Uma fala imperdível!
DISCURSO
DO PAPA FRANCISCO
À CÚRIA ROMANA
NA
APRESENTAÇÃO DE VOTOS NATALÍCIOS
Sala Clementina – Vaticano
Sábado, 21 de dezembro de 2019
“Não estamos mais na
Cristandade!
Hoje, não somos os
únicos que produzem cultura,
nem os primeiros, nem
os mais ouvidos”
PAPA FRANCISCO Dirige a palavra aos membros da Cúria Romana, no Vaticano Sala Clementina, 21 de dezembro de 2019 |
«E o
Verbo fez-Se homem e veio habitar conosco» (Jo 1, 14).
Queridos
irmãos e irmãs!
Para todos
vós, as minhas cordiais boas-vindas. Agradeço ao Cardeal Ângelo Sodano as
palavras que me dirigiu e, sobretudo, quero, em nome pessoal e também dos
membros do Colégio Cardinalício, manifestar-lhe viva gratidão pelo serviço
precioso e diligente que desempenhou durante muitos anos como Decano com
disponibilidade, dedicação, eficiência e grande capacidade organizativa e
coordenadora; com aquele modo de agir da nossa gente, da rassa nostrana,
como diria [o escritor piemontês] Nino Costa. De coração obrigado, Eminência!
Agora, cabe aos Cardeais Bispos eleger um novo Decano; espero que escolham
alguém que se ocupe a tempo inteiro deste cargo tão importante. Obrigado.
A vós que
aqui estais, aos vossos colaboradores, a todas as pessoas que prestam serviço
na Cúria, bem como aos Representantes Pontifícios e a quantos os apoiam, desejo
um santo e feliz Natal. E aos votos natalícios junto o reconhecimento pela
dedicação diária colocada ao serviço da Igreja. Muito obrigado!
O Senhor oferece-nos
a oportunidade de nos encontrarmos, também este ano, para este momento de
comunhão que reforça a nossa fraternidade e está enraizado na contemplação do
amor de Deus que Se nos revela no Natal. De fato, «o nascimento de Cristo
– escreveu um místico do nosso tempo – é o testemunho mais forte e eloquente
de quanto Deus amou o homem. Amou-o com um amor pessoal. É por isso que tomou
um corpo humano, ao qual Se uniu e assumiu para sempre. O nascimento de Cristo
é, em si mesmo, uma “aliança de amor” estipulada para sempre entre Deus e o
homem».[1] E São Clemente de Alexandria escreve: «Para isto Ele
[Cristo] desceu; para isto Se revestiu de humanidade; para isto sofreu
voluntariamente o que padecem os homens, para que, depois de Se ter confrontado
com a nossa fraqueza que amou, pudesse em troca confrontar-nos com a sua força».[2]
À vista de
tanta benevolência e tanto amor, a troca das «Boas-Festas» natalícias é
igualmente ocasião para acolhermos de modo novo o seu mandamento: «Que vos
ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão
que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,34-35).
Aqui, Jesus não nos pede para O amarmos a Ele em resposta ao seu amor por nós;
mas, sim, para nos amarmos uns aos outros com o seu próprio amor. Por outras
palavras, pede-nos para sermos semelhantes a Ele, porque Ele Se fez semelhante
a nós. Oxalá o Natal «nos encontre – exorta o Santo cardeal Newman – cada
vez mais semelhantes Àquele que, neste tempo, Se tornou menino por nosso amor;
que em cada novo Natal nos encontre mais simples, mais humildes, mais santos,
mais caridosos, mais resignados, mais alegres, mais repletos de Deus».[3] E acrescenta:
«Este é o tempo da inocência, da pureza, da mansidão, da alegria, da paz».[4]
Pensando em
Newman, vem-nos à mente outra afirmação dele bem conhecida – quase um aforismo
–, presente na sua obra O desenvolvimento da doutrina cristã, que
histórica e espiritualmente se situa na encruzilhada da sua entrada na Igreja
Católica. Ei-la: «Aqui, na terra, viver é mudar; e a perfeição é o
resultado de muitas transformações».[5] Obviamente, não se trata de procurar a mudança por si
mesma nem de seguir as modas, mas de ter a convicção de que o desenvolvimento e
o crescimento são a caraterística da vida terrena e humana, enquanto no centro
de tudo, segundo a perspectiva do crente, está a estabilidade de Deus.[6]
Para
Newman, a mudança era conversão, isto é, uma transformação interior.[7] Na realidade,
a vida cristã é um caminho, uma peregrinação. A história bíblica é, toda
ela, um caminho, marcado por começos e recomeços; como sucedeu com Abraão; como
sucedeu com quantos na Galileia, dois mil anos atrás, se puseram a caminho para
seguir Jesus: «E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram
tudo e seguiram Jesus» (Lc 5,11). Desde então, a história do povo de Deus –
a história da Igreja – está sempre marcada por partidas, deslocações, mudanças.
