2º Domingo da Quaresma – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 17,1-9
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
A morte não nos destrói, mas nos capacita
No Evangelho de Mateus há quatro montanhas, uma em relação à outra:
a) À montanha da ressurreição corresponde a montanha
das bem-aventuranças, ou seja, praticando a mensagem de Jesus,
experimenta-se o Cristo ressuscitado e a vida indestrutível;
b) o monte da transfiguração corresponde ao monte das tentações. A condição divina, segundo o evangelista, não se obtém pela adoração do poder, mas pelo dom de si. É o que expressa o evangelista no capítulo 17 de seu evangelho. Vamos ler.
Mateus
17,1: «Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e se
irmão João e os fez subir a um lugar retirado, numa alta montanha.»
“Seis dias depois”, a data é preciosa, é importante: o sexto dia, na tradição bíblica, é o dia da criação do homem (cf. Gn 1,26-27.31), e é também o dia em que Deus, o Senhor, manifestou a sua glória no Sinai (cf. Ex 24,1.16). Em Jesus a glória de Deus se manifesta na plenitude de sua criação. “Jesus levou consigo”, Jesus leva consigo três discípulos, os mais difíceis, aqueles que mais tarde terá como companheiros no momento da sua paixão. O primeiro, Simão, é apresentado com o seu apelido negativo, que significa “o teimoso”, isto é, Pedro. “Tiago e seu irmão João, e os fez subir a um lugar retirado”, essa é uma preciosa indicação que o evangelista nos dá: sempre que Mateus usa a fórmula “à parte/retirado”, é para indicar incompreensão ou hostilidade, obtusidade para com Jesus e seu ensinamento, então já sabemos como terminará essa passagem. “Numa alta montanha”, aqui, esta montanha é a resposta à montanha muito alta, para onde o diabo levou Jesus (cf. Mt 4,8), oferecendo-lhe todos os reinos do mundo, na condição de adorar o poder, ou seja, a condição divina é obtida através do poder. Jesus não concorda, Jesus mostra ao seu tentador, e lembramos que foi Pedro, neste evangelho, quem recebeu de Jesus o epíteto satanás, o seu diabo tentador, (que) a condição divina não se obtém pelo poder, mas pelo dom do amor próprio.
Mateus
17,2: «E foi
transfigurado diante deles: seu rosto brilhou como o sol e suas vestes ficaram
brancas como a luz.»
“E foi transfigurado”, literalmente sofreu uma metamorfose, “diante deles”, o evangelista mostra qual é a condição do homem que passa pela morte. Pedro, na passagem anterior (cf. Mt 16,21-23), havia se voltado contra Jesus porque não aceitava a ideia de um messias que iria morrer. Bem, Jesus mostra a eles que a morte não é um fim, mas uma plenitude de vida, a morte não destrói a pessoa, mas a capacita. “Seu rosto brilhou como o sol”, o sol é a imagem da plenitude da condição divina, “e suas vestes ficaram brancas como a luz”, é a imagem da condição divina, como quando Jesus dirá que os justos brilharão como o sol no reino do Pai, e essas vestes brancas são as da ressurreição. Assim, Jesus mostra que, ao passar pela morte, sua figura não só não foi destruída, mas fortalecida.
Mateus
17,3: «Nisso
apareceram-lhes Moisés e Elias, falando com ele.»
Moisés é o grande legislador e Elias é o grande profeta que, pelo uso da violência, impôs a observância da lei divina. “Falando com ele”, esse esclarecimento é importante. Elias e Moisés representam aquilo que chamamos de o Antigo Testamento, isto é, a lei e os profetas. Pois bem, eles nada têm a dizer à comunidade de Jesus, conversam com Jesus; como são os personagens que conversaram com Deus, agora conversam com Jesus.
Mateus
17,4: «Pedro, então, tomou a palavra
e disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três
tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”.»
