O ''golpe'' do Papa Bento XVI
Andrea Tornielli
Vatican Insider
24-10-2012
Pela primeira vez, o pontífice anuncia um consistório sem nem mesmo um único nome italiano na lista, curial ou diocesano que seja. Pela primeira vez, o prefeito de uma das mais importantes congregações vaticanas, como a da Doutrina da Fé, antigamente chamada de "la Suprema", pula um turno e não recebe o barrete vermelho.
Uma primeira evidência, percorrendo a lista dos novos cardeais que o Papa Ratzinger leu no fim da audiência geral de hoje, é que o consistório do próximo novembro aparece como o prolongamento necessário daquele que foi celebrado recém em fevereiro passado e que havia provocado notáveis reações críticas pela presença maciça de púrpuras curiais e italianas, diversas das quais notoriamente próximas do secretário de Estado, Tarcisio Bertone. Na lista de fevereiro, não apareciam africanos e as Igrejas particulares, e os bispos dos territórios de fronteira pareciam não ter sido considerados, quando, ao invés, haviam sido levados em consideração prelados de rápidas carreiras curiais.
Com o anúncio dessa quarta-feira, Bento XVI quer equilibrar as duas últimas criações cardinalícias, e é significativo que tenha decidido não incluir italianos nem europeus. Não é difícil compreender as razões que guiaram o papa na escolha dos nomes:
Bechara Boutros Rai,
patriarca de Antioquia, dos maronitas (Líbano) recém-acolheu Ratzinger no país dos cedros, e a púrpura é um sinal de proximidade aos cristãos de todo o Oriente Médio neste momento tão difícil da sua história.
Baselios Cleemis Thottunkal,
arcebispo-maior de Trivandrum, dos siro-malancareses (Índia),
Luis Antonio Tagle,
o jovem arcebispo de Manila (Filipinas),
indicam a atenção ao grande continente asiático.
John Olorunfermi Onaiyekan,
arcebispo de Abuja (Nigéria), é uma púrpura doada à África, mas também a uma Igreja mártir que vive sob a ameaça dos ataques terroristas.
Rubén Salazar Gómez,
arcebispo de Bogotá (Colômbia) é o barrete destinado à América Latina.
Todos os neocardeais têm antecessores com mais de 80 anos, e, portanto, é respeitada a regra não escrita de fazer esperar que os titulares de dioceses com o emérito ainda votante em caso de conclave.
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JAMES MICHAEL HARVEY |
A nomeação de Harvey é a única que pode ser considerada, de algum modo, relacionada com os recentes acontecimentos do Vatileaks que abalaram o entorno papal mais próximo. Justamente o atual prefeito da Casa Pontifícia havia sido determinante na escolha de Paolo Gabriele quando se tratou de escolher o substituto do ajudante de quarto Angelo Gugel. É preciso dizer, no entanto, que Harvey deixa o Palácio Apostólico, mas não Roma e sobretudo que ele se despede da Prefeitura da Casa Pontifícia com todas as honras e com o barrete vermelho. O que significa que, mesmo querendo reorganizar o seu entorno, o papa continua tendo confiança em Harvey, que, além disso, não está envolvido na investigação que levou à condenação de Paolo Gabriele pelo furto das cartas papais depois divulgadas.
Será interessante ver quem irá tomar o posto do prelado norte-americano na Prefeitura: o seu vice, o padre Leonardo Sapienza, foi recém-promovido a esse cargo, enquanto, no passado, havia sido pensada a hipótese da designação do secretário particular do papa, o padre Georg Gänswein, mesmo que a circunstância foi considerada pouco provável.
Fonte: dom.total - Notícias/Religião - Quinta-feira, 25 de outubro de 2012 - Internet: http://www.domtotal.com/noticias/523055
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