O que é fazer Teologia???
O mínimo que você
precisa saber sobre
teologia para não ser
idiota
Gilmar Pereira*
As
pessoas estão acostumadas a frequentar igrejas e creem que
entendem
tudo de religião, fé e teologia
Por estarem acostumadas a
algo, é comum que as pessoas julguem entendê-las. Por assistir a muitos jogos, tem torcedor que se
acha técnico de futebol. Por ver e ler jornais, há quem ache que sabe
jornalismo. Daí se vê gente chamando artigo de opinião de fake News,
porque é incapaz de diferenciar notícia de outros gêneros. Aliás, falar a
palavra gênero já gera polêmica porque incautos, que nunca se dedicaram ao
estudo ou reflexão mínima sobre a sexualidade, já entendem que existe uma
“ideologia de gênero” que quer fazer com que menino se comporte como menina e
vice-versa, o que é mentira. Mas quem fala isso acha que entende de
sexualidade (por que já transou?).
O mesmo vale para a
religião. As pessoas estão
acostumadas a frequentar igrejas e creem que entendem tudo de religião, fé e
teologia. Leram partes ou até mesmo a bíblia toda e se sentem sabedoras
profundas – pasmem – da vontade de Deus, para si e para os outros.
Ultimamente a ignorância vem em combo e - perdoem a palavra - os idiotas
acreditam que entendem de jornalismo, religião, sexualidade, ciências sociais,
educação, economia e política ao mesmo tempo. Fazem uma amálgama de
boçalidade e, como têm voz nas novas mídias, gritam aos quatro cantos que estão
certos até fazer valer o que querem.
Digo “idiotas” usando o sentido próprio do termo.
Originando do grego antigo, ἰδιώτης (idhiótes) designava a pessoa que se
apartava da vida pública – a política, a busca do bem comum na pólis
(cidade) era assunto de suma importância – fechando-se nos próprios interesses.
Hoje o idiota vai à vida pública, mas continua fechado em sim mesmo
e
toma a si como régua para medir e ditar o comportamento e
pensamento alheios.
Se você reza diferente do que ele pensa ser a única maneira certa,
será execrado por isso.
O idiota é capaz de juntar
outros como ele, gravar vídeos e mobilizar a Igreja até que o diferente seja
excomungado. Isso tem valido para
diversos campos da sociedade. Pergunte aos palpiteiros da Educação, quem
leu Piaget, Vigotski, Dewey, Montessori, Paulo
Freire. Esse último tem sido apedrejado por quem não só não entende da
área, como nunca leu nada dele, no muito um texto de algum comentador ou um
vídeo do YouTube repleto de deturpações, para dizer de forma educada.
De todas as áreas, a Teologia talvez seja uma das mais alarmantes no que
tange à ignorância. Isso se mostra por coisas bem evidentes. Basta
olhar os efeitos nefastos que uma compreensão deturpada das Escrituras pode
causar. No plano político, há uma legião de parlamentares eleitos para
defender os interesses particulares de seus agrupamentos religiosos, compondo
bancadas que querem obrigar a população a viver sua interpretação de mundo
pautada nos seus equívocos teológicos. Eles usam a fé para se promoverem
e manipular uma parcela da população. Além disso, há outros malefícios que
se pode ler inclusive em páginas policiais, como gente que mata “em nome de
Deus”; pessoas que se suicidam, adoentados pela culpa religiosa; famílias
divididas porque um dos membros não partilha da mesma fé.
Por outro lado, o
desconhecimento da Teologia não é um problema dos que se dizem crentes, ele
toca também ateus, agnósticos e gente que não tem posicionamento certo. Às vezes, doutores e pós-doutores são geniais
em suas áreas mas, quando falam de Igreja e fé, só se ouve desconhecimento
travestido de palavras bonitas. Afinal, saber muito de uma coisa não é o
mesmo que saber muito sobre tudo e poucos se dedicam à História da Igreja e às
questões teológicas. Um dos primeiros erros, por exemplo, é tratar a Igreja
Católica como um bloco monolítico, sendo que, apesar de ser una, é plural e
conta com diversas escolas de espiritualidades, correntes teológicas, etc. Não
é tudo igual.
Há, sim, uma voz “oficial”
expressa pelo Magistério da Igreja. Mas aí já entra uma polêmica teológica.