E aqui está a reviravolta! “Pedro” é apresentado, apenas, com
o apelido negativo. O que Pedro pretende fazer é importante. Pedro, mais uma
vez neste evangelho, continua a ação de satanás, de diabo tentador de
Jesus, e qual é a tentação? Segundo a tradição, o messias apareceria
repentinamente durante a festa mais importante de Israel. Das grandes festas de
Israel, havia uma, que se chamava simplesmente “a festa”, não havia
necessidade de indicá-la, de nomeá-la. Era a festa por excelência, era a Festa
das Tendas: entre setembro e outubro, durante uma semana, os judeus viviam
em tendas, em memória de sua libertação da escravidão egípcia. Nessa festa,
que comemorava a libertação, apareceria o novo libertador.
“Farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”, no centro, para Pedro, não está Jesus. Quando há três personagens, o mais importante está sempre no centro. Aqui, não é o caso de Jesus! Para Pedro não é Jesus o personagem mais importante, mas é Moisés. Qual é a tentação de Pedro a Jesus? Eis o messias que eu quero: um messias que cumpra a lei de Moisés, com o zelo profético e violento do profeta Elias.
Mateus
17,5: «Ainda
estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sobra. E de dentro
da nuvem, uma voz dizia: “Este é meu filho amado, no qual está o meu agrado.
Escutai-o!”»
Aparentemente,
Deus não concorda com o que Pedro diz! “Quando uma nuvem luminosa”,
imagem que, no livro do Êxodo, indica a presença libertadora de Deus; “os
cobriu com sua sombra. E de dentro da nuvem, uma voz dizia”, claro que é a
voz de Deus; “este é meu filho”. Filho não significa apenas
aquele que nasceu, mas aquele que se assemelha ao pai no comportamento,
“o amado”, ou seja, herdeiro de tudo. “No qual está o meu
agrado”, as mesmas palavras que Deus pronunciou sobre Jesus, no momento do
seu batismo (cf. Mt 3,17), e depois um verbo imperativo: “Escutai-o!”,
mais exatamente “a ele escutai”. Deus está dizendo:
“Não deveis ouvir nem Moisés nem Elias, mas é em Jesus que está a plenitude da vontade divina, da revelação divina, ele deve ser ouvido!”
Mateus
17,6: «Ao
ouvirem isso, os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram com muito
medo.»
Esta intervenção divina causa desconforto e desolação, e um sinal de derrota, “ao ouvirem isso, os discípulos caíram com o rosto por terra”, é uma imagem que indica o sentimento de derrota, de destruição, “e ficaram com muito medo”, por quê? O messias que seguem em Jesus não é o que esperavam, o messias vitorioso, o messias que imporá a lei, o messias violento, mas um messias completamente diferente e, portanto, é uma derrota dos seus sonhos de ambição, de seus desejos de supremacia.
Mateus
17,7-8: «Jesus
então se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos, não tenhais medo”. Os
discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser Jesus.»
Jesus deve tocá-los exatamente como toca os enfermos, como toca os mortos! Mas a reação dos discípulos é mais uma vez negativa: “ergueram os olhos e não viram mais ninguém”, ainda procuram as referências da tradição do passado, ainda procuram Moisés, a lei que dá segurança, eles ainda estão procurando o profeta Elias, que, com seu zelo, faz cumprir esta lei, não há mais ninguém. Não há Moisés nem Elias e, quase com relutância, o evangelista escreve: “não viram mais ninguém, a não ser Jesus”. Jesus sozinho não é suficiente para eles, eles querem Jesus, segundo a linha de Moisés e Elias.
Mateus
17,9: «Ao
descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não faleis a ninguém desta visão,
até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos”.»
Então Jesus se impõe! Já experimentaram qual é a condição do homem que passa pela morte, mas não nos iludamos, ainda não viram que tipo de morte Jesus enfrentará, a morte que a Bíblia reservou para os malditos de Deus, uma morte infame, a morte de cruz. Então, para evitar sentimentos de entusiasmo equivocados, não contem nada a ninguém, até que eu ressuscite, ou seja, primeiro eu tenho que passar pela morte, e desse tipo de morte.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão PessoalPe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Deus
nos ensinou a não aceitar facilidades, mas a encontrar vida na dureza da cruz.»