Obviamente trata-se, não tanto de um caminho puramente geográfico, como
sobretudo simbólico: é um convite a descobrir o movimento do coração que,
paradoxalmente, tem necessidade de partir para poder permanecer, de mudar para
poder ser fiel.[8]
Tudo isto
se reveste duma valência particular no nosso tempo, porque estamos a viver,
não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época.
Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as mudanças já não são
lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de
viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar
entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência. Muitas
vezes acontece viver a mudança limitando-se a envergar um vestido novo e,
depois, permanecer como se era antes. Lembro-me da expressão enigmática que se
lê num famoso romance italiano: «Se queremos que tudo fique como está, é
preciso que tudo mude» (Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi de
Lampedusa).
A atitude
sadia é, antes, deixar-se questionar pelos desafios do tempo presente,
individuando-os com as virtudes do discernimento, da parresia e da hypomoné.
Então a mudança assumiria um aspeto completamente diferente: de elemento
complementar, de contexto ou de pretexto, de paisagem exterior, tornar-se-ia
cada vez mais humana e também mais cristã. Continuaria a ser uma mudança
externa, mas realizada a partir do próprio centro do homem, isto é, uma
conversão antropológica.[9]
Devemos
iniciar processos e não ocupar espaços: «Deus manifesta-Se numa
revelação histórica, no tempo. O tempo começa os processos, o espaço
cristaliza-os. Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. Não se
deve privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos,
dos processos. Devemos preocupar-nos mais com iniciar processos do que com
ocupar espaços. Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da
história. Isto leva a privilegiar as ações que geram novas dinâmicas. E
requer paciência, saber esperar».[10] A partir disto, somos solicitados a ler os sinais
dos tempos com os olhos da fé, para que a orientação desta mudança «desperte
novas e velhas questões com que é justo e necessário confrontar-se».[11]
Hoje,
abordando o tema da mudança que se baseia principalmente na fidelidade ao depositum
fidei e à Tradição, desejo voltar à implementação da reforma da Cúria
Romana, reiterando que esta reforma nunca teve a presunção de proceder como
se nada tivesse existido antes; pelo contrário, procurou-se valorizar quanto de
bom se fez na complexa história da Cúria. É forçoso valorizar a sua história
para construir um futuro que tenha bases sólidas, que tenha raízes e assim
possa ser fecundo. Fazer apelo à memória não significa ancorar-se na
autoconservação, mas recordar a vida e a vitalidade dum percurso em
desenvolvimento contínuo. A memória não é estática, mas dinâmica. Por
sua natureza, implica movimento. E a tradição não é estática, mas dinâmica,
como dizia aquele grande homem [G. Mahler, retomando uma metáfora de Jean
Jaurès]: a tradição é a garantia do futuro e não a custódia das cinzas.
Membros da Cúria Romana, no Vaticano, ouvem as palavras de PAPA FRANCISCO |
Queridos
irmãos e irmãs!
Nos
anteriores encontros de Natal, falei-vos dos critérios que inspiraram este trabalho
de reforma. Dei também a razão de ser de algumas implementações já realizadas,
quer definitivamente quer ad experimentum.[12] Em 2017, destaquei algumas novidades da organização
da Cúria, como, por exemplo, a Terceira Secção da Secretaria de Estado,
que está a comportar-se muito bem; ou as relações entre a Cúria Romana e as
Igrejas particulares, lembrando também a prática antiga das Visitas ad
limina Apostolorum; ou a estrutura de alguns Dicastérios, nomeadamente o
das Igrejas Orientais e os Dicastérios para o diálogo ecumênico e
inter-religioso e, de modo especial, com o Judaísmo.
