Assunto que veio para ficar
“A
renda universal é uma imposição das profundas transformações no
mundo
do trabalho”
Patricia
Fachin
Instituto Humanitas Unisinos On-Line
Entrevista
especial com Waldir Quadros
Graduado
em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre e doutor em Ciência
Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atualmente é
professor associado do Instituto de Economia.
Programas de
transferência de renda são fundamentais para construir
uma rede de
proteção social, diz o economista
WALDIR QUADROS |
Se de um lado a epidemia de
covid-19 “revelou em cores ultranítidas todas as carências e iniquidades” da
sociedade brasileira, marcada por profundas desigualdades sociais, de outro, a
implementação do auxílio emergencial para pessoas em situação de
vulnerabilidade socioeconômica demonstrou, em apenas cinco meses, como os
programas de transferência de renda “são fundamentais para construir uma rede
de proteção social aos mais vulneráveis”, diz Waldir Quadros à IHU On-Line.
“Sem dúvida, diante do impacto social da paralisia econômica, o auxílio
emergencial foi decisivo para evitar que um enorme contingente de famílias
pobres ficasse sem condições de atender suas necessidades básicas”, avalia.
[...]
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O que a
pandemia de covid-19 demonstrou sobre a situação social do Brasil?
Waldir Quadros - A pandemia
revelou em cores ultranítidas todas as carências e iniquidades que perpassam a
sociedade brasileira. Além de agravar a condição social dos trabalhadores e
aumentar brutalmente o sofrimento dos pobres.
IHU On-Line - Que análise
qualitativa o senhor faz da atual situação social do Brasil, desde o início da
pandemia? A desigualdade social aumentou ou não?
Waldir Quadros - Ficou
evidente que nossa situação social é brutalmente desumana e insustentável
em condições minimamente civilizadas. Fica difícil falar em aumento ou redução
da desigualdade. Na verdade, os impactos da epidemia se dão em uma estrutura
de enormes desigualdades já consolidadas.
IHU On-Line - A edição mais
recente da Pnad Contínua indica um aumento da taxa de desemprego. No
total, são mais de 12 milhões de brasileiros desempregados. Qual é o impacto
disso neste momento?
Waldir Quadros - O
desemprego e o desalento foram bastante agravados pela inédita paralisia
econômica. Esta situação impacta diretamente os trabalhadores populares
afetados e suas famílias, agravando as condições de vida e repercutindo na
economia pela redução da demanda, principalmente de bens essenciais. Porém, uma
parte desse desemprego afeta a classe média, com redução da demanda por
serviços.
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O Brasil tem, hoje, a maior taxa de desempregados em três anos! Oficialmente, são 13,3% de desempregados. Mais de 9 milhões de pessoas perderam seu emprego. Desemprego atinge trabalhadores formais e informais. Muitos não procuram mais trabalho! |
IHU On-Line - No início da
crise pandêmica no Brasil, em março, o senhor mencionou a necessidade de “fazer
o possível para dar o mínimo de suporte às pessoas mais vulneráveis” e advertiu
para a necessidade de implementar medidas não usuais, porque a situação não é
usual. Cinco meses depois, com a instituição do auxílio emergencial, o possível
foi feito? Qual sua avaliação do modo como o governo tem enfrentado essa
questão?
Waldir Quadros - O governo
vem enfrentando muito mal a situação em função da orientação desumana da
política econômica neoliberal, que privilegia os interesses financeiros. O teto
nos gastos públicos impede uma ação mais vigorosa que busque minimamente
estimular o crescimento econômico. Devemos ter claro que o auxílio
emergencial foi instituído pelo Congresso Nacional e implantado com
muita má vontade pelo governo, bastando mencionar as constantes objeções da
área econômica.
IHU On-Line - Segundo um
levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio
Vargas (Ibre/FGV), o auxílio emergencial possibilitou que a proporção de
pessoas vivendo abaixo da linha de extrema pobreza atingisse a sua menor marca em,
pelo menos, 40 anos. Como o senhor interpreta essa informação e o que ela nos
indica, especialmente sobre os programas de transferência de renda para
enfrentar a pobreza?
Waldir Quadros - Sem
dúvida, diante do impacto social da paralisia econômica, o auxílio emergencial
foi decisivo para evitar que um enorme contingente de famílias pobres ficasse
sem condições de atender suas necessidades básicas. Como já sabemos, os
programas de transferência de renda são fundamentais para construir uma rede de
proteção social aos mais vulneráveis.
IHU On-Line - Como a vida
das pessoas mais vulneráveis mudou após receberem o auxílio emergencial?
Waldir Quadros - Sem o
auxílio emergencial, estas famílias seriam levadas a uma situação de brutais
carências e desespero.
IHU On-Line - Ontem
[31-08-2020], o governo Bolsonaro prorrogou o auxílio emergencial no valor de
300 reais até o final do ano. Como o senhor avalia essa iniciativa?
Waldir Quadros - A
prorrogação é fundamental, porém a redução do valor pela metade terá forte
impacto negativo. Seria desejável uma resistência do Congresso Nacional, já
que até o momento nossa sociedade está profundamente letárgica.
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O "Auxílio Emergencial" foi instituído por iniciativa e pressão do Congresso Nacional, não por vontade própria do atual Governo Federal |
IHU On-Line - Qual sua
avaliação acerca da proposta do governo de reformular o Programa Bolsa Família,
aumentando o benefício e o número de beneficiários, mas, talvez, tendo que
encerrar outros programas sociais, como a Farmácia Popular?
Waldir Quadros - Esta
proposta está inserida na concepção geral da área econômica de preservar o teto
de gastos, transferindo recursos de uma ação social para outra, preservando os
interesses dominantes. Uma alternativa bastante discutida pelos setores
progressistas seria enfrentar esses gastos, e outros, com taxação da riqueza
e dos altos rendimentos.
IHU On-Line - Alguns
pesquisadores dizem que o teto para os programas de transferência de renda é de
3% do PIB, enquanto outros argumentam que este é o momento de tentar
instituir uma renda universal para todos os brasileiros, especialmente por
conta da crise econômica e das mudanças que estão em curso no mundo do
trabalho. Como o senhor tem pensado sobre essa questão? A renda universal é
uma alternativa para o Brasil? Sim, não, por quê?
Waldir Quadros - Sem
dúvida, a renda universal é uma imposição das profundas transformações no
mundo do trabalho, em que a robotização e outras inovações eliminam rápida e
profundamente os empregos, em todos os níveis de qualificação. Esta
avaliação é, inclusive e crescentemente, acatada pelos setores internacionais
conservadores e liberais mais civilizados. E mesmo por titulares de grandes
fortunas, que advogam o aumento da tributação para sustentar esses
gastos.
IHU On-Line - Alguns avaliam
que propostas de renda básica, quando são feitas por liberais, têm o objetivo
de encerrar outros serviços públicos. Qual sua avaliação?
Waldir Quadros - Como disse
acima, esta concepção é dominante na atual e míope gestão econômica, regida
exclusivamente pelos interesses da riqueza.
IHU On-Line - Quais são os
principais desafios do Brasil neste momento, pós-pandemia?
Waldir Quadros - Enfrentar
decididamente o agravamento da situação social e avançar na recuperação de
níveis mínimos de crescimento econômico, fundamentalmente com projetos de
infraestrutura e construção civil, particularmente a residencial, com o que
também seria atacado o gravíssimo déficit habitacional.
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