Qual caminho para o catolicismo???
Nesta época secular livro mostra
um caminho para o catolicismo
Michael Sean
Winters
National
Catholic Reporter
09-08-2017
Igreja, fé, futuro: o que enfrentamos, o que podemos
fazer
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Pe. LOUIS J. CAMELI |
Alguns
bispos não param de reclamar sobre a onda
de secularismo que está envolvendo os alicerces da Igreja e erodindo a fé
católica. Alguns católicos progressistas culpam a própria Igreja pela situação
e se recusam a acreditar que ela tenha
inimigos reais. Algumas dioceses estão envolvidas no doloroso processo de reorganização das paróquias,
enquanto outras não dão conta da construção novas igrejas e até escolas. Há um
coro alto e bem financiado contra o Papa Francisco, mas quem frequenta a Igreja
ouve sua mensagem e o ama ainda mais por isso.
Como
classificar todas essas forças aparentemente centrífugas? Como avaliar a situação da Igreja neste meio cultural e as opções de
evangelização? Como canalizar os vários e variados impulsos do Espírito
Santo em direção ao renascimento da fé católica?
Essas
são grandes questões, e o Pe. Louis Cameli,
da Arquidiocese de Chicago, não promete fornecer todas as respostas em seu novo
livro Church, Faith, Future: What We Face, What We Can Do (Igreja, fé, futuro: o que enfrentamos, o
que podemos fazer, sem versão em português). O que ele consegue, em um volume
relativamente pequeno de 104 páginas, é dar um enquadramento claro e bastante
persuasivo, bem como uma primeira tentativa de fornecer um GPS eclesiástico que
mostre a direção a seguir. Não é uma conquista pequena, e o livro deve chegar
às mãos de todo responsável pelo planejamento pastoral, talvez até como objeto
de reflexão em alguma convenção presbiteral ou congresso leigo.
Ele
começa com uma revisão da literatura para responder a questão “O que podemos esperar?”, a partir de A Era Secular, de Charles Taylor. Faz dez anos que esse livro foi lançado. Naquela
época, todo mundo concluiu que Taylor tinha feito um ótimo trabalho. Acho que
seria melhor dizer que fez em partes. Atualmente,
vivemos uma era secular, mas suspeito que havia mais secularismo em outras
épocas do que geralmente admitimos. Considerando Chartres, o grande
monumento à Era da Fé, acho que alguns pedreiros que construíram essa
obra-prima estavam apenas precisando de um emprego e que algumas pessoas que
iam até lá para adorar após sua construção eram mais supersticiosas do que
religiosas. Pelo menos Taylor esboçou o secularismo como algo que se
desenvolveu ao longo dos séculos, e não quando Barack Obama fez o juramento.
Ainda assim, fiquei preocupado por ter começado por Taylor.
Minha
preocupação estava deslocada. Cameli ressalta que, mesmo nas “terríveis
reviravoltas” da secularização, como no século XX, nada disso “levou a Igreja a
condenar o processo. Na verdade, seu ensino autoritário apoia as formas boas e
saudáveis de secularização”. A opção por
não estabelecer fronteiras rígidas, e ainda menos de separar o joio do trigo
precipitadamente, é uma razão fundamental para que sua mente seja tão fértil.
Muitos comentaristas clericais estão imersos na escuridão e na desgraça, mas não
Cameli. Duas páginas depois de discutir a secularização, ele escreve:
«Muitos de nossos contemporâneos imaginam - e isso
provavelmente também se aplica a uma parcela considerável de fiéis - que a
Igreja é um reservatório, um lugar de espera e uma instituição essencialmente
conservadora».
«Imaginam que a Igreja permanece exclusivamente focada na
manutenção de doutrinas, tradições e práticas, e não em mudar o mundo. Essa
visão, no entanto, representa uma distorção básica da identidade dos fiéis e da
Igreja. Se ela se mantiver fiel a si mesma e caminhar em direção ao futuro,
será um agente e instrumento de mudança». Sem a «Opção
Bento».
Cameli
volta-se ao trabalho de James Davison
Hunter sobre como a cultura muda e como a religião e a modernidade
interagem. Entre outras coisas, Cameli considera relevante seu argumento de que
o ressentimento demonstrado por muitos cristãos diante da cultura secular dominante resulta em “uma incapacidade de oferecer alternativas construtivas e criativas ao
que a cultura dominante atual oferece”. No entanto, quero saber mais sobre
a afirmação de Hunter de que os cristãos têm razão em dizer que a cultura
dominante é muitas vezes “incompatível com a moral e a espiritualidade cristã
tradicional”. Se por “moralidade cristã
tradicional” ele se refere apenas a proibições sexuais, como muitas vezes é o
caso, a crítica cultural cristã é um beco sem saída e não muito cristão. A
comercialização de tudo dessa cultura merece ser observado, se assim quisermos.