No encontro
de hoje, quero deter-me sobre outros Dicastérios vistos a partir do coração da
reforma, ou seja, da primeira e mais importante tarefa da Igreja: a
evangelização. São Paulo VI afirmou: «Evangelizar constitui, de fato, a
graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe
para evangelizar».[13] Di-lo na Evangelii nuntiandi, que continua a
ser, ainda hoje, o documento pastoral mais importante do pós-Concílio, e atual.
Na realidade, o objetivo da reforma atual é que «os costumes, os estilos, os
horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal
proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autoconservação. A reforma
das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste
sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias»
(Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 27). E assim,
inspirando-se precisamente neste magistério dos Sucessores de Pedro desde o
Concílio Vaticano II até hoje, pensou-se em realçar a postura missionária,
dando o título de Praedicate evangelium à nova Constituição
Apostólica, em fase de elaboração, sobre a reforma da Cúria Romana.
Nesta
linha, pensei deter-me hoje nalguns Dicastérios da Cúria Romana cuja própria
denominação já sugere uma explícita referência a tudo isso, ou seja, a Congregação
para a Doutrina da Fé, a Congregação para a Evangelização dos Povos;
mas penso também no Dicastério para a Comunicação e no Dicastério
para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Na época em
que foram instituídas as primeiras duas Congregações citadas, era mais simples
distinguir entre duas vertentes bastante claras: duma parte, um mundo cristão
e, da outra, um mundo carecido ainda de ser evangelizado. Agora, esta situação
já não existe. Efetivamente as populações que ainda não receberam o anúncio
do Evangelho não vivem apenas nos Continentes não ocidentais, mas habitam
em toda parte, especialmente nas enormes concentrações urbanas, requerendo
também elas uma pastoral específica. Nas grandes cidades, precisamos de
outros «mapas», outros paradigmas, que nos ajudem a situar novamente os
nossos modos de pensar e as nossas atitudes: já não estamos, irmãos e irmãs,
na cristandade! Hoje, já não somos os únicos que produzem cultura, nem os
primeiros, nem os mais ouvidos.[14] Por isso precisamos duma mudança de mentalidade
pastoral, o que não significa passar para uma pastoral relativista. Já não
estamos num regime de cristandade, porque a fé – especialmente na
Europa, mas também em grande parte do Ocidente – já não constitui um
pressuposto óbvio da vida habitual; na verdade, muitas vezes é negada,
depreciada, marginalizada e ridicularizada. Destacou-o Bento XVI quando, ao
proclamar o Ano da Fé (2012), escreveu: «Enquanto, no passado, era
possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no
seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que
já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de
fé que atingiu muitas pessoas».[15] E, em 2010, instituíra o Pontifício Conselho para a
Promoção da Nova Evangelização, a fim de «promover uma renovada
evangelização nos países onde já ressoou o primeiro anúncio da fé e estão
presentes Igrejas de antiga fundação, mas que estão a passar por uma
progressiva secularização da sociedade e a viver uma espécie de “eclipse do
sentido de Deus”, que constituem um desafio a encontrar meios adequados para
voltar a propor a verdade perene do Evangelho de Cristo».[16] Uma vez ou
outra, falei disto com alguns de vós. Penso em cinco países que encheram o
mundo de missionários – disse-vos quais são – e hoje não têm os recursos
vocacionais necessários para prosseguir. Este é o mundo atual.
A bem da
verdade, não foi de forma improvisa que se chegou a esta percepção de que a
mudança de época coloca sérios interrogativos quanto à identidade da nossa fé.[17] Neste
contexto, há que inserir também a expressão «nova evangelização» adotada
por São João Paulo II na Encíclica Redemptoris missio: «A Igreja
deve, hoje, enfrentar outros desafios, lançando-se para novas fronteiras, quer
na primeira missão ad gentes, quer na nova evangelização dos povos que
já receberam o anúncio de Cristo» (n. 30). Há necessidade duma nova
evangelização, ou reevangelização (cf. n. 33).