O Magistério seria composto somente dos que que compõem a hierarquia da Igreja
institucional, somente dos seus bispos e oficializada pelo papa? Alguns setores
dizem que sim, principalmente os ligados a essa estrutura. Assim, se um grupo diz que só se pode ouvir o
Magistério e esse mesmo grupo disser que ele é o Magistério, não lhe geraria
alguma suspeita? Perdoem-me por simplificar a questão, as linhas são poucas
para detalhar algo que pode ser aprofundado num livro inteiro ou mais.
Além disso, há uma
diferença que se deve fazer entre Teologia e Catequese. Essa última
consiste na transmissão da fé. O catequizando apresenta questões enquanto é
inserido na comunidade dos fiéis e vai obtendo respostas de acordo com a
Tradição e as Escrituras à luz do Magistério que, particularmente, não seria
composto só da hierarquia (entra também, por exemplo, o sensus fidei),
mas que por sua compreensão do todo pode ajudar assimilar o sentido da fé. Já
a Teologia, apesar de partir da fé, constitui uma área de conhecimento autônoma
e não se reduz a repetir o que os documentos da Igreja dizem. Isso não é
Teologia.
Se a fé é dom de Deus
desenvolvido e aprendido junto a uma comunidade de fé, as fontes da Teologia
são, de fato, a Escritura, a Tradição e o Magistério. Contudo, essas fontes são acessadas de um lugar
existencial e social, também chamado de lugar
teológico. É daí que surgem as diferentes teologias, das diferentes
abordagens que se faz às mesmas fontes segundo o lugar teológico que se ocupa.
Desse modo, a Teologia do Corpo entende o corpo como lugar teológico, a Teologia
Feminista entende a mulher como lugar teológico, a Teologia Queer
entende os LGBTQ+s como lugar teológico, a Teologia da Libertação
entende o pobre como lugar teológico. Cada um interpela a fé e as fontes de
sua compreensão desde seu lugar no mundo.
Assim, cada lugar
teológico se utiliza das ferramentas que possui para extrair sua compreensão da
fé das fontes da teologia. Os pobres, por exemplo, em sua condição de
exclusão social estarão mais atentos às lutas de poder presentes nos textos
sagrados e às marcas do tempo em que foram escritos, e, por isso, utilizarão do
método que melhor responde às suas questões. Talvez por isso o método
histórico-crítico seja muito usado nessas teologias chamadas contextuais,
pois é útil às interpelações apresentadas. Acontece que utilizar teorias de
gênero, método histórico-crítico, método linguístico-pragmático, semiótica,
estudos sociais etc. tornou-se algo próprio de quem se envolve academicamente
com a Teologia. Com isso, essa área do saber foi se distanciando da vida
das Igrejas. Deste modo, há uma religião popular e outra que se atém aos
debates teológicos, embora a Teologia busque responder às interpelações vindas
dos fiéis e do dia-a-dia das igrejas.
Outro problema é que o
cenário político cultural está afetando o fazer teológico. Aí voltam os
ignorantes. Na demonização que houve da Esquerda, usar o método
histórico-crítico se tornou sinônimo de ser marxista e, pela leitura
fundamentalista do Magistério, algo condenável. Daí há um movimento para
calar teólogos, onde se prega que não se deve pensar ou questionar nada da
doutrina “oficial”, basta repetir o que os documentos da Igreja dizem. Por trás dessa censura não estão questões de
fé, mas políticas e ideológicas.
Como querem a simples
repetição de documentos e o cumprimento cego de normas eclesiais, estão
fechando as portas da fé aos que querem, de coração sincero, interpelar fé e
vida. Acontece o mesmo que no tempo de Jesus, quando os doutores da Lei sobrecarregavam
os ombros dos que queriam viver a fé, mas eles próprios eram incapazes de
vivê-la. Jesus, por se ater ao espírito mais que à letra, denunciava tal
postura de quem fecha as portas do Céu aos pequeninos. Escândalo não oferece
quem cria uma pastoral da diversidade sexual para acolher quem quer conciliar
sua sexualidade e sua fé ou quem faz teologia crítica, mas é provocado por quem
quer colocar a todos sob o jugo da lei. O capítulo
23 de Mateus é para esses que “atravessam os mares e viajam por todas as
terras a fim de procurar converter uma pessoa para a sua religião. E, quando
conseguem, tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que”
eles mesmos [Mt 23,15].
