em sua vida cômoda, confortável, segura, abastada e, por que não o dizer, privilegiada?! Por isso, faz tanto sucesso e aglutina tanta gente movimentos religiosos que não questionam o modo de se viver, que não desafiam as pessoas a dar mais, repartir mais, servir mais, ser justas, ser humanas! Como Jesus fez com o homem rico do Evangelho deste domingo. Mas que, pelo contrário, tranquilizam, apaziguam e justificam a consciência de tais pessoas! 

Jesus esclarece, seus discípulos de outrora e os atuais, que há duas realidades contraditórias e impossíveis de se reconciliar:

a) Estar próximo de Jesus, ser seu fiel seguidor e, ao mesmo tempo,

b) manter a abundância de bens, propriedades e os muitos caprichos humanos.

Não nos enganemos, como nos recorda o teólogo espanhol José María Castillo:

“Não há razão ou argumento que possa justificar a presença, em uma mesma vida, de Jesus e da riqueza.

Ou se dá, ou se partilha, ou se divide ou não se pode estar com Jesus! Simples, assim! Por isso, os discípulos de outrora e aqueles de hoje se surpreendem com essa postura e palavras de Jesus! Como viverão prescindindo dos ricos, dos poderosos, dos influentes? Essa é a questão! 

E por que as coisas devem ser, assim, tão extremas, tão oito ou oitenta?

A resposta é tão clara quanto dura. Novamente, ajuda-nos José María Castillo:

“A propriedade individual dos bens deste mundo não se pode antepor às necessidades fundamentais das grandes maiorias dos seres humanos. Se este critério não se mantém firme, a ‘Lei da Selva’ termina por impor-se e destruir a convivência humana.”

É, justamente isso, que estamos vivendo, neste momento, em nosso mundo! Em que, somente, 2% dos habitantes do planeta dominam, mandam, usam e abusam, não somente dos bens da Terra, mas inclusive do futuro da Terra mesma. 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«O que é que nos desvia de te procurar, ó Senhor, como noiva nas ruas e praças? Ah, tudo é ilusão no mundo se não nos ajuda a fazer isso! Mesmo que seus prazeres, riquezas e paixões durassem para sempre, e fossem tão numerosos a ponto de superar qualquer imaginação, eles não seriam nada além de esterco e imundície, em comparação aos tesouros que temos para desfrutar indefinidamente. No entanto, nem mesmo estes podem suportar a comparação de possuí-lo, Senhor de todos os tesouros do céu e da terra". Amém.» 

(Fonte: Santa Teresa de Jesus. Apud: Anthony Cilia, O.Carm. [Org.] Lectio Divina sui vangeli festivi per l’anno litúrgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 573.)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – XXVIII Domenica Tempo Ordinario – 14 Ottobre 2018 – Internet: clique aqui (acesso em: 11/10/2024).

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