Estejamos atentos
Principal mensagem do papa Francisco
The Washington Post – Estados Unidos
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PAPA FRANCISCO |
Pontífice
não tenta propor novo sistema político ou econômico, mas destaca que ser humano
deve ser bom e generoso
Não sou cristão. Mas, como fui criado na Índia, vivi por muito tempo em um ambiente religioso. Dos 5 aos 18 anos estudei em escolas católicas e anglicanas, onde costumávamos cantar hinos, rezar e estudar as Escrituras.
As palavras e as ações do papa Francisco me lembraram que
eu, embora não siga nenhuma destas religiões, sempre admirei profundamente o
cristianismo, e sua mensagem simples e poderosa: “Sede
bons para com os pobres”.
Quando cheguei aos Estados Unidos, nos anos 1980, lembro que fiquei surpreso ao ver o que os “valores cristãos” tinham passado a significar na cultura e na política americana, onde se sucediam os debates acalorados sobre o aborto, a abstinência, a contracepção e os gays.
Nos 13 anos nos quais me dediquei às minhas leituras,
orações e estudos da Bíblia, não lembro de ter visto muito sobre esses
assuntos. Como Garry Wills destaca em seu livro
mais recente, O Futuro da Igreja Católica com o Papa Francisco:
“Muitos dos mais destacados e contestados princípios defendidos
pelas autoridades católicas (a maioria dos quais diz respeito ao sexo) não têm
nada a ver com o Evangelho”.
A Igreja chegou a tais posições mediante certas interpretações
da “lei natural”, que não têm como base o conteúdo da Bíblia. Mas como
estas justificativas lhes pareciam fracas, o clero conservador procurou respaldá-las
com a sanção bíblica. Portanto, a contracepção foi condenada pelo papa Pio XI
com base numa interpretação tortuosa de algumas linhas do Gênesis, onde se
afirma que Onan “desperdiçou sua semente no chão”, pois isso envolve a
ejaculação sem o propósito da concepção.
A proibição do ingresso das mulheres no clero católico lança
mão de um estratagema semelhante. Quando os anglicanos decidiram ordenar
mulheres sacerdotes, em 1976, o papa Paulo VI apresentou uma razão teológica
para não seguirem tal caminho. As mulheres não poderiam ser sacerdotes porque
Jesus nunca ordenou uma mulher. “É verdade”, escreveu Wills. “Mas tampouco
ordenou homens. Não há sacerdotes (além dos judeus) nos quatro Evangelhos.
Pedro e Paulo e seus seguidores não se definem sacerdotes.”
Wills refere-se ainda ao aborto, ao qual alguns católicos
consideram fundamental opor-se. “É estranho, pois esta questão não é mencionada
em nenhuma parte do Antigo Testamento, nem do Novo, nem nos credos primitivos.
Entretanto, algumas pessoas estão convencidas de que Deus deve odiar um mal tão
grande e deve ter expresso este ódio em alguma parte da sua Bíblia”, escreveu.
Na realidade, destaca, a proibição tem como base uma complexa extrapolação de
uma vaga afirmação contida em um versículo do Salmo 139,13.
GARRY WILLS |
Se vocês querem compreender a mensagem principal de Jesus
Cristo, não precisam buscar pesquisar as Escrituras. Ele a menciona
repetidamente: “Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus”.
Jesus nos ensina especificamente como devemos nos comportar em relação aos
pobres: “Trata-os como o Cristo os trataria”. “Quando você der um
banquete, não convide os ricos e poderosos, na esperança de que eles retribuam
o favor e o recompensem. Ao contrário, convide os despossuídos e será recompensado
por Deus”, disse Jesus.
Vivemos em uma era meritocrática e acreditamos que as pessoas
bem-sucedidas são mais admiráveis, em certo sentido, do que todas as outras.
Mas a Bíblia observa que:
“a carreira não é dos mais rápidos, nem a batalha dos fortes, nem o
pão dos prudentes, mas o tempo e a oportunidade ocorrem a todos”.
No Reino dos Céus, adverte: “Os últimos serão os
primeiros, e os primeiros, os últimos”. Em outras palavras, sejamos
agradecidos por nosso sucesso, mas não pensemos que isso nos torna superiores
em algum sentido profundo.
Os comentadores usaram os discursos de Francisco e seus
ditados e o atacaram de muitas maneiras ou qualificaram de marxista, de
sindicalista e até de ambientalista radical. Não acho que o papa esteja
propondo um sistema político ou econômico alternativo. Ele simplesmente
lembra a cada um de nós que temos a obrigação moral de sermos bondosos e
generosos com os pobres e os despossuídos, principalmente se formos
afortunados.
Se tivermos algum problema com esta mensagem, é porque temos um
problema não com o papa Francisco, mas, na realidade, com Jesus Cristo.
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