O Catolicismo em Análise
“Pobre catolicismo
que nunca chegou
a ser cristão!”
José Ignacio González Faus
Padre jesuíta e teólogo
espanhol
Religión Digital
07-12-2018
Por
mais incompreensível que pareça, Deus é o infinitamente distante,
o
incrivelmente próximo e o profundamente íntimo
José Ignacio González Faus |
“Catolicismo não cristão”. A frase pode parecer dura, mas não é minha. Em 1933,
Fernando de Los Ríos (um dos pioneiros da Instituição livre de Ensino)
escreveu: “pobre catolicismo espanhol que nunca chegou a ser cristão!”.
Retire a dose de exagero que possa ter. Contudo, hoje, prefiro me fixar na dose
de verdade que ela tem.
Pouco depois, Romano
Guardini publicou uma de suas obras mais famosas (A essência do
cristianismo). Nela dizia que a essência do cristianismo é simplesmente
Jesus como o Cristo. E o que gostaria de destacar agora é que há algumas
formas de catolicismo conservador onde Jesus está praticamente ausente e parece
substituído por outros pseudocristos.
Confessar Jesus como o
Ungido, o encharcado de Deus (isso significa Cristo), implica lhe
seguir em seu anúncio e em seu trabalho que ele chamava “reinado de Deus”.
Esse reinado de Deus (consequência do anúncio jesuânico de que Deus é pai de
todos) significa que o ser humano está acima de todo o sagrado (Mc
2,27-29), que os condenados da terra são os preferidos de Deus (Lc
6,20-26), que aquilo que é feito a eles, se faz a Deus (Mt 25,31ss), que
o seguidor de Jesus deve perdoar e amar os inimigos (Mt 5,43-38) e que há
uma incompatibilidade entre Deus e o dinheiro (Mc 10,17 ss)...
O catolicismo não cristão
esquece (ou desconhece) esses traços do anúncio jesuânico. Ao esquecê-los, na realidade, não segue a Jesus como
Cristo de Deus e o substitui por outros “pseudocristos”, que talvez apelarão à
palavra Cristo, mas lhe dando um rosto distinto ao de Jesus. Os exemplos
mais frequentes são:
1. Uma cristificação do bispo de Roma. No século
XIX, chegou-se a escrever que o papa é como “o Verbo encarnado que se prolonga”
e foram atribuídas a ele expressões que a tradição cristã aplicava a Jesus
Cristo (“mais alto que os céus, santo e separado dos pecadores...”). O título
de “Santo Padre”, que ainda usamos tranquilamente, é um vestígio disso.
E hoje estes grupos acusam Francisco de “Desacralizar o papado”, ignorando que a
heresia está em eles terem sacralizado o papado.
2. Uma piedade mariana que não parece dirigida a
simples jovem de Nazaré, mas a uma figura semidivina, ou a uma deusa
grega coroada como Rainha e vestida com algumas joias que Maria nunca
utilizou. De maneira vaga, ela é envolvida em uma auréola de pureza etérea
que se condensou na expressão “ave Maria puríssima”, que não incomoda ninguém.
Contudo, se fosse pedido a eles que a substituíssem por uma “ave Maria
pobríssima”, negariam, ignorando que dessa pobreza brota a pureza de
Maria.
3. Uma devoção à eucaristia convertida em uma espécie
de “Deus feito coisa”, desligada da Ceia de despedida de Jesus e de
seus gestos de partir o pão (símbolo da necessidade) e passar a taça (símbolo
da alegria). Assim coisificado, Deus pode ser adorado tranquilamente e
podemos ir comungar quase à margem de toda a celebração eucarística, só
para “receber graça”, mas sem que essa graça nos leve a compartilhar a
necessidade e a comunicar a alegria.
4. Um último traço desse catolicismo não cristão
pode ser uma forma de relação “contratual” com Deus, que nos permite
torná-lo propriedade nossa, bastando que cumpramos nossa parte do contrato.
Justamente a relação com Deus que Jesus criticou como “farisaísmo”: tendo a
Deus como propriedade privada nossa, somos os melhores e podemos nos sentir
superiores aos outros. É aquela velha anedota (colocada nos lábios de uma pobre
velhinha, mas que está em muitos corações não tão velhos): “o papa pode
mudar o que quiser, mas, ao final, nós, os de sempre, é que vamos nos salvar”.
E “nos salvaremos” porque
esse tipo de catolicismo substituiu a confiança, que é o mais característico da
fé, pela segurança que nos liberta da entrega confiada. Por isso, costumo dizer
que o maior inimigo da fé verdadeira não é propriamente a incredulidade, mas a
tentação da segurança.
