O que acontecerá com a economia e as pequenas e médias empresas
Problemas
e possíveis soluções
João José Oliveira
Para economistas, países ricos e grandes
corporações vão explorar fragilidade de concorrentes para avançar na economia
mundial

A pandemia do coronavírus vai jogar
o mundo inteiro em uma recessão este ano e alterar de maneira
permanente a forma com que países e empresas fazem negócios, dizem
economistas. Para especialistas em relações internacionais, as medidas tomadas
por governos para conter o avanço da covid-19 em 2020 terá dois tipos de
impacto:
* No
curto prazo, a riqueza mundial, medida pelo PIB, vai diminuir, isso é quase
certo.
* E, no longo
prazo, governantes e corporações vão mudar a forma com que produzem,
compram e vendem produtos e serviços.
Os países mais ricos do mundo, como
Estados Unidos e China, com mais dinheiro para ajudar empresas em
dificuldades, devem ocupar espaço das nações com menor poder financeiro,
como Brasil, Argentina, México, Espanha ou Itália. Esses terão mais casos de
falências no setor privado. Da mesma forma, as companhias de grande porte, com
mais recursos em caixa e maior acesso às linhas de financiamento, vão se
aproveitar do espaço deixado no mercado por pequenas e médias empresas que sucumbirem
à recessão.
Recessão no mundo todo
Os economistas são quase unânimes
em afirmar que haverá recessão global em 2020. Os países vão produzir
menos este ano que em 2019. Segundo a firma de gestão de recursos e consultoria
Schroders, citando pesquisa da empresa de informações Thomsom
junto a analistas, o PIB do mundo vai ter retração de 3,1% este ano em
comparação com 2019. Uma estimativa bem pior do que a que havia antes do
coronavírus, que apontava para um crescimento de 2,3%.
Os Brics, grupo formado por Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul, até aparecem com uma estimativa de
crescimento, mas isso se deve exclusivamente à China. Os demais países desse
bloco devem ter recessão em 2020, incluindo o Brasil.
Clique
sobre este link abaixo,
para
ter acesso a um gráfico sobre a recessão mundial.
Ao
passar a seta do mouse sobre os dados, aparecerá o nome do país em questão:
clique aqui
Os países mais ricos e empresas
com mais caixa vão se recuperar mais rapidamente desse tombo, afirma Fábio
Astrauskas [professor do Insper]. Assim, enquanto o restante do mundo
estiver passando por uma retomada lenta, os líderes globais poderão ocupar
espaços no mercado, alterando de forma definitiva o desenho atual das
cadeias de produção.
"Após a recessão, vamos ter um
aumento da concentração da riqueza no mundo. Isso já vem acontecendo e
vai se acelerar. Esse vai ser o grande debate após passada a pandemia, porque a
concentração tem efeitos sobre a renda. Então, serão necessários novos
marcos regulatórios que estimulem a distribuição de renda", afirma Astrauskas.
FÁBIO ASTRAUSKAS Economista e Professor do INSPER |
Sem ajuda, empresas pequenas
vão quebrar
A recessão de 2020 provocada
pelo covid-19 vai afetar empresas e países de forma diferente. Será mais
severa sobre quem for mais frágil. Se os governos não agirem para socorrer
as pequenas e médias empresas, liberando linhas de crédito ou adiando ou
cortando recolhimento de impostos, por exemplo, haverá maior mortalidade entre
os menores empreendedores.
E isso acaba afetando
diretamente bilhões de pessoas. Segundo a Organização Mundial do Comércio,
em 2018, as pequenas e médias empresas representavam cerca de 70% do
emprego global no mundo corporativo. Nas economias em desenvolvimento, caso do
Brasil, esse segmento responde por mais de 55% do PIB.
O problema é que essas empresas
já estão perdendo participação na economia mundial por causa da
globalização. Com mais dinheiro em caixa e maior acesso ao capital, as grandes
corporações estão tirando fatias de mercado e de clientes dos empreendedores
regionais.
Segundo o Global Policy Forum,
ONG formada em 1993 por economistas de todo o mundo, as 200 maiores
corporações do planeta aumentaram de 24% para 30% a fatia que detêm na produção
global ao longo dos últimos 20 anos. Esse processo deve se aprofundar se os
governos não adotarem práticas de proteção às pequenas e médias companhias.
O problema, apontam os economistas,
é que os governos tendem a ajudar primeiro as grandes empresas. "Pelo que
vimos na crise de 2008, são as grandes corporações que recebem a maior parte
dos aportes dos governos. Vamos lembrar que várias empresas privadas foram
salvas nos Estados Unidos com a estatização na crise de 2008", afirma Oliver
Stuenkel, da FGV [Fundação Getulio Vargas).