Tudo isso
supõe, necessariamente, mudanças e novas focalizações de atenção também nos
Dicastérios acima mencionados, bem como em toda a Cúria.[18]
Gostaria de
tecer algumas considerações também sobre o recém-criado Dicastério para a
Comunicação. A perspectiva que se nos depara é a da mudança de época, pois
«largas faixas da humanidade vivem mergulhadas [no ambiente digital] de
maneira ordinária e contínua. Já não se trata apenas de “usar” instrumentos de
comunicação, mas de viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos
muito profundos na noção de tempo e espaço, na percepção de si mesmo, dos
outros e do mundo, na maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar
em relação com os outros. Uma abordagem da realidade, que tende a privilegiar a
imagem relativamente à escuta e à leitura, influencia o modo de aprender e o
desenvolvimento do sentido crítico» (Francisco, Exortação Apostólica Pós-sinodal
Christus vivit, 86).
Assim, foi
confiada ao Dicastério para a Comunicação a tarefa de incorporar numa nova
instituição os nove entes que, segundo várias modalidades e com diferentes
tarefas, se ocupavam anteriormente de comunicação: o Conselho Pontifício
para as Comunicações Sociais, a Sala de Imprensa da Santa Sé, a Tipografia
Vaticana, a Livraria Editora Vaticana, o jornal L’Osservatore Romano, a
Rádio Vaticana, o Centro Televisivo Vaticano, o Serviço da Internet Vaticana, o
Serviço Fotográfico. Entretanto, na linha do que ficou dito, esta unificação
não se propunha simplesmente ser um agrupamento de «coordenação», mas harmonizar
os diferentes componentes para produzir uma melhor oferta de serviços e ter
também uma linha editorial coerente.
A nova
cultura, marcada por fatores de convergência e presença multimídia, precisa
duma resposta adequada da Sé Apostólica no campo da comunicação. Hoje, em vez
de serviços diversificados, prevalece a forma multimídia, e isto marca também o
modo de os conceber, configurar e implementar. Tudo isto implica, juntamente
com a mudança cultural, uma conversão institucional e pessoal para passar
dum trabalho em compartimentos estanques – no melhor dos casos, tinham
alguma coordenação – a um trabalho intrinsecamente conexo, em sinergia.
Na bela Sala Clementina, no Vaticano, PAPA FRANCISCO dirige a palavra aos membros da Cúria Romana |
Queridos irmãos
e irmãs!
Muitas das
coisas ditas até agora valem também, em linha de princípio, para o Dicastério
para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Também este foi criado
recentemente para dar resposta às mudanças verificadas a nível global, implementando
a confluência de quatro Conselhos Pontifícios anteriores: Justiça e Paz, Cor
Unum, Pastoral dos Migrantes e Agentes Sanitários. A coerência das tarefas
confiadas a este Dicastério aparece sinteticamente lembrada pelo exórdio do
Motu proprio Humanam progressionem, que o instituiu: «Em todo o seu
ser e obrar, a Igreja está chamada a promover o desenvolvimento integral do
homem à luz do Evangelho. Este desenvolvimento tem lugar mediante o cuidado dos
bens incomensuráveis da justiça, da paz e da proteção da criação».
Concretiza-se no serviço aos mais frágeis e marginalizados, em particular aos
migrantes forçados, que representam neste momento um grito no deserto da nossa
humanidade. Por isso, a Igreja está chamada a lembrar a todos que não se trata
apenas de questões sociais ou migratórias, mas de pessoas humanas, de irmãos e
irmãs que hoje são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada.
Está chamada a testemunhar que, para Deus, ninguém é «estrangeiro» nem
«excluído». Está chamada a despertar consciências adormecidas na
indiferença perante a realidade do Mar Mediterrâneo que se tornou para muitos,
demasiados, um cemitério.
Gostaria de
chamar a atenção para a importância do caráter integral do desenvolvimento.
São Paulo VI afirmou que «o desenvolvimento não se reduz a um simples
crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer,
promover todos os homens e o homem todo» (Encíclica Populorum progressio,
14). Por outras palavras, a Igreja, enraizada na sua tradição de fé e apelando-se
nas últimas décadas ao magistério do Concílio Vaticano II, sempre afirmou a
grandeza da vocação de todos os seres humanos, que Deus criou à sua imagem e
semelhança a fim de formarem uma única família; e, ao mesmo tempo, procurou abraçar
o humano em todas as suas dimensões.
