Olavo de Carvalho, quem é?
Intelectual que
inspira várias mentes
de direita no Brasil
Ricardo Della Coletta
Ignorado
nas universidades do país e tido como figura folclórica da direita nas redes
sociais, filósofo sai da obscuridade
ao
indicar dois ministros do novo Governo
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OLAVO LUIZ PIMENTEL DE CARVALHO Nascido em Campinas, interior de São Paulo, aos 29 de abril de 1947 |
O homem por trás da indicação
de dois dos mais importantes ministros do governo Jair Bolsonaro não é militar
nem político. Não lidera qualquer bancada de deputados na Câmara nem é
porta-voz de uma frente parlamentar temática que apoie o capitão reformado do
Exército, como a Evangélica ou a Agropecuária. Aos 71 anos, Olavo de
Carvalho vive desde 2005 nos Estados Unidos, de onde ministra cursos de
Filosofia que são transmitidas por vídeos na Internet. Até pouco tempo
atrás era tratado como uma espécie de caricatura da extrema direita e do
neoconservadorismo no Brasil, mas algo definitivamente mudou com a eleição de
Bolsonaro para a presidência da República. Não só descobriu-se que Carvalho
é o guru intelectual de alguns dos mais próximos assessores do presidente
eleito, como ele mesmo foi o padrinho direto das nomeações de Ernesto Araújo para
comandar o Ministério de Relações Exteriores e de Ricardo
Vélez Rodríguez para o Ministério da
Educação (MEC).
A chamada nova direita que
chegou ao poder pelas mãos de Bolsonaro, que mistura a defesa do liberalismo
econômico com o conservadorismo moral, tem no filósofo brasileiro Olavo de
Carvalho uma clara referência intelectual. Tanto Flávio Bolsonaro,
senador eleito pelo Rio de Janeiro e filho do futuro presidente do Brasil,
quanto seu irmão Eduardo já foram a Richmond, na Virgínia, e
participaram de transmissões no YouTube ao lado dele. A lista de seguidores não
para por aí: também estão entre os discípulos de Carvalho personagens como o
blogueiro de direita Felipe Moura Brasil e a deputada federal eleita por
São Paulo Joyce Hasselmann, do mesmo partido do presidente eleito.
"Muito embora não seja
um acadêmico, o Olavo de Carvalho é um intelectual de influência considerável
na opinião pública brasileira. E já exerce uma atividade intelectual há várias
décadas, primeiro como articulista em grandes jornais e depois nas redes
sociais, onde ele difunde o seu pensamento e encontra os seus aderentes",
explica Alvaro Bianchi, professor do Departamento de Ciência Política da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Apesar de ressalvar que «há
pouca verdade» na narrativa filosófica apresentada por Carvalho, Bianchi
explica que ela se mostra persuasiva e eficaz por abordar «os medos e as
inseguranças do homem comum perante as transformações do mundo contemporâneo.»
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Olavo de Carvalho, em cena do documentário "O Jardim das Aflições", pratica tiro esportivo |
Além de filósofo, Olavo de
Carvalho é escritor — são 18 livros, segundo seu perfil no Twitter —, conferencista
e jornalista. Ele se apresenta como um intelectual (venerado por seu
apoiadores como a mente que se rebelou contra um suposto monopólio do
pensamento de esquerda na imprensa e na academia brasileira), mas construiu
sua carreira sempre de costas para os círculos universitários (não tem, por
exemplo, um título acadêmico formal e boa parte do seu trabalho concentra-se
justamente em desqualificar a academia).
O desprezo parece ser
recíproco nas faculdades brasileiras, onde a obra de Carvalho é praticamente
ignorada ou tratada como algo sem valor científico. «Na minha geração e
entre os meus colegas ninguém leu Olavo de Carvalho. [Ele] é absolutamente
irrelevante do ponto de vista filosófico», afirma José Arthur Giannoti,
professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
de São Paulo (USP) e membro fundador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap). «Não tenho nenhum interesse em ler o Olavo de Carvalho, a não ser
[para] explicar como é que a nova direita o tenha como um ídolo e que tanta
gente no Brasil seja influenciado por ele», acrescenta.