![]() |
OLIVER STUENKEL Economista e Professor da FGV |
Países ricos mais ricos
Da mesma forma, grandes
potências econômicas devem ampliar a participação no PIB global. Segundo
dados do Banco Mundial, a China, por exemplo, que detinha menos de 5% do PIB
global em 1980, hoje já tem mais de 15% da economia do planeta. Por outro lado,
países como o Brasil ficaram praticamente estagnados, enquanto outros, como
Espanha, Alemanha e França, regrediram.
"Por que a China conseguiu
isso: atrair empresas e investimentos e se tornar a grande indústria do mundo?
Não foi apenas por causa do mercado interno ou da mão de obra barata. Houve
investimento em tecnologia e leis de atração de investimentos", afirma
Paulo Dutra, da Faap.
Para Stuenkel, da FGV, o
forte e rápido crescimento da China criou um novo receio entre os demais
países. A pandemia do coronavírus, que começou por lá, mostrou que depender
de um único parceiro pode ser perigoso.
"Os países vão começar a
pensar mais em que tipo de produção precisa ser interna para depender menos
do exterior, como vacinas, alimentos, equipamentos, mesmo que isso seja
mais caro", afirma Oliver Stuenkel, da FGV.
"Acredito em um processo de redução
de dependência mútua de China e Estados Unidos. Haverá uma busca de
equilíbrio entre eficiência econômica e risco político", afirma o
especialista.
Os países terão que entrar em um
novo desenho da cadeia de produção, acredita Stuenkel. As economias
mais ricas vão buscar elevar a produção interna.
E aquela parte da produção que
tiver que ser importada deverá ser descentralizada, ou seja, com fornecedores e
etapas da cadeia de fornecimento localizados em mais de um país.
Cabe então aos países emergentes
buscarem uma inserção nesse novo desenho. O professor da FGV cita o Vietnã,
que tem recebido investimentos dos Estados Unidos por parte de empresas que
decidiram diversificar sua rede de fornecedores para não depender da China
exclusivamente.
Brasil em desvantagem
O problema do Brasil nesse
redesenho, afirmam economistas, é que o país não tem uma posição clara sobre em
quais setores quer ser mais forte para atrair investimentos.
"A gente tem que repensar
esses centros de produção para ver como o Brasil pode se inserir nesse
contexto. Temos que fazer abertura comercial, mas associada a políticas de
financiamento para inovação e outras medidas de ganhos de
competitividade", afirma Paulo Dutra, da Faap. "Como não
vejo isso hoje, acho que o Brasil vai perder espaço na economia global".
Como sequela da pandemia do
coronavírus, o protecionismo deve aumentar, dizem economistas.
"O que pode ocorrer é que
países de setor agrícola, por exemplo, mesmo ineficientes nessa atividade,
venham a se opor mais fortemente a acordos comerciais. Caso da França, que deve
se opor à ratificação do acordo de Livre Comércio com o Mercosul", afirma Oliver
Stuenkel, da FGV.
Ou seja, para ele, a América
Latina tende a sofrer mais com esse quadro por causa de sua dependência de
commodities (matéria-prima). [O Brasil, há mais de
duas décadas, não tem uma política de apoio à sua indústria! Estamos relegados
a vender matérias-primas baratas e importar produtos industrializados a preços
mais elevados. É o novo colonialismo do século XXI!]
SOLUÇÕES
Como o empresário pode evitar a
falência mesmo de portas fechadas pelo coronavírus
Marília Miragaia
Empreendedores devem reduzir custos e
adaptar serviços para o mundo digital
![]() |
LOJAS FECHADAS DEVIDO À PANDEMIA DO COVID-19 |
O fechamento de lojas, academias e
shoppings em razão da pandemia de coronavírus deve agravar a situação de micro,
pequenos e médios empresários no país.
“As grandes empresas têm mais
estrutura e estão mais preparadas para passar por situações como essa. Mas a
somatória dos negócios pequenos é muito importante para a economia”, diz Rubens
Massa, professor do centro de empreendedorismo e novos negócios da FGV
(Fundação Getulio Vargas).
Negociar prazos com os
fornecedores, cortar custos e explorar recursos tecnológicos
estão entre as medidas recomendadas para os empreendedores neste momento,
segundo Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae.
Veja, a seguir, as orientações dos
dois especialistas para enfrentar essa crise.
Adapte seu serviço para o
mundo virtual
Com a suspensão das atividades
físicas, a primeira atitude é controlar as despesas e cortar tudo o
que não for essencial para o funcionamento — principalmente se não houver
receitas no período.
