Cuidado, eleitor ! ! !


A democracia ferida pelos eleitos

Roberta Paduan e Edoardo Ghirotto

Os regimes livres não morrem mais a golpe de bazuca.
O ataque é insidioso e tanto mais eficiente em países
polarizados e em crise política e econômica como o Brasil
STEVEN LEVITSKY

O cientista político Steven Levitsky, autor do livro Como as Democracias Morrem, a ser lançado em português em setembro pela Editora Zahar, escrito em conjunto com o também cientista político Daniel Ziblatt, falou a VEJA sobre os riscos envolvidos na eleição de políticos autoritários, entre os quais inclui o deputado Jair Bolsonaro, que, segundo ele, “rejeita as regras do jogo democrático”.

O que tem minado os pilares da democracia? 

Steven Levitsky: Até os anos 1990, a forma dominante era o golpe militar, como aconteceu no Brasil, em 1964. Mas, com o fim da Guerra Fria, as democracias passaram a ser desmanteladas por políticos eleitos, que chegam ao poder prometendo destruir a classe política. É preciso preocupar-se quando cidadãos começam a expressar sua desconfiança das instituições democráticas e de políticos democratas, ou quando um candidato que abertamente rejeita as normas democráticas cresce. Também é preocupante se a polarização, geralmente entre a esquerda e a direita, chega a um nível em que um lado começa a identificar o outro como seu inimigo ou como uma ameaça existencial. Vimos isso na Venezuela, com Hugo Chávez, no Peru, com Alberto Fujimori, e, mais recentemente, em países como Hungria, Polônia e Turquia.

Como perceber que uma democracia está em risco? 

Levitsky: A morte se dá de formas diferentes. Mas um fator preponderante é a eleição de uma figura política que, às vezes, tenta se diferenciar da política tradicional e não tem compromisso pleno com os valores democráticos. Tais políticos parecem democratas, e em algum momento o foram, porque venceram eleições. Em 2011, mais de dez anos depois de Hugo Chávez ter chegado ao poder, a maioria dos venezuelanos ainda acreditava que estava vivendo numa democracia, porque o governo havia sido eleito.
JAIR BOLSONARO
Exemplo de autoritário que rejeita as regras do jogo democrático - exalta a ditadura

É possível identificar um AUTORITÁRIO antes de elegê-lo? 

Levitsky: Não há fórmula exata. Em alguns casos, como o do húngaro Viktor Orbán, que teve comportamento bastante democrático no passado, o autoritarismo apareceu apenas quando ele chegou ao poder. Mas era possível dizer que o argentino Juan Perón era autoritário antes de ele assumir. O mesmo pode ser dito de Chávez, Recep Erdogan, da Turquia, além de Rafael Correa, do Equador. É possível dizer isso também de Jair Bolsonaro, que é candidato no Brasil. Esse tipo de candidato dá mostras, por exemplo, de que:
* rejeita as regras do jogo democrático;
* põe em dúvida o processo eleitoral, como se estivesse dizendo que só perderá se o pleito for fraudado;
* tenta deslegitimar oponentes e a imprensa, por não aceitar críticas; e
* apoia ou não condena a violência contra seus opositores.
Bolsonaro, por exemplo, exaltou repetidamente a ditadura durante sua carreira, apoiou violações de direitos civis e abusos de direitos humanos, incluindo o uso de tortura. [Alguém, ainda, duvida do autoritarismo dele?!]

A democracia brasileira está em risco? 

Levitsky: Ela é uma das mais fortes e estáveis da América Latina. Mas, desde a redemocratização, é a primeira vez que apresenta uma combinação terrível de crise econômica e política, além de polarização crescente entre direita e esquerda. E, para completar, há o surgimento de um candidato autoritário.

A democracia vive uma crise global? 

Levitsky: Acho exagero dizer isso. A maioria das democracias continua sobrevivendo. Não estamos assistindo a um colapso. Mas vejo razões para alarme. Nota-se o crescimento de forças nos Estados Unidos e na Europa que não estão comprometidas com a manutenção da democracia. Nos anos 1990, se em algum lugar o Exército tomasse o poder ou tentasse destruir instituições, a comunidade internacional responderia de forma veemente, o que levaria ao isolamento desse país. Hoje, há uma permissividade maior. Quando os militares tomam o controle, como vimos em Honduras, por exemplo, encontram um cenário internacional muito mais permissivo do que há alguns anos. O mundo está menos empenhado em manter um projeto global de democracia.

A ERA DOS AUTOCRATAS

Em Como as Democracias Morrem, Levitsky e Ziblatt descrevem os autocratas modernos e como eles minam regimes democráticos:

Vladimir Putin, Rússia
O líder russo usou acusações de ordem financeira para perseguir empresários simpáticos à oposição, deixando partidos adversários sem recursos, o que levou muitos à extinção. Também prendeu o dono de uma rede de TV independente e condicionou sua liberação à entrega do canal.

Donald Trump, EUA
Iniciou o mandato, em 2017, lançando ataques verbais contra oponentes, chamou a imprensa de “inimiga do povo”, questionou a legitimidade de juízes e intimidou diretores de serviços de inteligência que conduziam investigações contra ele, incluindo o próprio FBI, a polícia federal americana.


Recep Erdogan, Turquia
Processou um conglomerado de mídia simpático a opositores, de forma que os proprietários foram obrigados a desfazer-se de boa parte dos veículos para pagar uma multa de 2,5 bilhões de dólares. Após perder a maioria no Parlamento, ampliou seus poderes no governo, sob a justificativa de que o país enfrentava uma crise de segurança.

Rafael Correa, Equador
Classificou a imprensa de “grave inimigo político” que “precisa ser derrotado” e mandou prender jornalistas. Em 2011, ganhou 40 milhões de dólares em um processo contra o jornal El Universo, que o chamara de ditador. Decidiu perdoar os proprietários, mas a ameaça de processos milionários amenizou o tom das críticas a seu governo.

Viktor Orbán, Hungria
Depois de conquistar dois terços do Parlamento, usou a maioria para reescrever a Constituição e as leis eleitorais. As mudanças viabilizaram o aumento do número de assentos do partido governista. Também limitou a propaganda eleitoral e deu a aliados cargos que anteriormente gozavam de autonomia.

Fonte: VEJA – Brasil/Política – Edição 2594 – Ano 51 – Nº 32 – 8 de agosto de 2018 – Págs. 41-42 – Internet: clique aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A necessidade de dessacerdotalizar a Igreja Católica

Dominação evangélica para o Brasil

Eleva-se uma voz profética