Só cego não vê!
Religião,
crime e voto
José Nêumanne
Jornalista, poeta e escritor
Infelizmente, a
religião tem sido usada para enganar,
ganhar muito
dinheiro e fazer política partidária
da mais suja e
corrupta
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JOSÉ NÊUMANNE |
O capitão Jair Bolsonaro foi
eleito presidente da República derrotando todos os caciques da política
tradicional brasileira, apoiado em quatro pilares:
*
antipetismo,
* combate à
corrupção,
*
liberalismo econômico e
*
conservadorismo nos costumes.
Na campanha, prometeu que,
se fosse para adotar o pragmatismo da chamada governabilidade barganhando apoio
por verbas públicas, preferia não assumir o cargo ao qual concorria. Sob a
condição de ser promovida uma reforma política, que ele estava cansado de saber
que não tinha a menor chance de ocorrer.
No governo tornou
inviável a permanência do ex-juiz da Lava Jato, símbolo da bem-sucedida faxina
nos costumes políticos, Sergio Moro, no Ministério da Justiça e Segurança
Pública, substituindo-o por um fâmulo [= criado, subserviente] a quem prometeu
uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Tem feito o possível e o
improvável para ter como adversário na eleição de 2022, à qual dá prioridade
absoluta na gestão, o ex-presidente petista Lula ou qualquer poste ou aliado de
esquerda que este apontar. Prepara uma cama de faquir para seu “posto
Ipiranga” [ministro Paulo Guedes], que para evitar destino idêntico ao do
magistrado paranaense não se incomoda em ser reduzido a “imposto Ipiranga”,
negando, assim como fez com a pandemia de covid-19, os preceitos da
estabilidade da moeda e da responsabilidade fiscal.
A pretexto da governabilidade por
pelo menos oito anos, Bolsonaro correu para o abrigo do baixíssimo clero de
seus dois anos de vereador no Rio e 28 como deputado federal, que passou a se
denominar Centrão sob a liderança de Eduardo Cunha, que, na presidência da
Câmara, defenestrou Dilma Rousseff da Presidência da República. Sem se
perturbar com a circulação nas redes sociais de um vídeo de seu guarda-costas,
general Augusto Heleno, que se lançou na vida artística da política entoando a
paródia do samba de Ary do Cavaco, tornado sucesso por Bezerra da Silva, “se
gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”.
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ADRIANO DA NÓBREGA - ex-capitão da PM e FLÁVIO BOLSONARO |
E adota qualquer atitude para escapar
do inquérito do Ministério Público fluminense sobre a suspeita bem fundamentada
de prática de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa
no gabinete de seu primogênito, Flávio, na Assembleia Legislativa do Rio de
Janeiro (Alerj). E ainda mais com a extensão do crime ao próprio gabinete na
Câmara dos Deputados, onde empregou Nathália, filha do investigado Fabrício
Queiroz, seu colega na brigada de paraquedistas do Exército e amigo da vida
inteira, com óbvias conexões com chefões da milícia e do crime organizado,
como o capitão PM Adriano da Nóbrega. Para tanto se expõe a constrangimento
impróprio para qualquer cidadão de bem, como as perguntas de repórteres sobre
os motivos de depósitos de Queiroz e da mulher, Márcia Aguiar, de R$ 89 mil na
conta da primeira-dama, Michelle. Perguntas a que tem respondido com a costumeira
elegância, ameaçando esmurrar quem as faz ou chamando-o de otário e bundão.
A pauta dos costumes conservadores está exibindo nesta
pandemia a terrível, mas nada evangélica, associação entre confissões
pentecostais, o crime individual ou organizado e a corrupção, que não é
inédita na política e na gestão pública brasileiras, mas nunca foi de tão
explícito descaramento.
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FLORDELIS SOUZA e o marido que ela mandou assassinar ANDERSON DO CARMO |
A pastora e cantora gospel
Flordelis Souza, acusada na semana passada pela polícia fluminense de ter
usado sete filhos e uma neta para executar com 17 balaços o ex-filho, ex-genro
e último marido, o também pastor Anderson do Carmo, mereceu a misericordiosa
solidariedade de Michelle Bolsonaro nas redes sociais. O presidente achou por
bem levar sua cabo eleitoral mais valorizada, mais uma pastora, Damares
Alves, à própria live semanal para evitar a contaminação pelo sangue
derramado da vítima do projeto reeleitoral, que une todos os personagens desse
episódio sórdido. Parceira da assassina num plano de adoção de menores
abandonados, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos disse que
a homicida “enganou todo o Brasil”. Não dá para rir dessa piada tétrica. Para
anular o desgaste dos flagrantes de sua relação com a criminosa, Bolsonaro
envolveu os “300” que fizeram selfies com ele em Foz do Iguaçu.
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PASTOR EVERALDO DIAS PEREIRA, agora, em prisão preventiva, batizando JAIR BOLSONARO e seus filhos Rio Jordão - Israel (maio de 2016) |
O que dizer, então, de o quarto
pastor deste texto, Everaldo Dias Pereira, frequentador das delações
premiadas do propinoduto das empreiteiras corruptoras, tê-lo batizado e aos
três filhos parlamentares nas águas profanadas do Rio Jordão, na Terra Santa?
Presidente nacional do Partido Social Cristão (PSC), pelo qual Wilson Witzel
foi eleito e no qual o próprio capitão cloroquina militou, o espírito santo
de orelha do governador afastado do Rio de Janeiro está preso. Exerce o
papel de água no chope da comemoração de mais uma baixa entre eventuais
oponentes do clã Bolsonaro em sua marcha rumo a novo triunfo.
Resta-nos rezar para o Messias salvar seu povo das garras dos
sócios dessa conjura que torna o Estado que nos governa uma associação de
gângsteres de púlpitos,
traficantes de armas e drogas,
assassinos de ofício e
gatunos da gestão pública.
Como anda a coisa, só Jesus na
causa nos salvará.
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