Mas também é importante procurar
oportunidades em outros canais de venda e repensar o modelo de negócio
antes de paralisar as atividades.
O empresário deve procurar formas
de adaptar o serviço para o mundo virtual. Para isso, pode buscar
exemplos dentro do seu setor e adaptá-los à sua realidade.
Na área de alimentação, o delivery
feito por aplicativos é uma saída, mesmo no caso de a empresa nunca ter
trabalhado com entrega. Como exemplo, uma cervejaria pode vender kits com chope
e petiscos para quem quer fazer happy hour dentro de casa.
Também há professores e
consultores que atendem usando plataformas online e personal
trainers que dão aulas por meio de videoconferência.
Livrarias podem
apostar na venda de e-books, e músicos, em concertos feitos de
forma virtual.
![]() |
BRUNO QUICK |
Corte custos para diminuir o
impacto no fluxo de caixa
É importante fazer uma revisão e reduzir
ao máximo os custos, simplificando a operação — desde que as mudanças não
ameacem os resultados.
Entre os exemplos de ajustes estão desligar
equipamentos que têm uso intensivo de energia, controlar o consumo de
água, fazer cotação de matéria-prima, renegociar o valor do
aluguel e diminuir os níveis de estoque.
Também é importante, se possível, rever
a data de pagamento a fornecedores e buscar formas de antecipar
recebimentos, o que ajuda a deixar o fluxo de caixa positivo. Para conhecer
mais alternativas, converse com associações empresariais e órgãos de auxílio a
empresários.
Fique atento às novas
medidas do governo
Existem pacotes de ajuda devido ao
avanço da pandemia, mas é importante conversar com um contador para descobrir
as medidas mais adequadas para cada realidade.
Uma das propostas apresentadas pelo
governo permite que empresas cortem em até 50% a jornada e os salários de
trabalhadores. Isso ajudará a reduzir custos e evitar a demissão de
funcionários.

Demitir funcionários só em
último caso
A demissão deve ser considerada
quando nenhum outro recurso funciona, a exemplo de ajuda governamental e da
antecipação de férias, consegue resolver o problema. Fazer uma dispensa
impacta as reservas da empresa, que pode se descapitalizar ao ter de pagar
indenizações. Além disso, é preciso considerar o investimento que a
companhia fez na formação de seus trabalhadores e a dificuldade de
substituir essa mão de obra.
Considere fechar as portas
mesmo se não for obrigado
No caso de estabelecimentos que não
precisam fechar, como farmácias e lanchonetes, os empresários precisam avaliar
se devem ou não suspender as atividades.
A primeira atitude é observar se
a empresa consegue trabalhar sem risco de contaminação. Depois disso, é
necessário analisar a viabilidade e a importância de manter o ponto físico
aberto.
Procure ajuda do contador para
organizar as contas e fazer uma estrutura de custos. Operar com uma margem
positiva é um sinal de que o negócio pode continuar funcionando. Além disso, o
capital de giro deve ser suficiente para um período de dois a seis meses de
operação.
Avalie antes de pegar
dinheiro emprestado agora
Antes de buscar crédito, o
empresário precisa avaliar sua capacidade de pagar as parcelas. Começar a fazer
o pagamento no momento de crise ou de retomada pode ser arriscado.
Mesmo se o empreendedor for cliente
antigo de um banco, vale consultar prazos, taxas e carências disponíveis no
mercado (incluindo cooperativas de crédito, bancos digitais e de fomento
para pequenos empresários). Taxas de empréstimos do mesmo segmento podem ter
uma grande variação entre instituições.
Divulgue medidas de
prevenção aos clientes
É importante comunicar que o
negócio está tomando todas as medidas recomendadas para evitar a disseminação
do vírus. O cuidado deve ser divulgado permanentemente em redes sociais e
na comunicação visual do ponto físico. Além de transmitir segurança, o que é
essencial para o consumidor no momento, a medida também informa que a companhia
está operando.
Promova campanhas de estímulo ao
comércio local
Micro e pequenas empresas têm menos
estrutura para atravessar momentos de crise. Por isso, é legítimo que adotem
campanhas para sensibilizar o consumidor e estimulá-lo a dar preferência a
produtos de companhias menores.
Não ofereça descontos sem
fazer contas
Como o movimento presencial está em
queda, é importante buscar formas de manter o faturamento. Mas, antes de fazer
promoções online ou oferecer entrega grátis, é preciso calcular os custos
para entender se isso é viável ou só vai piorar a situação financeira.
Comentários
Postar um comentário