Como um saber que se pergunta
sobre Deus, a Teologia Cristã é possível porque Deus se revela aos homens na
pessoa de Jesus. Este, por sua vez, em sua dupla natureza, não só nos
ensina sobre o divino, mas sobre a própria humanidade. Assim, a Teologia
não reflete somente sobre realidades sobrenaturais, mas sobre tudo aquilo que
toca o humano. Pensando sobre isso, Teófilo da
Silva, em seu texto A teologia e a responsabilidade para tocar as
questões humanas, mostra como o fazer teológico não pode evitar questão
humana alguma.
[Leia esse e os demais artigos que serão mencionados, logo
abaixo,
após este texto que você está lendo.]
Felipe Magalhães
Francisco, no texto A teologia não é
tarefa infantil, explica como se faz Teologia, diferenciando-a de outras
ciências porque nela está implicada a fé.
Em sua reflexão, o autor critica a compreensão infantil da fé que quer
cercear a Teologia de modo que ela só possa repetir dogmas que compõem a fé
cristã. Antes, ela interpela o dogma para que este possa fazer sentido às
pessoas de cada época.
Na mesma linha, Gustavo Ribeiro discute qual é a tarefa que compete à
Teologia, uma vez que ela trabalha com as fontes da Fé e experiência humana.
Apoiando-se num dos maiores teólogos da contemporaneidade, o autor mostra o
caráter profético que o fazer teológico deve assumir no texto Teologia: entre o
sexo dos anjos e a profecia.
Boa leitura!
*
GILMAR PEREIRA
é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em
Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em
Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui
formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É
responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é
colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo
religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia
e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e
como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e
ministra a disciplina "A comunicação como evento teológico" na especialização
"Desafios para a Igreja na Era Digital".
Fonte: Dom Total – Religião – Sexta-feira, 30 de novembro de 2018 – Internet:
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A teologia e a
responsabilidade para tocar
as questões humanas
Teófilo da Silva
Teólogo
e poeta
O
ser humano é capaz de Deus porque Deus que ser alcançado
pelo
ser humano e, por isso, ele se abaixa para nos elevar
Que a teologia seja uma
pergunta sobre Deus, já é um pressuposto básico. O ser humano, apesar dos
limites próprios de sua existência e de sua linguagem, é capaz de [alcançar]
Deus. Se partirmos da ideia do Deus cristão, essa capacidade de alcance de
Deus, por parte do humano, é justamente porque ele se dá, revela-se,
autocomunica-se como uma proposta de relação. O ser humano é capaz de Deus
porque Deus que ser alcançado pelo ser humano e, por isso, ele se abaixa para
nos elevar.
Perguntamos por Deus –
isto é, fazemos teologia – porque ele se permite ser encontrado em seu mistério. Mas, é preciso dizer, toda teologia é palavra
penúltima, porque o mistério é inesgotável.
A teologia cristã toca o mistério divino a partir da pessoa de Jesus Cristo,
revelação última e definitiva do rosto amoroso de Deus. Somos capazes de
Deus, porque ele se torna acessível, sobretudo, na pessoa do Filho. Com o
Filho, aliás, com o qual partilhamos a natureza humana: Deus participa, por
meio de Jesus Cristo, daquilo que somos.
Logo, a uma outra conclusão
podemos chegar: Deus é capaz do ser humano. Aqui, abrimos mão de uma constatação
rápida, ignorando, metodologicamente, a questão da onipotência de Deus, que
seria argumento para a obviedade da conclusão. Essa obviedade não nos
interessa. Deus é capaz do ser humano não por ser superior a ele e, ainda,
seu criador. Mas o é porque o alcança desde dentro, participando de sua
natureza. Deus escolheu ter uma carne humana, para revelar a real
dignidade do que significa ser humano, abrindo-nos a todas as
possibilidades de realização de nossa humanidade.
Ora, nesse caso, se toda
teologia é uma pergunta sobre Deus, é, também e em última instância, uma
pergunta sobre o ser humano. Ao perguntarmos por Deus, perguntamos
também por e sobre nós mesmos. O mistério de Jesus Cristo, ao revelar
plenamente o rosto de Deus, revela, de modo igualmente pleno, o rosto humano.
Não é sem motivos, então, que a teologia proponha, a partir do Evento Cristo,
uma palavra a respeito da origem e do destino humanos, questões fundamentais
que fazemos a nosso próprio respeito, e que estão intimamente ligadas ao
sentido da vida e do viver.
