Por uma Igreja mais católica
Ademir Guedes
Azevedo
Padre – Missionário Passionista
Mestrando em Teologia Fundamental na Pontifícia
Universidade Gregoriana (Roma)
Pensar numa Igreja mais católica me
faz olhar para dentro de mim mesmo
e questionar-me se consigo dizer com
humildade ao homem de hoje:
“venha, entre! No meu coração você tem
um lugar especial”
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JESUS CRISTO É católico porque acolhe a todos, sem distinção, sem discriminação! |
Nós
estamos presenciando uma onda de
fundamentalismos em vários âmbitos de nossa história. Tudo isso se deve
graças àquela saudade dos tempos passados. Os
seus defensores dizem que a vida era melhor, que o ser humano era mais
inocente, que existia mais igualdade. Pessoalmente não consigo identificar
na história este período. Entendo que cada época tem suas belezas e seus
desafios. Estes últimos devem ser enfrentados com espírito crítico e com
coragem. O passado é um indicador que
nos faz entender o presente com lucidez, mas sem fanatismo. Chego a pensar
que aqueles que querem transportar o passado para o presente é porque têm medo
da ação do Espírito Santo que faz nova todas as coisas e nos ensina a ler os
sinais dos tempos. O nosso mundo precisa ser assumido com responsabilidade e
maturidade para só assim construirmos o futuro de fraternidade.
No âmbito do Cristianismo
vemos o retorno das antigas formas externas da observância de normas e
preceitos:
a)
A evangelização, promovida por alguns personagens do YouTube e redes sociais,
abraça a linha do proselitismo.
b)
Os documentos do magistério nunca
foram tão manipulados e mal interpretados como em nossos dias.
c)
Para piorar a situação existem aqueles
que usam as redes sociais para propagar um evangelho que parece mais a boa-nova
de um imperador (como se fazia no Império Romano) que de um Deus feito homem.
d)
Com um cinismo assustador, sustentam
seus argumentos dizendo que pertencem à
Igreja Católica.
Tudo
isso me fez pensar sobre o que realmente
significa o adjetivo católico, hoje. Ou
melhor, o que faz com que a Igreja de Cristo seja mesmo católica? São os
discursos de preconceitos que manipulam versículos da Sagrada Escritura para
extrair conclusões precipitadas? Seria talvez a luta contra os que pensam
diferente dos pastores de almas? O que
realmente faz a Igreja uma comunidade católica?
Recordo
que a Palavra «católico», derivada da palavra grega: καθολικός (katholikos),
significa «universal», «geral» ou «referente à totalidade». Quando se diz que a Igreja é católica não nos remetemos a um aspecto geográfico,
no sentido de estar presente no mundo inteiro. Não! A questão é outra. Queremos dizer que todos podem encontrar
seu lugar nesta comunidade de crentes. Dizemos que somos uma família universal, onde cada membro possui um valor sagrado.
Jesus em sua oração universal pediu ao Pai por todos, para que fôssemos
preservados do mal do mundo. Se somos
católicos é porque o Pai das misericórdias nos acolheu no seu coração, através
do seu Filho que nos amou. Em Jesus nos tornamos universais, estamos em
Deus e somos todos um só corpo.
Devemos
ainda imaginar que Jesus foi católico por excelência. E apenas o seu modo de relacionar-se com as pessoas
nos faz compreender a sua catolicidade. É apaixonante ler nas páginas dos
evangelhos os seus encontros:
1.
com os pecadores,
2.
com os que eram excluídos pela religião
oficial que promovia uma imagem nacionalista de Deus:
2.1. Jesus
encontra-se com a samaritana (Jo 4,
5-43), inimiga dos judeus.
2.2. Ele
ouve o grito de Bartimeu (Mc 10,
46-52) e o resgata da margem da vida para pô-lo no centro.
2.3. Perdoa
prostitutas (Lc 7, 36-50) e diz que
são elas que nos precederão no Reino de Deus (Mt 21, 31).
Sua
mensagem de amor não se reduz apenas aos judeus, olhando para a cruz o centurião pagão faz a mais bela
profissão de fé: «verdadeiramente este
homem era o filho de Deus» (Mc 15, 39). Todas as palavras, atos e gestos de Jesus são católicos porque
sempre acolhem as diferenças e redimem a existência com um amor incalculável.
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JESUS ACOLHENDO E PERDOANDO A MULHER ADÚLTERA (João 8,1-11) |
Tudo
isso nos liberta das manipulações midiáticas e do fanatismo religioso que
comprometem a verdadeira catolicidade:
a) Somos católicos quando nos abrimos às
diferenças dos outros e buscamos integrá-las com a caridade do Evangelho.
b) Católicos seremos realmente se não usarmos a Palavra de Deus para
difundir nossos fanatismos pessoais que ferem a unidade do Corpo de Cristo.
c) A
catolicidade se torna credível em nosso tempo só se deixarmos a fé progredir através do bem e da generosidade que
nos fazem ser solidários com as reais necessidades humanas.
Neste
sentido, pensar numa Igreja mais católica me faz olhar para dentro de mim mesmo
e questionar-me se consigo dizer com humildade ao homem de hoje: «venha, entre! No meu coração você tem um
lugar especial». E este exercício quem sabe seria um bom remédio para nos
curar do mal de nosso fanatismo religioso. Pode ser também a estrada que
podemos percorrer neste advento. Entremos juntos neste caminho...
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