Eu gostaria que Cameli tivesse parado e pensado se realmente o senso mais amplo
da incompatibilidade cultural era o cerne da questão.
Ele
faz referência ao livro American Grace,
de Robert Putnam e David Campbell, e ao trabalho do
sociólogo de Notre Dame, Christian Smith,
sobre jovens adultos católicos. Considerando os quatro livros, Cameli chega à conclusão que, no futuro
previsível, a cultura estadunidense deve ser dominada pelo secularismo que
vemos hoje e que a Igreja Católica terá um futuro de declínio. Eu posso
discordar um pouco do uso desses textos, mas é revigorante ver alguém
reconhecer a realidade e não permitir que ela o faça cair em amargura,
futilidade ou queixas maniqueístas contra o secularismo.
O
capítulo seguinte levanta e investiga detalhadamente uma questão que já usei de
forma casual e retórica: nós, cristãos,
não deveríamos esperar o inesperado? Desde os judeus famintos e errantes no
deserto, reclamando que queriam voltar para o Egito, até os discípulos no
caminho ao Emaús, as Escrituras estão
cheias de pessoas cuja falta de fé foi logo contrariada pela intervenção de
Deus.
Se
os derrotistas de hoje tivessem vivido na França durante a era napoleônica,
certamente teriam castigado o Papa Pio VII por não ser mais incisivo. Talvez
pensassem que a Igreja estava definitivamente morrendo, mas não teriam previsto
o florescimento da espiritualidade que aconteceu na França no século XIX. Outro
exemplo: ao falar do poderoso e humanamente surpreendente efeito de Santa Teresa de Lisieux, Cameli afirma:
“Ela também transformou o legado jansenista
que herdou, com sua ênfase na observância da lei, em um foco singular sobre o
primado do amor, o amor de Deus e o amor ao próximo”. Precisamos de sua
poderosa intercessão agora, como naquela época, mas quem teria pensado que a
frágil criatura, cuja vida terrena não poderia ter sido mais obscura, teria um
efeito tão profundo em tantas pessoas no mundo inteiro?
Cameli
tem a prudência intelectual e espiritual de perceber que é possível que vejamos “uma Igreja inesperadamente robusta pelas razões
erradas”.
Ele
faz uma pergunta óbvia e desafiadora: o
que podemos fazer ao contemplarmos o provável declínio eclesial? Ele inclui
uma avaliação importante do “nós”, observando que a Igreja, em todos os
momentos, é uma organização, uma comunidade e um movimento. Como bem observa, podemos não fazer nada ou nos tornar uma “Igreja
menor e mais comprometida”. Porém, argumenta contra ambas as opções, usando
imagens bíblicas para explicar suas fraquezas. Essas mesmas imagens são usadas
para defender o esforço de recuperar o dinamismo da Palavra, evangelizando e se
deixando evangelizar. É o centro da argumentação em direção ao
futuro. Não quero entregar o jogo: os leitores precisam comprar o livro. Só vou
deixar com água na boca com um exemplo de sua análise profunda:
«A maioria
das pessoas, dentro ou fora da Igreja, enxerga-a como uma comunidade ou
instituição que traz algo para o mundo - uma mensagem, um modo de vida, um
conjunto de rituais. A dinâmica evangelizadora reformula essa perspectiva. Como
Igreja, não vamos ao mundo somente para dar algo, mas, com o mundo, recebemos
algo: a palavra de vida. [...] O apelo [do papa Paulo VI] ao diálogo e à
reciprocidade com o mundo só faz sentido se entendermos a Igreja e o mundo não como duas forças opostas, mas, em
última análise, duas realidades unidas pela palavra geradora de vida de Deus.»
Essas
importantes ideias teológicas aparecem lado a lado com histórias comuns sobre a
vida paroquial. Esta combinação resulta em recomendações para os próximos anos
da Igreja que não vão nem tanto ao céu nem tanto à terra. Além disso, o livro é
acessível ao leitor leigo que deseja saber o papel que pode desempenhar para
trazer nova vida à Igreja.
E
termina com um posfácio do cardeal Blase
Cupich, com uma palestra aos seus sacerdotes ao fazer a arquidiocese se
comprometer com a sempre inquietante tarefa de se reorganizar. No texto, fica
fácil ver a influência de Cameli, que é delegado da formação de cardeais. Mesmo
os bispos que não estão em reestruturação devem conhecer o livro, assim como pastores
de todos os tipos. Em última análise, o futuro da Igreja e da humanidade está
nas mãos de Deus, mas, como já disse Lionel
Trilling, temos a obrigação moral de ser inteligentes. Este livro, repleto
de fé, é definitivamente inteligente.
Traduzido do inglês por Luísa Flores Somavilla. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
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