A teologia precisa ser
responsável, pois ela traz uma palavra acerca daquilo que ela alcança, Deus,
mas que não domina. O mistério humano, igualmente, extrapola todas as
tentativas de dominação: somos sempre mais. A teologia, então, ao tratar a
respeito do humano, precisa de sensibilidade para lidar com a complexidade que
nos qualifica. O fazer teológico, nesse sentido, precisa ser um serviço de humanização, daí a dimensão da
responsabilidade, tão fundamental na lida com as questões humanas. Uma
teologia responsável é aquela que pressupõe a
pluralidade e a diversidade que nos
constitui. As palavras com tendência à universalização não podem, de forma
alguma, pretender esgotar o mistério do qual somos constituídos.
A palavra teológica deve ser
uma palavra qualificada para dizer o humano. É uma contribuição legítima, no
grande leque de conhecimentos que constituem nossos saberes. Fazer teologia
é prestar um serviço; por isso ela não deve ter qualquer pretensão de poder.
O uso da palavra teológica para dominar as consciências é um uso de má-fé e uma
subversão do papel teologal. Tocar as questões humanas com responsabilidade
e sensibilidade é o que mais dignifica a teologia como um discurso legítimo e
possível, que a faz capaz de Deus e, tão logo, capaz do humano.
Fonte: Dom Total – Religião – Sexta-feira, 30 de novembro de 2018 – Internet:
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A teologia não é
tarefa infantil
Felipe Magalhães Francisco
Teólogo.
Articula a Editoria de Religião deste portal.
É
autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015)
O
labor teológico faz-se levando em conta a experiência espiritual
nascida da fé e o acesso a Deus, sobretudo por meio
das Sagradas Escrituras e da Tradição
nascida da fé e o acesso a Deus, sobretudo por meio
das Sagradas Escrituras e da Tradição
Nos meios teológicos há uma
expressão bastante comum e que carrega aspectos fundamentais desse importante
ofício: “fazer teologia de joelhos”. A postura de joelhos, aqui, não
significa, de modo algum, subserviência. Ao contrário, reflete uma postura
de reverência frente ao Mistério divino, a respeito do qual os teólogos e
teólogas refletem e tematizam com o seu labor. Significa que a teologia,
antes de tudo, deve ser uma atividade espiritual ou, dito de outra forma, a
teologia deve ser fruto de uma espiritualidade.
Ora, esse aspecto espiritual tem uma dimensão efetiva de subjetividade, pois
diz respeito a uma experiência profunda de sentido com o Mistério de Deus.
Isso é o que define, aliás, ESPIRITUALIDADE: experiência
de sentido. Fora disso, o labor teológico consiste em mera
especulação sobre as questões divinas.
Essa questão é tão importante
e fundamental para o fazer teológico que diz respeito à própria epistemologia
da teologia. Explico-me: ao contrário da maior parte das ciências modernas –
senão, de todas as ciências modernas – a teologia é feita numa perspectiva inside,
desde dentro. Há um engajamento existencial entre aqueles e aquelas que
fazem teologia e a dimensão da fé que professam. Não
se faz teologia sem fé. Esse é o grande entrave para que a teologia
seja reconhecida legitimamente como ciência em outros âmbitos do saber, de
inspiração positivista. Contudo, apesar da fundamental dimensão de
subjetividade pressuposta na criação teológica, há um dado bastante objetivo
que é igualmente pressuposto: o objeto da teologia,
a saber, Deus, e, em consequência, o ser humano em sua relação com Ele.
Teologia é ciência. Logo,
um rigor metodológico é necessário, de modo que teólogos e teólogas a ele não
podem se furtar. O labor teológico, então, faz-se levando em
conta os aspectos subjetivo – a experiência espiritual nascida da fé – e
objetivo – o objeto, em seu acesso sobretudo por meio das Sagradas
Escrituras e da Tradição (esta última, para o caso da teologia feita em
realidade católica). É nessa tensão virtuosa
entre os frutos espirituais da experiência de fé dos teólogos e teólogas e as
dimensões objetivas da eclesialidade da fé, que está a superação dos riscos
de uma teologia subjetivista ou, noutro extremo, especulativa. A especificidade
da epistemologia teológica está nessa tensão, que deve se manter constante,
para que o labor teológico não esteja em risco.
Dito isso, podemos afirmar a necessidade
da liberdade e da autonomia
para o fazer teológico. O ofício teologal deve estar livre de toda tutela
que cerceie as possibilidades de elaboração teológica, uma vez que essa leva em
conta os dois aspectos epistemológicos de nossa ciência. Uma teologia tutelada é uma teologia infantilizada.
