A contrarrevolução no Oriente Médio
Robert Fisk
Página/12
30.04.2012
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Omar Solimán - egípcio |
Deixem-me citar Khouri: “Na linguagem de Washington, uma “crise” é como o amor: embora possa ser definido como se desejar, sabe-se quando alguém é atingido por ele. Assim, uma revolta popular em Bahrein, a favor dos plenos direitos civis, é uma crise que deve ser esmagada pela força, porém uma revolta na Síria é um bendito sucesso que merece apoio. De maneira análoga, este peculiar marco intelectual adverte contra o apoio do Irã aos rebeldes houthis, no Iêmen, enquanto aceita como perfeitamente lógico e legítimo que os Estados Unidos e seus aliados enviem armas e dinheiro para seus prediletos grupos rebeldes, em toda a região... para não mencionar o ataque a nações inteiras”.
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Rami George Khouri |
E na Síria – onde o Qatar e os sauditas estavam mais que dispostos a enviar armas aos rebeldes – as coisas não vão muito bem para a revolução. Há um ano, depois de sustentar durante semanas que bandos armados atacavam as forças do governo, agora sim eles existem e estão em plena ação, atacando as legiões de Assad. Para as centenas de milhares de pessoas que estavam dispostos a se manifestarem de forma pacífica – mesmo à custa de suas vidas -, isto tem se tornado um desastre. Sírios, amigos meus, chamam isto de tragédia. Eles culpam os estados do Golfo de encorajar a insurreição armada. “Nossa revolução era pura e limpa e agora é uma guerra”, disse-me alguém na semana passado. Eu acredito nisso.
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Alí Shabann - cinegrafista libanês |
Suponho que esta é uma observação ironicamente triste, mas algumas das primeiras revoluções no mundo árabe não resultaram conforme o planejado. Há alguns dias, os argelinos celebraram o 50º aniversário de sua vitória contra os franceses. A televisão francesa mostrou documentários sobre a terrível luta, que custou pelo menos meio milhão de vidas, que puderam ser vistos na Argélia. Porém, o que os árabes alcançaram com aquelas batalhas titânicas? Um pseudo-ditador e uma elite corrupta. Uma vergonhosa cifra de desemprego e o petróleo suficiente para que a Argélia rivalizasse com a Arábia Saudita... se a revolução tivesse funcionado.
A revolução de Nasser não foi precisamente um êxito contundente; talvez não foi pessoalmente para Nasser, mas ele e seus sucessores foram deploráveis, guiaram o Egito contra si, fora de sua propriedade, e o levou a duas guerras sangrentas contra Israel.
Existem indícios de que o Iraque poderia estar ajudando aos rebeldes sírios, como fez nos tempos de Saddam Hussein, quando este e Hafez Al Assad, o pai do atual presidente, se detestavam. E agora, quando já não existe estadunidenses a quem atacar, militantes sunitas, dentro do Iraque, declaram guerra ao Irã.
Se isto parece um horizonte pessimista, pois que seja. Contudo, suspeito que o despertar árabe estará em processo quando nós todos estivermos mortos de velhos. Porém, a longo prazo, acredito que haverá verdadeira liberdade no Oriente Médio, e dignidade para todos os seus povos, além de um espanto da próxima geração, de que seus pais e avós tenham tolerado ditadores durante tanto tempo. E perguntarão o que houve com seus pais e avós desaparecidos.
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Ruínas da Guerra Civil Libanesa: 1975-1990 |
Samia Abdalá espera seu irmão Imad, combatente de Fatah, desaparecido quando tinha vinte anos, em 1984. Fatme Zayat quer que seu filho retorne; ambos há 27 anos desaparecidos. Afife Abdalá procura sete membros de sua família. Adele Said el Hajj espera seu filho, Alí, condenado pelos sírios em 1989: há 23 anos.
A guerra civil libanesa terminou em 1990 e milhares seguem desaparecidos. O mês passado marcou o 37º aniversário de seu início. Naquele tempo alguns libaneses afirmavam que era uma revolução.
Tradução do Cepat.
* Rami George Khouri é um cidadão palestino-jordaniano e norte-americano, cuja família reside em Beirute, Amã, e Nazaré. Ele é diretor do Instituto Issam Fares de Política Pública e Assuntos Internacionais na Universidade Americana de Beirute. Seu trabalho jornalístico inclui vários livros e ele também serve como editor geral do jornal Daily Star de Beirute. Para mais informações, acesse (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Rami_George_Khouri
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quinta-feira, 3 de maio de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509098-a-contrarrevolucao-no-oriente-medio
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