Sair e caminhar é o nosso destino!
Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo
Teólogo
e Biblista
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Peregrinos concentrados na praça ao lado da Catedral - 33ª Romaria Diocesana Jales, 20 de agosto de 2017 |
Não é mero acaso que o Povo de Deus na Bíblia
apareça sempre se deslocando, se movendo de um lugar para o outro. Primeiramente
é NOÉ que deve sair de sua tranquilidade, de sua zona de conforto e encarar a
aventura da arca, de um gigantesco barco flutuando sobre as águas diluviais.
Depois, é ABRAÃO que, para se tornar o «pai de uma grande nação», deve sair de
Ur, na Caldeia, atravessar o deserto para encontrar-se na terra de Canaã.
Posteriormente, é a vez de seu filho JACÓ abandonar seu lar para viver no estrangeiro,
fugindo de seu irmão raivoso, Esaú, do qual tomara o direito de primogenitura. Um
dos filhos de Jacó, JOSÉ, o mais novo acaba sendo vendido pelos irmãos a uma
caravana de comerciantes, porque eles tinham inveja do carinho que o pai
parecia devotar em demasia ao filho. Lá vai José para o Egito, onde torna-se
uma pessoa famosa, importante e influente, podendo ajudar toda a sua família,
quando esta encontra-se em dificuldades em Canaã.
Quando a situação no Egito torna-se opressora, o
povo decide sair de lá e tem como líder e guia MOISÉS. Este conduzirá sua gente
por inúmeras aventuras e percalços no deserto, até chegarem, finalmente, à
Terra Prometida, «onde corre leite e mel». Mesmo em sua própria terra o Povo de
Deus não tem sossego absoluto, há sempre inimigos, há sempre disputas e
guerras. Para proteger-se, esse povo conta com os chamados JUÍZES, líderes que
congregavam o povo para se defender. Eles giravam pelo país e foram sucedidos
pelos PROFETAS, quando surge a Monarquia em Israel. Os profetas são pessoas que
saem de sua aldeia, de sua terra e se deslocam até a corte dos soberanos, dos
reis para advertir-lhes sobre suas decisões que são contrárias à vontade de
Deus. Eles são pessoas que não temem perder o que tem, nem serem impopulares.
Dentre os profetas, houve alguns que tiveram de
fazer longas caminhadas, longas saídas, como foi o caso de JEREMIAS, levado
pelo povo ao Egito, mesmo contra sua vontade. Mas, novamente, uma parcela do
Povo de Israel foi levada para um outro exílio, aquele da Babilônia (587 a.C.).
Eis que o peregrinar dessa gente parece, de fato, não ter fim. Nessa situação,
os PROFETAS novamente alçam a voz não mais para condenar os pecados do povo,
mas para anunciar a volta dos exilados: «Ó meu povo, vou abrir vossas
sepulturas! Eu vos farei sair de vossas sepulturas e vos conduzirei para
a terra de Israel» (Ez 37,12). A libertação do exílio é tida como uma
renovação de vida, uma «ressurreição»! Talvez o texto profético que expresse
melhor, com imagens fortes extraídas da natureza, o regresso do povo exilado
seja Isaías 35,1-10, vale a pena lê-lo. Eis uma amostra: «Alegrem-se o
deserto e a terra seca, dance o chão duro, florido como a palma. Que se cubra
de flores, dance e comemore, pois Deus lhe deu o esplendor do Líbano, a beleza
do Carmelo e do Saron. Eles hão de ver a glória do SENHOR, a majestade do nosso
Deus. Fortalecei esses braços cansados, firmai os joelhos vacilantes. Dizei aos
aflitos: “Coragem! Nada de medo! Aí está o vosso Deus, é a vingança que
chega, é o pagamento de Deus, ele vem para vos salvar!”» (Is 35,1-4).
Ao voltar do exílio babilônico (cerca 538/537 a.C.),
porém, houve uma tentação de parar, se fixar, construir uma «casa» para Deus.
Os intelectuais dos judeus, os escribas e sacerdotes, optaram por sedentarizar
a religião do povo. Para isso, construiu-se um templo, criou-se rituais
sofisticados, abriram-se escolas de estudo da Torá (a instrução da
Bíblia, formada pelos cinco primeiros livros). Sair, caminhar, ir ao deserto já
não era mais importante! A religião passa a ser «posse» de uma elite, um grupo
que se considerava escolhido por Deus, preparado para intermediar a relação de
Deus com o seu povo.
Até que uma «voz gritou no deserto: “Preparai os
caminhos do Senhor!”», quem ouviu essa voz e colocou-se a serviço dela foi um
grande profeta JOÃO BATISTA. Ele não quis ficar junto ao Templo de Jerusalém,
mas saiu, partiu para o deserto da Judeia, às margens do rio Jordão. Parecia
que João Batista pressentia que, perto do Templo, não se respirava o verdadeiro
Deus, o Deus dos Pais, o Deus de Abrão, Isaac e Jacó, o Deus dos caminhantes,
dos peregrinos, dos oprimidos, dos exilados, dos sem parada, dos sem nada!
João Batista, como o Quarto Evangelista gosta de
frisar, não era a LUZ, mas veio para dar testemunho da Luz. Veio preparar os
corações para acolher essa novidade. Toda novidade exige um certo preparo para
ser bem aceita! E o melhor modo para se preparar, segundo João Batista, era se converter.
A mudança de vida é o nosso «vem» que damos a Deus! De fato, quando Jesus abriu
sua boca para iniciar sua atividade missionária, as primeiras palavras que saem
são estas: «Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo.
Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1,15).
Mas, antes de começar sua missão, Jesus também saiu,
caminhou, fez o seu êxodo! Ele foi impelido, forçado para o deserto pelo
Espírito de seu Pai! Lá, durante um tempo oportuno, ele fez sua experiência de
resistência ao mal. Somente no deserto, somente livres de amarras e coisas
podemos nos fortalecer, de verdade, contra o mal.
Depois dessa saída, Jesus nunca mais parou! Ele foi
um missionário peripatético, como se dizia dos filósofos gregos antigos, que
ensinavam seus discípulos caminhando entre bosques, aldeias, riachos etc. O
ensinar e aprender se davam no caminho, na caminhada, no contato com a
natureza, as pessoas e Deus.
Eis aqui o motivo que impulsiona um grupo de cerca
cinquenta pessoas da região de Santa Fé do Sul (SP) a sair caminhando por
dezenas de quilômetros que separam Rubineia, município às margens do grande rio
Paraná, até Jales (SP), na comunidade Santo Expedito e de lá para a Catedral
Nossa Senhora da Assunção. A saída é prevista para a sexta-feira, dia 17 de
agosto e a chegada para o dia 19, quando acontecerá a Romaria Diocesana. O que
esse grupo de pessoas jovens, de meia-idade e anciãos deseja é vivenciar essa fé peregrina, de saída,
«exodal» que animou aqueles que creem, verdadeiramente, em Deus, desde os
primórdios da humanidade. Nossa fé não
nos deve paralisar, mas impulsionar para SAIR, transformar, mudar direção,
mentalidade!
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