A imagem de outsider entre a
intelectualidade brasileira só é reforçada pelo seu passado pouco ortodoxo. Na
década de 1980 deu cursos de astrologia e, por aqueles tempos, chegou a fazer
parte de uma confraria mística muçulmana (tariqa). Hoje denuncia em
vídeos o que considera o perigo da islamização do Ocidente e o abandono de
valores judaico-cristãos. [Sei!!! Engana-me que eu
gosto e acredito!!!]
O sucesso que Olavo de
Carvalho atingiu na nova direita brasileira, ao ponto de converter-se num
fenômeno editorial e alcançar o status de um verdadeiro guru, se deve
principalmente à sua militância online ao longo dos últimos anos. Ele
mantém um perfil no Facebook que conta com mais de 543.000 seguidores. Para
além disso, disponibiliza em sua web oficial um seminário de filosofia —
«o único que pode ajudar você a praticar a filosofia em vez de apenas
repetir o que outras pessoas, ilustres o quanto se queira, disseram a respeito
dela» — com videoaulas e cuja mensalidade custa 60 reais.
Os temas dos vídeos
publicados por Carvalho na Internet são vários. Já definiu o ex-presidente
Lula como «líder supremo do comunismo latino-americano»; considera o Foro
de São Paulo, fórum criado nos anos 1990 que reúne partidos de esquerda da
América Latina, «a maior organização política que já existiu no continente»;
classificou o fascismo de «variante do movimento socialista» e afirmou
que «ideologia de gênero, abortismo e gayzismo» são parte de uma «revolução
cultural» coordenada por esquerdistas. [Que festival
de asneiras!!! E ele se considera o máximo, o único, o melhor de todos, um
semideus!!!]
Nas publicações, não raro
as suas análises se misturam com teorias conspiratórias de procedência duvidosa
— ou em alguns casos comprovadamente falsas. Em um texto de novembro de
2008 intitulado Milagres da fé obâmica, por exemplo, Olavo de
Carvalho descreve Barack Obama, então o presidenciável democrata prestes a
arrematar a Casa Branca, como um político «apoiado entusiasticamente pela
Al-Qaeda, pelo Hamas, pela Organização de Libertação Palestina, pelo presidente
iraniano [Mahmoud] Ahmadinejad, por Muammar Khadafi, por Fidel Castro, por Hugo
Chávez e por todas as forças anti-americanas, pró-comunistas e pró-terroristas
do mundo, sem nenhuma exceção visível.» [Meu Deus! E
como alguém pode dar crédito a uma figura como esta?! Somente sendo como ele:
idiota! Só para lembrar: qual foi o presidente que matou Osama Bin Laden???]
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Frase que pode ser aplicada aos fanáticos seguidores desse intelectual brasileiro, radicado nos Estados Unidos desde 2005 |
Num episódio mais recente, já
na última campanha presidencial brasileira, Carvalho publicou em suas redes
sociais uma mensagem na qual afirmava que Fernando Haddad, candidato do PT que
acabou derrotado, fez em um livro apologia à prática do incesto. O conteúdo
da postagem, posteriormente apagada por Carvalho, foi considerado mentiroso por
sites de checagem de informações no Brasil. [De fato,
um “intelectual” desse tipo tem de criticar os acadêmicos e os que levam a
pesquisa a sério! Deve ser dor de cotovelo, no mínimo!]
Para Esther Solano,
professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e organizadora do
livro Ódio como política (editora Boitempo), assim como ocorreu no caso
de Bolsonaro, a força de Olavo de Carvalho no movimento neoconservador
brasileiro só pode ser entendida a partir do fenômeno das redes sociais.
«[Ele] é a típica pessoa que soube se capitalizar com base nesse novo formato
de se comunicar: fácil, rápido, polêmico e combativo», afirma. «Ele sabe se
comunicar com base em frases polêmicas, conteúdos curtos, mensagens fáceis e
ataques. É a forma comunicativa do best seller, daquele palestrante
que tem um conteúdo muito simples e mastigado. Uma coisa fácil, polêmica e que
faz sucesso.»
