''O Concílio Vaticano II nos fez livres''
Robert Blair Kaiser *
National Catholic Reporter
07-08-2012
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Robert Blair Kaiser |
O Vaticano II nos deu uma nova visão sobre a Igreja. É a nossa Igreja, não a Igreja do papa, ou a Igreja dos bispos, ou a Igreja de um padre. Ele nos deu uma nova visão sobre o nosso lugar nela. Podemos pensar, podemos falar, podemos agir como seguidores de Jesus em um mundo que precisa de nós.
Um editor observou que muitos eventos deste ano que comemoram o 50º aniversário do Concílio Vaticano II "parecem velórios, lamentando e sofrendo pela oportunidade perdida".
Ao invés de retorcer nossas mãos pensando no que a Igreja se tornou com papas seguidos que agiram de uma forma arrogante e autoritária, deveríamos celebrar o que o Vaticano II já fez por nós.
Ele nos deu uma nova visão sobre nós mesmos. Ele nos fez mais livres, mais humanos e mais ao serviço de um mundo que Jesus amou.
Ele nos deu uma nova visão sobre a Igreja. É a nossa Igreja, não a Igreja do papa, ou a Igreja dos bispos, ou a Igreja de um padre.
Ele nos deu uma nova visão sobre o nosso lugar nela. Podemos pensar, podemos falar, podemos agir como seguidores de Jesus em um mundo que precisa de nós.
Ao invés de choramingar por aquilo que o papai não nos deixou fazer, nós mesmos podemos colocar o Concílio em ação.
As irmãs norte-americanas nos mostraram como.
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Ir. Theresa Kane |
O papa colocou-a no chão com uma lição programada de história que não era história. Ele disse que as irmãs norte-americanas deveriam se moldar segundo a Santíssima Virgem Maria, "que nunca fez parte da hierarquia, mas tornou possível toda a hierarquia, porque deu ao mundo o pastor e o bispo das nossas almas".
O papa não deixaria Kane lhe dar a resposta que ele merecia – que, no tempo de Maria, não havia algo como a hierarquia, e que Jesus não era um bispo. Ele não era nem mesmo um padre.
Ao invés de baixar a cabeça, Kane e muitas irmãs norte-americanas seguiram em frente e continuaram fazendo o que o Concílio lhes tinha dito para fazer: "Atualizem-se, renovem-se, voltem para as suas fontes". Elas se tornaram mais livres, mais humanas e mais ao serviço do mundo.
Elas sempre foram mestras. Agora, elas se tornaram estudiosas e teólogas, administradoras de hospitais, advogadas de assistência jurídica, assistentes sociais e mártires em países como El Salvador. Elas assumiram questões – a paz, a injustiça econômica, o racismo, os direitos das mulheres, as relações inter-religiosas e o ambientalismo – que as colocaram em relações colegiais de trabalho com os bispos que também pressionavam por essas causas.
Agora, o Papa Bento XVI as humilhou por fazerem isso. Foi dada muita ênfase, ele afirmou, em alimentar os famintos, vestir os nus e encontrar abrigo para os desabrigados. Por que as irmãs não ajudam os bispos a se pronunciarem sobre questões centrais da fé, como o controle de natalidade e o aborto?
Logo veremos a resposta das irmãs a essa questão. Elas dirão que o papa não pode forçá-las a falar absurdos, e ele não pode impedi-las de alimentar os famintos, vestir os nus e encontrar abrigo para os desabrigados.
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John W. O'Malley - jesuíta |
"Dos mandatos aos convites, das leis aos ideais, da definição ao mistério, das ameaças à persuasão, da coerção à consciência, do monólogo ao diálogo, do decreto ao serviço, do retraído ao integrado, do vertical ao horizontal, da exclusão à inclusão, da hostilidade à amizade, da rivalidade à parceria, da suspeita à confiança, do estático ao contínuo, da aceitação passiva ao engajamento ativo, do criticismo à apreciação, do prescritivo ao principiado, da modificação de comportamentos à apropriação interior."
Podemos colocar o espírito do Concílio em ação na nossa própria pequena parte do universo. Nós não precisamos confiscar a liderança moral dos nossos bispos. Eles já a perderam junto a 90% de nós por terem acobertado os seus sacerdotes transviados.
Com o poder de convicção dos nossos argumentos, podemos marginalizar ainda mais os nossos bispos todas as vezes em que eles desinformam o povo e pressionam pela "posição católica" sobre questões morais que estão além da sua competência. (Os bispos tentam nos confundir dizendo-nos que as questões morais e políticas são "questões de fé". A razoabilidade do planejamento familiar é uma questão moral, e, portanto, algo a que chegamos pela razão, não pela fé. A ordenação de mulheres – bem, se entendermos política como uma resposta à questão: "Quem manda aqui?" –, então, é uma questão política.)
Podemos continuar buscando a justiça com os nossos irmãos e irmãs por toda a paisagem religiosa (e dividir o pão com eles, também).
Podemos continuar aplaudindo os nossos estudiosos e teólogos quando eles nos dão uma ideia do Evangelho com palavras que nós, nossos filhos e netos podem entender.
Quando nos encontrarmos em paróquias de pensamento retrógrado, podemos começar as nossas próprias pequenas comunidades eucarísticas de fé. Quando um número suficiente dentre nós começarmos a fazer isso, os bispos vão começar a entender. Eles precisam mais de nós do que nós precisamos deles.
Tradução de Moisés Sbardelotto.
* Robert Blair Kaiser é jornalista norte-americano, cobriu o Concílio Vaticano II para a revista Time e é autor de cinco livros sobre o Concílio.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sábado, 11 de agosto de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512313-o-concilio-vaticano-ii-nos-fez-livres
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