Tem crescido, em certos meios populares do catolicismo, uma tendência
policialesca que não tem qualquer razão de ser. Primeiro, porque desconhece
as questões epistemológicas que envolvem o labor teológico; e, depois, por
revelarem uma má compreensão de qual a tarefa da teologia na missão
evangelizadora da Igreja – isso quando a questão não é, propriamente, má-fé
desses grupos reacionários.
Passou-se de um controle
institucional – por parte da
Congregação para a Doutrina da Fé –, para um controle vindo de grupos que
compreendem a fé e a prática religiosa de modo infantil. O espaço acadêmico
é o espaço que deve garantir a liberdade de pensamento, que está comprometida
com as questões de método científico, por exemplo. Esse controle atual, por
parte de grupos sem quaisquer competências ou qualificações, é estúpido e
improducente. O pressuposto para tais posturas reacionárias é o de que o
fazer teológico deva ser mera repetição daquilo já postulado pela religião. Desconhece-se
o real significado de Tradição, em sua
característica fundamentalmente dinâmica e em construção, quando a
compreende como uma realidade estática e imutável, sem quaisquer influências no
e do tempo histórico.
A teologia precisa ser
liberta desse estado policialesco que vai
tomando conta de todos os âmbitos do saber, atualmente em nosso país. Projetos tais como o da Escola sem Partido são um
atentado à vocação humana de construir caminhos e de refletir, criticamente, a
história e os contextos e rumos sociais, culturais, políticos e econômicos. Em
se tratando de teologia, não há assuntos que não devam ser abordados e
criticamente refletidos, pois não há questões que sejam verdadeiramente
humanas que não sejam questões que reflitam o interesse do Deus de Jesus, que
nos salva desde dentro da história e do mundo humanos.
Fazer teologia não é repetir dogmas que compõem a fé cristã.
Fazer teologia é, pois, fazer com que esses dogmas façam sentido
para
os homens e mulheres de todos os tempos e lugares,
com suas questões tão próprias, urgentes e fundamentais.
O conteúdo da fé não é um
bloco ao qual todos e todas devam se enquadrar. Ao contrário, o conteúdo da fé precisa ser permanentemente
sistematizado, a fim de que dialogue com as pessoas, em suas questões
humanas e existenciais. A teologia, em sua proposição livre e crítica a
respeito de temas diversos, não é uma ameaça à fé e à religião. Trata-se, bem
mais, de um serviço legítimo fundamental de fortalecimento da fé e de constante
ressignificação da religião. É por isso que o insuspeito Papa Francisco
recorda aos teólogos e teólogas que teologia se faz com a mente aberta e com os
joelhos no chão. Não nos esqueçamos!
Fonte: Dom Total – Religião – Sexta-feira, 30 de novembro de 2018 – Internet:
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Teologia: entre o
sexo dos anjos e a profecia
Gustavo Ribeiro*
A
Igreja deve, com sua convicção de fé, entrar em diálogo com o
mundo, com a perspectiva de buscar pelo bem-estar
dos homens e mulheres de seu tempo
mundo, com a perspectiva de buscar pelo bem-estar
dos homens e mulheres de seu tempo
A teologia tem uma das
tarefas mais importantes no interior da Igreja, que é a de apontar os
caminhos através de uma reflexão séria e embasada nas Escrituras, no Magistério
e, sobretudo, na vida de fé do povo de Deus.
Nestes tempos complexos em
que vivemos, urge construir novos modos de fazer teologia. O fazer teológico
tem sido questionado de muitas maneiras e as interpelações que chegam colocam
em xeque velhas formas de pensar a fé e de propor interpretações dos conteúdos
da fé; por isso, mais do que a dogmática, a teologia está chamada a se
preocupar com o todo da humanidade. Não só a preocupação com os
“novíssimos” e a transcendência, porque importa muito mais as
realidades imanentes, com todas as realidades do mundo, sobretudo, das realidades
humanas, porque é aí, lugar em que Deus se dá a conhecer e
experimentar.
Segundo Edward
Schillebeeckx, dominicano belga, importante voz da teologia católica no
século XX, o labor teológico não pode ser nunca uma mera erudição de gabinete,
ela deve, “unicamente, construir-se em diálogo com nossos semelhantes, sobre
os problemas que todos devemos nos ocupar, com risco mortal, seja que nos
fechemos temerosamente ou que acompanhemos a outros em nosso pensamento com
abertura esperançosa e inquietante”.