É
precisamente esta exigência de integralidade que hoje nos repropõe a humanidade
que nos une como filhos de um único Pai. «Em todo o seu ser e obrar, a
Igreja está chamada a promover o desenvolvimento integral do homem à luz do
Evangelho» (Motu proprio Humanam progressionem (17/VIII/2016),
exórdio). O Evangelho não cessa de trazer a Igreja à lógica da encarnação, a
Cristo que assumiu a nossa história, a história de cada um de nós. Isto
lembra-nos o Natal. Em suma, a humanidade é a chave com que ler a reforma. A
humanidade chama, interpela e provoca, isto é, chama a sair para fora e não
temer a mudança.
Não
esqueçamos que o Menino deitado no presépio tem o rosto dos nossos irmãos e
irmãs mais necessitados, dos pobres que «são os privilegiados deste
mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de
Deus no meio de nós» (Francisco, Carta Apostólica Admirabile signum,
01/XII/2019, 6).
PAPA FRANCISCO agradece o trabalho, por tantos anos, do Decano do Colégio Cardinalício, Card. Angelo Sodano (primeiro sentado, à direita) |
Queridos
irmãos e irmãs!
Trata-se de
grandes desafios e de equilíbrios necessários, muitas vezes não fáceis de
alcançar pelo simples facto de que, na tensão entre um passado glorioso e um
futuro criativo e em movimento, se encontra o presente no qual há pessoas que
necessariamente precisam de tempo para amadurecer; há circunstâncias históricas
a gerir na vida quotidiana, porque, durante a reforma, o mundo e os
acontecimentos não param; há questões jurídicas e institucionais que se hão de
resolver gradualmente, sem recurso a fórmulas mágicas nem a atalhos.
Há,
finalmente, a dimensão do tempo e existe o erro humano, que não é possível nem
correto ignorar, porque fazem parte da história de cada um. Ignorá-los
significa fazer as coisas, abstraindo da história dos homens. E ligada a este
difícil processo histórico, há sempre a tentação de se retirar para o
passado (mesmo usando novas formulações), porque mais tranquilizador, conhecido
e seguramente menos conflituoso. Mas também isto faz parte do processo e do
risco de iniciar mudanças significativas.[19]
Aqui é
necessário advertir contra a tentação de assumir a atitude da rigidez. Esta
nasce do medo da mudança e acaba por disseminar estacas e obstáculos pelo
terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio.
Lembremo-nos sempre de que, por trás de qualquer rigidez, jaz um desequilíbrio.
A rigidez e o desequilíbrio nutrem-se, mutuamente, num círculo vicioso. E,
hoje, esta tentação da rigidez é tão atual!
PAPA FRANCISCO discursa aos membros da Cúria Romana, por ocasião dos votos natalícios Sala Clementina (Vaticano), 21 de dezembro de 2019 |
Queridos
irmãos e irmãs!
A Cúria
Romana não é um corpo separado da realidade – embora o risco esteja sempre
presente –, mas deve ser concebida e vivida no hoje do caminho percorrido pelos
homens e as mulheres, na lógica da mudança de época. A Cúria Romana não é um
palácio ou um armário cheio de roupas que se hão de vestir para justificar uma
mudança. A Cúria Romana é um corpo vivo, e sê-lo-á tanto mais quanto mais
viver a integralidade do Evangelho.
O cardeal
Martini, na última entrevista dada poucos dias antes da sua morte, disse
palavras que nos devem interpelar: «A Igreja ficou atrasada duzentos anos.
Como é possível que não se alvorace? Temos medo? Medo, em vez de coragem? No
entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. (...)
Só o amor vence o cansaço».[20]
O Natal é a
festa do amor de Deus por nós. O amor divino que inspira, dirige e corrige a
mudança e vence o medo humano de deixar o «seguro» para se lançar no
«mistério».
Feliz Natal
para todos!
PAPA FRANCISCO recebe os cumprimentos, ao final, de seu discurso |
R E F E R Ê N C I A S
[1] Matta El Meskin, L’umanità di Dio
(Qiqajon-Bose, Magnano 2015), 170-171.
[2] Quis dives salvetur 37,
1-6.
