1º Domingo do Advento – Ano B – Homilia
Evangelho: Marcos 13,33-37
Naquele
tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
33
«Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento.
34
É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a
responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E
mandou o porteiro ficar vigiando.
35
Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à
meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer.
36
Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo.
37
O que vos digo, digo a todos: Vigiai!'
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
DESEJO DE ALGO NOVO
Há um grito que se repete na mensagem
evangélica e se condensa em uma só palavra: «Vigiai!». É uma chamada a viver
de maneira lúcida, sem deixar-nos arrastar pela insensatez que parece
invadir quase tudo. Um convite a manter
desperta a nossa resistência e rebeldia, a não agir como todo mundo, a sermos
diferentes, a não nos identificarmos
com a mediocridade. Isso é possível?
A primeira coisa, talvez, seja aprender a olhar a
realidade com olhos novos. As coisas não são somente como aparecem
nos meios de comunicação da sociedade. No
coração das pessoas há mais bondade e ternura que aquilo que captamos à
primeira vista. Temos de educar o
nosso olhar, torná-lo mais positivo
e benévolo. Tudo muda quando olhamos as pessoas com mais simpatia, tratando
de compreender suas limitações e suas capacidades.
É importante, além disso, não deixar que se
apague em nós o gosto pela vida e o desejo daquilo que é bom.
Aprender a viver com coração e amar as pessoas buscando o seu bem. Não ceder à
indiferença. Viver com paixão a pequena
aventura de cada dia. Não nos desinteressarmos pelos problemas das pessoas:
sofrer com os que sofrem e alegrar-nos com aqueles que se alegram.
Por outro lado, pode ser decisivo dar sua verdadeira
importância a esses pequenos gestos que, aparentemente, não servem
para nada, porém sustentam a vida das pessoas. Eu não posso mudar o mundo, porém posso fazer que junto de mim a vida
seja mais amável e leve, que as pessoas «respirem» e se sintam menos
sozinhas e mais acompanhadas.
É tão difícil,
então, abrir-se ao mistério último da vida que as pessoas de fé chamam «Deus»? Não estou pensando em uma
adesão de caráter doutrinal a um conjunto de verdades religiosas, mas nessa busca serena da verdade última e nesse
desejo confiante de amor pleno que, de alguma maneira, apontam para Deus. À
medida que os anos passam, tenho a impressão de que as pessoas se tornam mais profundamente
crentes e, ao mesmo tempo, têm cada vez menos «crenças».
DEUS INTERESSA?
Não é fácil celebrar nos dias de hoje o
Advento. Como desejar, pedir ou esperar
a vinda de Deus em meio a uma sociedade onde, ao que parece, Deus já não mais
interessa? Mais que falar de um Deus que vem (adveniens), não deveríamos refletir sobre um Deus que se distancia,
se oculta e se faz cada vez mais estranho?
Em muitos ambientes, Deus foi se reduzindo a
uma recordação do passado. Já não se fala mais dele nos lares. Em muitas
consciências, Deus não é senão uma sombra pouco agradável. Inclusive, não
poucos daqueles que se dizem crentes, apenas o invocam. A atitude mais
generalizada é uma indiferença cada vez mais fria e que constitui, segundo o
teólogo e pensador Joseph Moingt [padre jesuíta francês, 102 anos], «a experiência cultural mais cruel da morte
de Deus».
Ao que parece,
Deus hoje não atrai nem preocupa. Não suscita inquietação nem alegria. Simplesmente,
deixa indiferentes as pessoas. A vida humana pode transcorrer tranquilamente,
sem que ninguém sinta falta dele! Porém,
é verdade que o homem não necessita de Deus?
Desde o século
dezoito, foi-se difundindo a ideia de que a ciência e a técnica iriam livrar o
homem de tudo aquilo que a religião não o tinha conseguido libertar: a fome, as guerras, a
pobreza ou a tirania. A fé em Deus parecia condenada a desaparecer como algo
próprio de uma fase de ignorância e obscurantismo da história da humanidade.
Hoje, quando já ultrapassamos o ano dois mil,
um fato parece inquestionável: os
grandes problemas, longe de desaparecer, cresceram ameaçadoramente. A culpa
não é da ciência nem da técnica, que tornaram possíveis êxitos admiráveis. O
que está mal é o homem que utiliza esse poder científico e tecnológico. E o certo é que nem a ciência nem a técnica
tornam o homem nem mais sábio nem melhor.
Chegou o momento de fazer-se uma pergunta
simples, mas radical: O que pode tornar
mais humanos os homens e as mulheres de hoje? O que pode dar sentido,
orientação ética e esperança a seus esforços?
Certamente, Deus não é necessário para
fundamentar a ciência nem para desenvolver a técnica. Deus não é a resposta a
nossas perguntas científicas nem a solução mágica para nossos problemas.
Porém,
Deus, crido e acolhido como Criador e Pai, pode ser o melhor estímulo para
viver com sentido, o melhor impulso para atuar de maneira responsável, o
horizonte mais válido para viver com esperança.
Porém, não podemos ser ingênuos. Vinte
séculos de cristianismo põem diante de nossos olhos um fato que não podemos
esconder. Tampouco, a religião faz automaticamente os cristãos mais humanos que
as demais pessoas. Somente um Deus
acolhido de forma responsável no fundo do coração pode transformar o ser humano.
Por isso, os cristãos celebram o Advento.
Traduzido do
espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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