Para Schillebeeckx, após o Vaticano II chegou-se
“à convicção de que a teologia cristã brota sempre não de uma,
senão, de duas fontes,
que deverão ser mantidas continua e criticamente entrelaçadas entre
si”:
uma é “toda a tradição experiencial do grande movimento
judaico-cristão”; e a
outra se trata da “nova experiência humana que hoje realizam
cristãos e não cristãos”.
É a experiência de estar no mundo, existindo a que deve conferir sentido
ao trabalho da teologia hoje.
Portanto, as experiências humanas devem balizar o labor teológico, gerando
respostas que validem a fé vivida pelo homem moderno, ajudando-o a formular
suas experiências de fé, oferecendo-lhe a oportunidade de purificá-las e de
reconhecer, com clareza, a voz de Deus que emerge da realidade de sua vida e
aponta para um horizonte aberto de salvação para todo o gênero humano e para
todo o cosmos.
A Igreja deve, com sua convicção de fé, entrar em diálogo com o
mundo, com a perspectiva de buscar pelo bem-estar dos homens e mulheres de seu
tempo,
bem-estar este que já começa na vida terrena.
E quando a Igreja, o Povo de
Deus, se põe a indagar e a procurar caminhos de diálogos com as realidades
“mundanas” ela não se baseia em argumentos puramente teológicos, porém o faz
por caminhos traçados por outras perspectivas, sobretudo, pelo traçado das
ciências sociais. É aqui que “o ministério da Igreja aparece claramente em uma
nova função, a que se poderia designar como função de “crítica social” e de
“utopia social””.
Surge daí uma nova
concepção e uma nova autocompreensão do ministério teológico, porque nestas
situações ele deve se por em atitude eminentemente profética. Aparece aí seu
vigor crítico e construtivo, e ele depende de um constante diálogo com o mundo.
A teologia está chamada a
desempenhar sua tarefa profética dialogando com
os problemas reais da humanidade e das sociedades em que está inserida. É sim, com este fim, que ela escuta também a “profecia
exterior”, aquele chamado que vem do mundo, que vem do exterior das
estruturas eclesiásticas, que a impulsiona para tomar decisões históricas de
denúncia e construção de alternativas.
O teólogo Edward
Schillebeeckx diz que a teologia está chamada a fazer uma “experiência
negativa de contraste”, porque nela “se experimenta o vazio, no oco, a falta do
que deveria existir. E aparece assim, dentro do horizonte de perspectivas,
o que é necessário aqui e agora: o princípio de um caminho vago, porém inegável
que deve ser construído, a transformação que precisa brotar, que parte da
reflexão, mas que desemboca na práxis de uma espiritualidade
cristã viva e encarnada.
Tudo isto só é possível
porque há esperança. As experiências negativas não seriam de contraste, e
também não suscitariam um “protesto”, se não fossem feitas na firme esperança
de que é possível uma mudança da realidade, de que há, sim, a possibilidade de
um mundo melhor acontecer. Segundo Schillebeeckx, “consequentemente, o tom
profético que brota da experiência de contraste é protesto, promessa
esperançosa e iniciativa histórica”.
São estas experiências que
têm impulsionado para que imperativos éticos levem os cristãos a agir e criar
condições melhores de vida para seus pares, para aqueles que estão enredados
nas periferias sociais.
A teologia só encontrará
verdadeiro sentido de ser se se ocupar das realidades teológicas da Revelação
de Deus, os lugares onde Deus continua a se “encarnar”, o motivo de sua
auto-revelação-doação, a existência da vida em sua diversidade de formas.
REFERÊNCIAS:
SCHILLEBEECKX, Edward. Dios
futuro del hombre. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1971.
SCHILLEBEECKX, Edward. En torno al
problema de Jesus. Claves de una cristología. Madrid: Ediciones
Cristiandad, 1983.
* GUSTAVO RIBEIRO é
mineiro de São Vicente de Minas, residente, por ora, em Belo Horizonte. É Bacharel em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino; Pós-graduando
em Gerenciamento de Projetos pela PUC Minas. Atua como Coordenador de Pastoral
do Centro Franciscano de Defesa de Direitos e Coordenador Pedagógico da Rede
Educafro Minas. E vive na tentativa de ser poeta, mas isto só quando sobra
tempo, e quase nunca sobra.
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