4º Domingo da Quaresma – Ano A – Homilia
Evangelho: João 9,1-41
Assista
à dramatização deste Santo Evangelho, clicando sobre a imagem abaixo:
A Perspectiva Segue Sendo a Páscoa
Seguimos vivendo a Quaresma como preparação e início da Páscoa. Na
oração da coleta da missa deste domingo pedimos a Deus: «concedei ao povo
cristão, correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e
exultando de fé».
A chave, sobretudo nestes últimos domingos, é a da iniciação catecumenal
ao Batismo. No domingo passado Jesus nos foi apresentado como fonte de água
viva, hoje, ele se revela como a luz autêntica que ilumina a humanidade. A cura
da visão corporal serve ao evangelista para construir uma catequese da luz
espiritual, com a qual Cristo nos ilumina e nós o reconhecemos como o Enviado
de Deus.
A chave da luz será fundamental, também, na Vigília Pascal e durante
todo o Tempo Pascal, para entendermos melhor e nos sintonizarmos com o mistério
da nova vida pascal de Cristo. A Páscoa é Páscoa de luz.

O Que Se Deve Passar Para Crer
O relato do Evangelho deste domingo, longo e detalhado, está pensado e
redigido para desembocar no momento final e culminante: o ato de fé que
faz o cego recém-curado quando se prostra diante de Jesus. Um ato de fé que não
é fé em Deus ou no Filho de Deus, mas fé no Filho do Homem (Jo 9,35.38). A
expressão «Filho do Homem» é usada nos evangelhos somente por Jesus, ninguém
mais. Foi uma novidade que Jesus introduziu naquela cultura.
Trata-se de uma expressão semítica, «bar ’adam», «filho de Adão»;
ou o seu equivalente «bar ’nasa», «filho do homem». «Adão» é o mesmo que
«homem» (cf. Gn 4,25; 5,1.3-5; 1Cr 1,1; Tb 8,8,6; Eclo 49,16), o coletivo humano
(cf. Jó 14,1; Sl 8,5; 104,14). Dizer, pois, «filho de Adão» é o mesmo que dizer
«o homem», o «ser humano» (cf. Is 51,12; 52,14; Sl 8,5; 45,3 etc.). Portanto, o
evangelho de João relata um processo muito duro que tem como desenlace final e
conclusão a fé no homem.
O processo é terrível. A iniciativa é de Jesus, uma vez que não se
menciona que o cego pedira para ser curado (Jo 9,6-7). E quando o cego começa a
ver, começam também as dificuldades:
a) os vizinhos duvidam (J0
9,8-10),
b) seus pais o abandonam e não
dão a cara por ele (Jo 9,20-21),
c) os dirigentes religiosos o
insultam (Jo 9,28) e, finalmente, o excomungam como um «pecador» (Jo 9,34).
É um processo, portanto, de crescente solidão:
* abandona-o a sociedade,
* deixa-o sozinho a família e
* a religião o excomunga.
Por tudo isso há que passar para crer de verdade. Porém, crer em quê? Em
quem? Em Deus?
Não. No Filho de Deus? Tampouco. Trata-se de crer no homem. Isto
é o mais difícil! Porque isso requer um processo de despojamento de tudo
o que nos impede de reconhecer o humano, crer no humano. Nós, seres humanos,
estamos dispostos a colocar nossa fé no poder, na honra, no dinheiro, na ciência,
no esotérico e no estranho. Cremos nos deuses, nos milagres, nos ritos, nos
santos e nos curandeiros. Em qualquer coisa. A ruína da humanidade é que não
cremos no homem, no ser humano.
Por isso, não o respeitamos, não o tratamos como merece, não o amamos,
seja quem for e se comporte como quiser. Estamos cegos. E os fanáticos da religião
são os mais duros inimigos da humanização do ser humano. Sentem-se mais
à vontade na cegueira e nutrem a cegueira de todos aqueles que não levam a
sério a fé no ser humano.
E isso é o mais decisivo. Não somente pelo que é o ser humano. Mais
ainda, porque no ser humano encarnou-se Deus (Jo 1,14) e é nele onde,
antes de tudo, encontramos Deus. Segundo o Evangelho: NÃO PODEMOS CRER
NO DEUS DE JESUS, SE NÃO CREMOS NO SER HUMANO. Não podemos confiar em Deus, se
não confiamos no «ser humano».
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