Aprendamos com a ciência...

 Evolução não é progresso, e progresso não é melhora

 Suzana Herculano-Houzel

Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos da América

SUZANA HERCULANO-HOUZEL
 

A humanidade moderna deixa isso bem claro

Esta é uma semana feliz para quem estuda evolução e aprecia o poder dos estudos comparados, que analisam várias formas de vida lado a lado para entender o que é regra fundamental, o que é variação possível, o que funciona ou não funciona: o geneticista sueco Svante Pääbo, diretor do departamento de genética do Instituto Max-Planck para Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, teve reconhecido com o Prêmio Nobel seu trabalho comparando genomas de humanos modernos e neandertais

Pääbo teimou em sequenciar o DNA de ossos fossilizados de várias formas humanas, e o resto da história é consequência da sua determinação. Minha descoberta favorita dentre suas várias contribuições para nossa compreensão das origens humanas é a demonstração de combinação genética entre humanos modernos e neandertais, evidência de que, por definição, éramos apenas variações da mesma espécie

SVANTE PÄÄBO, 67 anos, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2022: desvendou os genomas de hominídeos extintos. Foto: Lisi Niesner/Reuters.

Pääbo continua usando a terminologia convencional que nos faz compartilhar apenas o mesmo gênero, Homo, mas isso é detalhe; há batalhas desnecessárias quando há um objetivo maior. Com mais tecnologia acumulada na forma de cultura, a variedade sapiens da espécie humana invadiu a Europa e dizimou a variedade neandertal residente; cerca de 60 mil anos mais tarde, a variedade europeia de sapiens invadiu as Américas e dizimou as variedades indígenas residentes. Ambas as invasões em massa deixaram evidências no genoma das populações restantes. 

Se uma era mais evoluída do que a outra? Claro que não. Neandertais e sapiens, europeus e povos indígenas americanos coexistiram no planeta enquanto a geografia os manteve separados, cada um vivendo perfeitamente bem em seu canto. Por uma soma de contingências, o progresso tecnológico de cada um seguiu caminhos diferentes; mas quando as barreiras caem, quem tem mais tecnologia —mais recursos para resolver problemas aqui e criar novos ali, e falar mais alto, e arrebanhar mais seguidores e ainda mais recursos— por definição sai ganhando em caso de confronto, como continua acontecendo o tempo todo no mundo moderno. 

O que também não quer dizer que vence o melhor. “Melhor” depende de referência: melhor para quem? A maioria que colocou o vitorioso no pódio? Isso é lógica circular, tal como “sobrevivência dos mais aptos”, quando “apto” é por definição quem sobreviveu. Melhor por qual critério? Concordância com os valores da vez? Ora, isso muda o tempo todo, e ainda bem. 

Eu adoraria que vingassem os comportamentos inteligentes:

* aqueles que mantêm portas abertas e possibilidades futuras.

* Aqueles que mantêm a Amazônia viva e cheia de diversidade que a gente mal imagina.

* Aqueles que mantêm todos, e não apenas os ricos, saudáveis, instruídos e capazes de fazer seu próprio futuro.

* Aqueles que mantêm indivíduos pensantes, usuários plenos das capacidades de seu córtex pré-frontal de vislumbrar um futuro que se deseja e agir em prol dele, e não meros guardiões do que um dia funcionou, não porque era melhor ou mais “progredido”, mas apenas porque era tudo o que se sabia então. 

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunas e Blogs – Terça-feira, 4 de outubro de 2022 – Pág. B10 – Internet: clique aqui (Acesso em: 04/10/2022 – às 15h20).

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