Realmente, é pouco cristão
esse panorama, ainda que se apresente como “muito católico”. Seu traço mais
distintivo não é a confiança em Jesus, mas o medo de Jesus e de seu anúncio
desse “reinado de Deus” que, por assim dizer, horizontaliza todas as
verticalidades pseudorreligiosas. E faz isso não substituindo a vertical pela
horizontal (coisa que Jesus nunca pensou), mas, sim, sustentando a horizontal
na vertical.
Nesse sentido, o típico do
cristianismo frente a outras cosmovisões, religiosas ou descrentes, é a síntese,
impossível talvez, mas que é preciso estabelecer, entre a máxima afirmação da
Transcendência e a mais plena afirmação da imanência: a entrega completa ao
que está além e a plena dedicação ao aqui. Porque, por mais incompreensível que
pareça, Deus é o infinitamente distante, o incrivelmente próximo e o
profundamente íntimo.
Tomara, pois, que quando
Azaña disse aquilo de que a “Espanha deixou de ser católica”, tenha desejado
dizer que a Espanha está começando a poder ser cristã...
Traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse
a versão original, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Terça-feira, 11
de dezembro de 2018 – Internet: clique aqui.
Revisão da pastoral e
da catequese
Giovanni Giavini
Settimana
News
08-12-2018
Sobre
esses pontos, ainda estamos longe
Na Exortação Apostólica Evangelii
gaudium, o Papa Francisco supõe e propõe uma revisão da pastoral e da
catequese. Eu concordo e tento concretizar isso, pensando na minha vida
como biblista e catequista por tantos anos na Itália.
1. Falamos sobre Deus como sendo transcendente
demais ou similar demais a nós.
2. O Espírito Santo estava quase completamente
ausente. O próprio Pai contava pouco.
3. Sacramentos e rituais sim, escuta da Palavra pouco.
4. A liturgia reduzida a ritos, rubricas e
preceitos, mais que ao seu espírito.
5. Eucaristia: interesse excessivo na presença
real e na adoração, em detrimento do resto.
6. Catecismo mais do que o Evangelho (Catecismo
da Igreja Católica, muito ideológico, mais do que aquele para os adultos, bem
mais bíblico-cristocêntricos e narrativos como o eram os outros catecismos da Conferência
Episcopal Italiana).
7. Cuidado pastoral das crianças mais do que dos
adultos, porém com escassa atenção à escola. A iniciação cristã
está mais ligada à idade física das crianças do que à idade psicológica e
social.
8. Oração: mais o terço e outras devoções do que a
oração bíblica, incluindo o breviário.
9. Sufrágios pelos mortos mais do que a oração pelos
vivos e atualidade.
10. Maior valor salvífico para Nossa Senhora (ou
Nossas Senhoras) e Santos/as do que para Jesus.
11. Forte ênfase nas leis mais do que na graça;
forte acento sobre o Decálogo mais do que sobre o Sermão da montanha.
12. Consequente ênfase na virtude e no mérito à custa da
humildade e fé no amor misericordioso do Senhor.
13. Enorme preocupação com a pureza sexual às custas
daquela do coração, da consciência pessoal.
14. A penitência reduzida quase somente ao sacramento
mais do que à vida de penitência na caridade.
15. Igreja reduzida ao clero, aliás, ao papa e
à hierarquia no contexto de um certo tipo de tridentismo e da quase
adoração do papa, na linha do Vaticano I (Pio IX: «O papa pode decidir,
inclusive sem o consentimento da Igreja» !!!).
16. Sacerdócio: apenas aquele
clerical-celibatário, em detrimento daquele de todo o povo de Deus. Formação
no seminário mais para o sacerdócio de culto e de celibato do que para
o ministério do pastor de uma comunidade.
17. Exclusão (pelo menos teórica) da mulher da
vida da Igreja.
18. Importância para tradições, até mesmo banais,
mais do que para a Tradição (ignorância dos Padres e da história da Igreja,
assim como da Bíblia). Natal (ou pior) mais do que a Páscoa.
19. Atitude geral mais de defesa e de condenação do
que de escuta e de valorização do bem e do justo presente em todos os
lugares, especialmente em outras Igrejas e religiões.
20. Igreja e mundo mais em contraposição do que em
diálogo.
Tudo isso sem esquecer quanto
de bem, apesar dos limites, hierarquias e leigos realizaram, especialmente no
campo da caridade. Tudo quase a latere [= colateralmente] em relação às
teorias!
E reconhecendo que, pelo
menos desde o Vaticano II em diante, muito já foi corrigido. Com frutos mais ou
menos abundantes, aliás, eventualmente com decepções em relação às expectativas
conciliares.
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini.
Acesse a versão original, clicando aqui.
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