(Dom Hélder Pessoa Câmara: 1909-1999 — arcebispo de Olinda e Recife, PE)
Diga-me em qual deus você acredita e eu lhe direi qual é a sua prática religiosa: autêntica ou falsa! Podemos parafrasear um conhecido dito popular com esta afirmação que acabamos de fazer! De fato, tudo se resume em qual imagem de Deus fazemos para nós mesmos: o Deus de Jesus ou o deus concebido segundo a imagem dos seres humanos (que tem raiva, guarda rancor, castiga, envia desgraças, toma partido de uma nação etc.).
Não por acaso, o
evangelista coloca a cena da transfiguração em direto paralelo com a cena
da entrega das tábuas da Lei a Moisés, no Sinai (cf. Ex 24 e 34). Afinal,
no Sinai se revela um Deus tremendo, que ameaça, aterroriza e impõe normas e
decretos. Enquanto que, no Tabor (monte da transfiguração, segundo a tradição
popular), se manifesta um Deus que:
* distancia-se de
Moisés e Elias, dois projetos religiosos que não aprova!
* Anula o medo.
* Traz a paz e fala de
uma vida que não tem fim, ou seja, da ressurreição!
Como sintetiza,
perfeitamente, o teólogo espanhol José María Castillo:
“O Deus do Sinai é o Deus das imposições e das ameaças. O Deus da transfiguração é o Deus da proximidade, da vida e da esperança”.
Os discípulos Pedro, Tiago e João representam os supostos seguidores de Jesus que “não veem” nem “compreendem” o projeto de Reino de Deus trazido pelo Cristo! Aliás, Jesus não é o Cristo (= messias) que eles desejavam! Eles representam aquelas pessoas que se apegam ao passado, com a pretensão de estarem sendo mais “fiéis” à verdadeira religião! Querem reviver uma prática religiosa plena de rituais, cerimônias, pompas e circunstâncias, mas vazia do principal: amor, bondade e misericórdia para com todos, especialmente, com os mais fracos e pobres! Por isso, dependendo da imagem de Deus, da imagem de Messias que trago comigo, será a minha vivência cotidiana:
a) primeira opção:
voltada para a promoção da vida plena para todos os meus irmãos e irmãs, para a
prática da justiça e da misericórdia, envolvida pelo amor e perdão, ocupada na
defesa e promoção dos mais humildes e frágeis ou
b) segunda opção: voltada para mim mesmo(a), para o cumprimento rigoroso de regras moralistas e ritualistas, mas insensível à dor, às necessidades e às realidades dos queridos de Deus, isto é, dos pobres, dos marginalizados, dos doentes, dos abandonados, dos infelizes.
Por isso, cada pessoa que crê vive segundo o Deus no qual diz acreditar! Pelo visto, o Deus bíblico, o Deus de Jesus, o Deus verdadeiro não é tão popular como se imagina! Predomina, bem mais, o Deus light, o Deus “leve”, que não solicita nem exige compromisso de vida para com os necessitados, mas, apenas, quer um fiel frequentador e consumidor de sacramentos! Como se o AMOR, ou seja, a CARIDADE não fosse o determinante em nossa salvação!
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Ó Senhor, de coração eu vos dou graças,
/ porque ouvistes as palavras dos meus lábios! / Perante os vossos anjos vou
cantar-vos / e ante o vosso templo vou prostrar-me. / Eu agradeço vosso amor,
vossa verdade, / porque fizestes muito mais que prometestes; / naquele dia em
que gritei, vós me escutastes / e aumentastes o vigor da minha alma. / estendereis
o vosso braço em meu auxílio / e havereis de me salvar com vossa destra. / Completai
em mim a obra começada; / ó Senhor, vossa bondade é para sempre! / Eu vos peço:
não deixeis inacabada / esta obra que fizeram vossas mãos!»
(Sl 137[138], 1-2a.2bc-3.7c-8)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – II Domenica della Quaresima – Anno A – 8 marzo 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 01/03/2023).
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