Corrupção, xenofobia e racismo, vergonha da política
Papa Francisco e sua mensagem para o
Dia Mundial da Paz
Andrés Beltramo Álvarez
Vatican
Insider
18-12-2018
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PAPA FRANCISCO Tendo uma pomba em sua mão - Praça de São Pedro - Vaticano |
O Papa não tem dúvidas: a corrupção, a xenofobia e
o racismo são “uma vergonha para a
política” e “colocam em risco a paz
social”. São os vícios de uma atividade que deveria ser, na realidade, o
mais alto estado da caridade. Mas, muitos daqueles que a exercem, caem no
enriquecimento ilegal, na tendência de se perpetuar no poder, na apropriação
indevida dos bens públicos e no aproveitamento das pessoas.
Uma denúncia contida
na mensagem de Francisco para o próximo Dia Mundial da Paz, cujo conteúdo
foi divulgado hoje à tarde, mas que a Igreja Católica celebrará no dia 1º de
janeiro [52ª Jornada Mundial da Paz].
O documento, difundido em oito idiomas, leva como título “A boa política está a serviço da paz”. Em um de
seus fragmentos, o Pontífice se referiu aos vícios dessa atividade humana, entre os quais incluiu também:
* a negação
do direito,
* o
descumprimento das normas comunitárias,
* a
justificação do poder mediante a força ou com o pretexto arbitrário da razão de
Estado,
* a rejeição
ao cuidado da Terra e
* a
exploração ilimitada dos recursos naturais por um lucro imediato.
[...]
o Papa se disse convencido de que a boa política é aquela a serviço da paz, aquela que respeita e promove os direitos fundamentais
de todos, criando assim entre as gerações presentes e futuras um vínculo de
confiança e gratidão. Ao mesmo tempo, afirma que esta atividade, realizada no respeito fundamental à vida, liberdade e
dignidade das pessoas, pode se tornar uma “forma eminente da caridade”.
[...]
Para recordar como deveriam ser os políticos, o Papa citou as “bem-aventuranças” que o
cardeal vietnamita François-Xavier Nguyen Van Thuan,
falecido em 2002, dedicou a essa categoria de pessoas. Assim escreveu:
«Bem-aventurado
o político que tem uma alta consideração
e uma profunda consciência de seu papel,
*
aquele “cuja pessoa reflete credibilidade”,
*
o que “trabalha pelo bem comum e não por seu próprio interesse”,
*
que “permanece fielmente coerente”,
*
o que “está comprometido em realizar uma mudança radical,
*
o que “sabe escutar” e “não tem medo”.»
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François-Xavier Nguyen Van Thuan - Cardeal vietnamita (1928-2002) |
Vale a pena ler a MENSAGEM
NA ÍNTEGRA como segue abaixo.
«A paz
esteja nesta casa!»
Jesus, ao
enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes:
«Em qualquer casa em
que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um
homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós»
(Lucas 10, 5-6).
Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de
Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no
meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa»,
de que fala Jesus, é cada família,
cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é
cada pessoa, sem distinção nem
discriminação alguma. E é também a nossa
«casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos
chamados a cuidar com solicitude.
Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»
O desafio da boa política
A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Charles Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da
violência. Como sabemos, a busca do
poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as
obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à
coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e
até destruição.
«Se alguém quiser ser o
primeiro – diz Jesus – há de ser o
último de todos e o servo de todos» (Mc 9,35). Como assinalava o Papa São
Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local,
regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens,
de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes
é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da
humanidade».[3]
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem
um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu
país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições
dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela
vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.
Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço
dos direitos humanos e da paz
O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a
esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de
incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado
pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e
político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e
sustentada pela caridade, contribui para a edificação
daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história
da família humana».[4] Trata-se de um programa no qual se podem
reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que
desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes
humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito
mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.
A propósito, vale a
pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma
testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:
* Bem-aventurado
o político que tem uma alta noção e uma
profunda consciência do seu papel.
* Bem-aventurado
o político de cuja pessoa irradia a
credibilidade.
* Bem-aventurado
o político que trabalha para o bem comum
e não para os próprios interesses.
* Bem-aventurado
o político que permanece fielmente
coerente.
* Bem-aventurado
o político que realiza a unidade.
* Bem-aventurado
o político que está comprometido na
realização duma mudança radical.
* Bem-aventurado
o político que sabe escutar.
*
Bem-aventurado o político que não
tem medo. [5]
Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral,
cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às
referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos
fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um
vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.
Os vícios da política
A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo
na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente
e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos
quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das
pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida
democrática autêntica, são a vergonha da
vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção
– nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de
instrumentalização das pessoas –, a negação do direito,
a falta de respeito pelas regras comunitárias,
o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto
arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se
no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar
da Terra, a exploração ilimitada dos recursos
naturais em razão do lucro imediato, o desprezo
daqueles que foram forçados ao exílio.
A boa política promove a participação dos jovens e a
confiança no outro
Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar
os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e
os jovens podem ser tentados pela
desconfiança, por se verem condenados
a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num
projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz,
concretamente, no encorajamento dos
talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz
propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que
significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos
juntos pelo bem comum. Por isso, a
política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e
capacidades de cada pessoa. «Que há
de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e
receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4,1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o
coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de
diálogo».[6]
Cada um
pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida
política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os
sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada
geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias
relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é
fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que
está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias
vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam
em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas
sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos
mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família
humana.
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CENA IMPRESSIONANTE: Mesmo em meio à forte tensão, uma mãe ergue, com alegria, seu filho em um acampamento de migrantes próximo à fronteira do México com os Estados Unidos |
Não à guerra nem à estratégia do medo
Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles
combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais
que ontem – a terrível lição das guerras
fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero
equilíbrio das forças e do medo. Manter
o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua
dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação
descontrolada das armas são contrárias
à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as
pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à
procura duma terra de paz.
Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os
migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança.
Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa,
independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela
criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.
O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de
conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus
direitos sejam protegidos. No mundo, uma
em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas
consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria,
soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para
defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o
futuro da humanidade.
Um grande projeto de paz
Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do
Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa
surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a
consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses
direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e
respeitar tais direitos».[7]
Com efeito, a paz é fruto de um grande projeto político, que
se baseia na responsabilidade mútua e na
interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser
abraçado dia após dia. A paz é uma
conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
- a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a
ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando
«um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura
aos outros»;
- a paz com o outro: o familiar, o amigo, o
estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir
a mensagem que traz consigo;
- a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom
de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como
habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.
A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e
delas se ocupa, pode sempre inspirar-se
ao espírito do Magnificat que
Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os
homens: A «misericórdia [do
Todo-Poderoso] estende-se de geração em
geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou
os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes
(...), lembrado da sua misericórdia, como
tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre»
(Lc 1,50-55).
Vaticano, 8 de dezembro de 2018.
FRANCISCUS
________________________
Notas:
[1] Cf. Lc 2, 14: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens do seu agrado».
[2] Cf. Le Porche du mystère de la deuxième vertu (Paris 1986).
[3] Carta apostólica Octogesima adveniens (14/V/1971), 46.
[4] Carta encíclica Caritas in veritate (29/V/2009), 7.
[5] Cf. «Discurso na
Exposição-Encontro “Civitas” de Pádua»: Revista 30giorni (2002 - nº 5).
[6] Bento XVI, Discurso às Autoridades do Benim
(Cotonou, 19/XI/2011).
[7] Carta encíclica Pacem in terris (11/IV/1963), 24 (44).
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