[3] Sermão «A Encarnação, Mistério de Graça», in Parochial
and Plain Sermons, V, 7.
[4] Ibidem: o. c., V, 97-98.
[5] Meditazioni e preghiere, ed.
G. Velocci, Milão 2002,p. 75.
[6] Numa das suas orações, Newman afirmava: «Não há
nada de estável fora de Vós, ó meu Deus. Vós sois o centro e a vida de todos
aqueles que mudam, que confiam em Vós como seu Pai, que levantam os olhos para
Vós e que são felizes por se colocarem nas vossas mãos. Eu sei, meu Deus, que
devo mudar, se quiser ver o vosso rosto» (Ibid., p. 112).
[7] Assim a descreve Newman: «No momento da
conversão, não tive consciência de qualquer mudança, intelectual ou moral, que
pudesse ter ocorrido no meu espírito (…), parecia-me reentrar no porto, depois
duma navegação tempestuosa; e a este respeito a minha felicidade continuou
ininterruptamente até hoje» (Apologia pro vita sua, ed. A. Bosi, Turim
1988, 360; cf. J. Honoré, Gli aforismi di Newman, Livraria Editora
Vaticana, Cidade do Vaticano 2010, 167).
[8] J. M. Bergoglio, Mensagem quaresmal aos
sacerdotes e consagrados, 21/II/2007, in Nei tuoi occhi è la mia parola
(Milão 2016), p. 501.
[9] Veja-se Constituição Apotólica Veritatis
gaudium (27/XII/2017), 3: «Em última análise, trata-se de mudar o modelo de
desenvolvimento global e de redefinir o progresso: o problema é que não
dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade
de construir lideranças que tracem caminhos».
[10] Entrevista concedida ao P. Antônio Spadaro: La
Civiltà Cattolica (19/IX/2013), p. 468.
[11] Carta ao Povo de Deus que está em caminho na
Alemanha, 29/VI/2019.
[12] Cf. Discurso à Cúria, 22/XII/2016.
[13] Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi
(8/XII/1975), 14. São João Paulo II, por sua vez, escreveu que a evangelização
missionária «constitui o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e
à humanidade inteira, no mundo de hoje, que, apesar de conhecer realizações
maravilhosas, parece ter perdido o sentido último das coisas e da sua própria
existência» (Carta Encíclica Redemptoris missio [7/XII/1990], 2).
[14] Cf. Discurso aos participantes no Congresso
Internacional da Pastoral das Grandes Cidades, 27/XI/2014.
[15] Carta Apostólica sob forma de Motu proprio Porta
fidei (11/X/2011), 2.
[16] Bento XVI, Homilia (28/VI/2010); cf.
Carta Apostólica sob forma de Motu proprio Ubicumque et semper (17/X/2010).
[17] A mudança de época foi sentida na França
pelo cardeal Suhard (veja-se a sua carta pastoral Essor ou déclin de
l'Église, 1947) e de igual modo por J. B. Montini, quando era Arcebispo de
Milão: questionava-se, ele também, se a Itália fosse ainda um país católico
(cf. Intervenção na VIII Semana Nacional de Atualização Pastoral,
22/IX/1958, in Discorsi e Scritti milanesi 1954-1963, vol. II,
Brescia-Roma 1997, 2328).
[18] Há cerca de cinquenta anos, São Paulo VI, ao
apresentar o novo Missal Romano aos fiéis, lembrou a equação entre a lei da
oração (lex orandi) e a lei da fé (lex credendi) e descreveu o
Missal como «demonstração de fidelidade e vitalidade». Ao concluir a sua
reflexão, afirmou: «Por isso não falamos de “nova Missa”, mas de “nova época”
da vida da Igreja» (Audiência Geral, 19/XI/1969). E, de forma análoga,
se poderia dizer no nosso caso: não uma nova Cúria Romana, mas uma nova época.
[19] A Exortação Apostólica Evangelii gaudium
enuncia a regra de «privilegiar as ações que geram novos dinamismos na
sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até
frutificarem em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com
convicções claras e tenazes» (n. 223).
[20] Entrevista dada a Jorge Sporschill SJ e
Frederica Radice Fossati Confalonieri, in Corriere della Sera
(01/IX/2012).
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