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Olavo de Carvalho na Virgínia (Estados Unidos), onde reside, em cena de "O jardim das aflições" |
Guerra
cultural
Se em seus textos e vídeos
Olavo de Carvalho mostra-se como alguém que transita com naturalidade entre
diversos temas filosóficos e da atualidade, um assunto parece merecer sua
atenção especial. Trata-se da ideia de «marxismo cultural», teoria conspiratória difundida em diversos círculos
de extrema direita ao redor do mundo. Basicamente, ela se apropria de textos
do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci para atacar uma suposta
infiltração do pensamento comunista em diversas instituições culturais — de
escolas e universidades à própria imprensa — com o fim de destruir valores
civilizatórios.
Carvalho trata de adaptar
essa teoria ao contexto brasileiro.
Há gravações na Internet nas quais ele diz que essa ação coordenada de avanço
da esquerda sobre as instituições brasileiras ocorreu a partir do golpe militar
de 1964. «Na estratégia do [Antonio] Gramsci [filósofo marxista italiano] a
maior parte da militância envolvida não saía pregando ideias comunistas. Ao
contrário, [ela] atacava pontos específicos que representavam pilares da
civilização, como a própria ideia de família, moral sexual e as bases do direito
penal e civil», diz Carvalho em um dos seus vídeos. «Gradativamente eles
[comunistas] foram ocupando todos os espaços. Para se fazer uma ideia de como
levaram isso a sério, no tempo do governo militar a esquerda já dominava a
imprensa brasileira inteira. Você não tinha um jornal cujo diretor de redação
não fosse comunista», conclui. A teoria propagada por Carvalho pode ter
pouco ou nenhum amparo entre historiadores e especialistas, mas encontra solo
fértil no neoconservadorismo brasileiro. [Afinal,
quem não adora uma teoria da conspiração?! Quem é que não curte ver sempre uma “força
oculta” por detrás de tudo que acontece?! Esse é um simplismo que agrada, pois
não exige muito esforço para buscar-se a verdade daquilo que se passa no
mundo!!!]
De acordo com Bianchi,
da Unicamp, Carvalho «reciclou» para o contexto brasileiro «de modo bastante
eficaz» um assunto que começou a ser discutido nos Estados Unidos na década de 1970.
«A ideia de um marxismo cultural que estaria ameaçando os valores e as
tradições intelectuais das nossas sociedades é um tema recorrente no debate
político norte-americano já há bastante tempo», diz o professor.
Para Bianchi, que estuda justamente a obra de Gramsci, não há
dúvidas de que as teses apresentadas por Carvalho nessa área são teorias
conspiratórias.
«Ele [Olavo de Carvalho] atribui um peso ao marxismo nas
universidades brasileiras
que simplesmente não existe», pontua.
A ascensão de Bolsonaro
tirou Olavo de Carvalho das sombras e o colocou como uma das figuras
centrais para compreender o que pensam tanto o capitão reformado do Exército
quanto algumas pessoas do seu círculo de confiança. Carvalho tem sido alvo de
elogios do secretário de relações internacionais do partido do presidente
eleito (PSL), Filipe Martins. «O imaginário do jornalista brasileiro
médio não é capaz de abarcar um homem de pensamento, dedicado à vida interior e
à construção de uma vida bem examinada, como Olavo de Carvalho», publicou
Martins recentemente no Twitter. [Nossa! É de se emocionar
ao ouvir essa opinião tão “abalizada”! E observem a “modéstia” deste senhor ao
classificar de ignorante, no mínimo, o “jornalista brasileiro médio”!]
Para além disso, Carvalho já
provou todo o alcance da sua influência sobre Bolsonaro. Na formação do novo
governo, o filósofo conseguiu emplacar dois nomes na Esplanada dos Ministérios,
justamente os de perfil mais ideológico. Ernesto Araújo, por exemplo, é um
diplomata que, à frente das Relações Exteriores, promete combater o «alarmismo climático» e as «pautas
abortistas e anticristãs em foros multilaterais», segundo um artigo que
ele publicou na semana passada no jornal Gazeta do Povo. Os dias em que
Carvalho era retratado apenas como um excêntrico agitador de direita nas redes
sociais, sem maiores consequências, ficaram para atrás.
[O
mínimo que se pode afirmar sobre esse futuro Ministro das Relações Exteriores é
que seja um lunático! Desconsiderar o aquecimento global, consenso entre
todos os centros de pesquisa do mundo e entre a maioria esmagadora da classe científica,
e achar que é papel dele ocupar-se com “pautas abortistas e anticristãs em
foros multilaterais” é o fim da picada!]
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