DEPRESSÃO, UMA LUZ!
Natalia
Cuminale
Estudo mostra ótimos resultados com o uso da cetamina
em idosos afundados no sofrimento mental. A boa-nova: o composto está prestes a
chegar às farmácias
“Se
você conhece alguém que esteja deprimido, por favor, nunca lhe pergunte o
porquê. A depressão não é uma resposta simples para uma situação ruim. A
depressão é apenas como o clima.” A bela definição é do ator e cineasta
britânico Stephen Fry, que conhece
muito bem o terreno no qual pisa, de sol e chuva, imensa claridade e
devastadora escuridão. A depressão
atinge 4,4% da população mundial, ou 330 milhões de pessoas. No Brasil, a incidência da doença chega a 6%, o equivalente a 12 milhões de
mulheres e homens — elas em número superior. Na semana passada, um estudo
publicado na revista científica American
Journal of Geriatric Psychiatry trouxe otimismo para o tratamento da depressão em idosos, um público vulnerável ao
transtorno. A pesquisa mostra que o uso da CETAMINA — desenvolvida a partir de uma
substância anestésica adotada na década de 1960 para atender os soldados
americanos feridos no Vietnã — é eficaz
para os doentes com mais de 60 anos que não melhoram com nenhum outro tipo de
tratamento. Dos dezesseis participantes, onze relataram melhora.
Embora
o levantamento tenha contado com um pequeno grupo, os resultados revelam um enorme potencial. Já haviam sido testados
todos os outros medicamentos disponíveis no mercado, mas nenhum se mostrou
capaz de resgatar os pacientes do afogamento psicológico. A depressão é uma doença complexa, e suas origens biológicas ainda não
foram totalmente desvendadas. Fatores genéticos, ambientais e psicológicos
a tornam ainda mais obscura. Nas últimas
três décadas, não houve grandes avanços na busca de medicamentos. Agora que
os cientistas têm uma imagem mais matizada do que é a doença — não algo
monolítico, mas provavelmente a soma de dezenas de distúrbios —, começa-se a
entender o que funciona para cada caso específico. E, talvez esse seja o grande
passo, despontam remédios que agem com mais presteza para tirar o depressivo da
letargia — testes com a cetamina
comprovaram que o medicamento produz efeito rápido. Os atuais
antidepressivos exigem até quatro semanas para promover algum conforto.
A
versão para aplicação nasal da cetamina ainda não foi aprovada pela FDA, mas a
agência americana que regula os medicamentos classificou o produto como
“terapia inovadora”, um atalho para o sim definitivo. É possível que chegue ao mercado já no ano que vem. Atualmente, há três formulações: líquida
(injetável), sublingual e de spray nasal, esta que caminha para
chegar às prateleiras. Os efeitos colaterais são poucos. Cerca de 15% dos
pacientes apresentaram efeitos dissociativos, leve distorção de tempo e espaço,
que para depois de quinze minutos.
A cetamina regula as taxas
cerebrais de glutamato, neurotransmissor com ação excitatória sobre o cérebro. Nos depressivos, o
glutamato dificulta as conexões entre um neurônio e outro, as chamadas sinapses
— essenciais para o bom funcionamento cerebral. Diz o psiquiatra Rodrigo
Machado Vieira, professor titular de psiquiatria da Universidade do Texas, nos
Estados Unidos: “Era uma grande aposta que já está se tornando realidade para a
depressão”.
Por enquanto, o uso da
cetamina deverá ser indicado para pacientes com depressão severa, que não
respondem aos tratamentos que existem atualmente, ou para aqueles com risco
iminente de suicídio. Um estudo divulgado no ano passado mostrou que 36% dos pacientes
frearam a perspectiva de se matar quatro horas depois de inalar a substância, e
49% experimentaram o mesmo efeito 24 horas depois de receber a mesma dose. São resultados excepcionais, nunca
alcançados em outros tratamentos.
A
chegada da cetamina ao mercado para oferecer alívio às vítimas de depressão
aguda será a volta triunfal de uma substância que, nos anos 1990, era usada,
numa versão em pó, como um alucinógeno em baladas noturnas de gente que virava
a noite dançando de um lado para o outro.
ALGUNS NÚMEROS...
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