Governos populistas e o vírus
“Coronavírus
isolou líderes populistas”
José Eduardo Barella
Entrevista
com Steven Levitsky
Cientista político norte-americano, Professor da Harvard
University e coautor de «Como as Democracias Morrem»
Ignorar especialistas fez líderes como Trump
e Bolsonaro
reagirem tarde à pandemia!
Agora, vem o preço!
STEVEN LEVITSKY Professor da Universidade de Harvard - Estados Unidos |
Acostumados
a fazer dos adversários inimigos mortais e desprezar o que chamam de elite
política, acadêmica, científica e cultural, muitos líderes populistas estão experimentando
o próprio veneno. Pegos de surpresa pelo novo coronavírus, eles reagiram
tarde à pandemia e estão às voltas com o aumento de casos e mortes, além da
expectativa de uma gravíssima crise econômica.
Para o
cientista político Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias
Morrem, que mostra as razões da expansão populista nos últimos anos, o
desprezo pela ciência e pela elite caiu por terra com o avanço da pandemia.
Pegos de surpresa pelo surgimento do coronavírus, líderes populistas como Donald Trump, nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro, no Brasil, e Andrés
Manuel López Obrador, no México, correm risco de isolamento e de
perder mais popularidade em razão da crise econômica.
A pandemia, segundo Levitsky, é o maior
desafio dos populistas. Primeiro, porque corrói a popularidade que os
sustentam. Sem popularidade, fica mais difícil tomar medidas autocráticas
para ameaçar a democracia. Em segundo lugar, por colocar a própria
sobrevivência desses líderes em risco. “A pandemia está mostrando que o
desprezo desses populistas pela ciência e pelos especialistas vai custar caro”,
disse. A seguir, trechos da conversa com Levitsky.
Por que populistas como Trump, Bolsonaro e Boris Johnson
foram lentos ao reagir à pandemia?
Steven
Levitsky: Líderes populistas costumam se eleger atacando o establishment,
dizendo ao povo que, uma vez no poder, varrerão a elite. Mas parte dessa elite
é formada por especialistas – economistas, cientistas, técnicos, profissionais
de saúde, como os que lideram agora o combate ao coronavírus. E a primeira
resposta dos populistas à pandemia foi rejeitar os conselhos dos especialistas,
recorrendo a pessoas próximas que não são do ramo. Bolsonaro preferiu ouvir
conselhos dos filhos. Trump, do genro. Não é por acaso que Trump, Bolsonaro
e (Andrés Manuel) López Obrador (presidente do México) demoraram a reagir. Já o
primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, é um caso à parte. Embora tenha
demorado, ele acabou aceitando os conselhos de especialistas e foi mais rápido
em adotar medidas. Mas ficou evidente que a inação inicial deve trazer
consequências trágicas, como estamos vendo.
Se fosse possível formar um ranking, quem levaria a
medalha de ouro em performance populista na reação ao coronavírus?
Steven
Levitsky: Todos cometeram erros, mas vale citar o presidente da
Nicarágua, Daniel Ortega, cuja resposta à pandemia foi péssima –
mas eu não chamaria ele de líder populista. Portanto, ele fica de fora dessa
disputa. Sem sombra de dúvida, a medalha de ouro vai para Bolsonaro. Ele
continua a desdenhar da crise. A maior parte do seu discurso (do dia 24)
na TV continha inverdades que refletem um nível de ignorância que vai
além da demonstrada por Trump. Vale notar que o desprezo do presidente
brasileiro pelas recomendações de especialistas, parte da estratégia populista
de rejeitar a elite, não tem precedentes na história recente do País. Políticos
tradicionais, independentemente se eram de direita ou de esquerda, como José
Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula, tiveram ajuda de técnicos com
experiência de governo.
No seu livro, o senhor afirma que parte da estratégia dos
populistas é ignorar o respeito mútuo e a tolerância. Numa crise profunda,
adotar essa estratégia autoritária tende a levar os populistas ao isolamento?
Steven
Levitsky: Depende do líder populista. Situações de emergência nacional,
como guerras, desastres naturais e pandemias, exigem cooperação entre a classe
política, entre o presidente e o Congresso, entre presidente, governadores e
prefeitos, e entre governo e oposição. Os populistas costumam fazer de seus
oponentes inimigos ferozes, o que dificulta esse tipo de cooperação durante
uma crise.
Essa disputa costuma levar o líder populista ao
isolamento?
Steven
Levitsky: Normalmente, o populista cria uma espécie de ambiente
tóxico na política entre ele e seus oponentes. Isso não torna impossível
reunir a classe política para responder a uma crise, mas certamente é mais
difícil. Muitas vezes, durante situações do tipo, é comum uma união em torno do
presidente. Aparentemente, isso não está acontecendo com Bolsonaro, que parece
ser um caso claro de isolamento.
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Vale a pena ler ! ! ! |
Tanto Trump quanto Bolsonaro culparam a China pela crise
e evitaram adotar medidas drásticas, com medo de afetar a economia. Isso
configura uma estratégia política populista?
Steven
Levitsky: Não sei se essa reação similar é coincidência ou o quanto
Bolsonaro está copiando Trump. Mas não acredito que se trata de um movimento
ideológico. Um dos mentores do trumpismo, Steve Bannon, foi defensor de uma
resposta de saúde pública mais agressiva. Ou seja, neste aspecto, Bolsonaro
agiu de forma diferente da preconizada pelo cérebro do trumpismo. Já Obrador,
um populista de esquerda, agiu de forma semelhante à de Bolsonaro, criticando a
paralisia da economia. Portanto, não acho que seja uma questão ideológica, e
sim uma atitude intuitiva de um político personalista, nacionalista e, mais
importante, antielitista. Um político com uma grossa camada narcisista,
que acredita que ele mesmo, sozinho, sabe mais que os especialistas.
A gravidade da crise pode estimular os populistas a
acumular mais poder?
Steven
Levitsky: É provável que líderes autoritários respondam a essa crise
com medidas para ampliar seu poder. Mas não está claro quantos serão
bem-sucedidos se começarem a tomar essas medidas. Um político isolado, como
Bolsonaro, tentar aproveitar a situação para acumular poder tem menos chance de
obter sucesso. O mesmo vale para Trump.
Mesmo numa situação especial como essa?
Steven
Levitsky: Sim. Se um líder não tem confiança do povo durante uma crise,
deve evitar criar mais problemas para ele mesmo. É o que estamos começando ver
no Brasil. Os brasileiros não estão respondendo bem a esse grande poder
que o Bolsonaro tem para lidar com a pandemia.
Então o temor de que Bolsonaro se aproveite da crise para
obter mais poder é exagerado?
Steven
Levitsky: Se você imaginar o cenário daqui a seis meses, com a economia
em situação mais delicada do que hoje, Bolsonaro provavelmente terá menos
apoio do que tinha, o que torna arriscado tentar algum movimento fora do
jogo democrático.
É possível que o pronunciamento de Bolsonaro, no dia 24
de março, tenha sido uma manobra para forçar uma situação que justifique
medidas autoritárias?
Steven
Levitsky: Na crise em que o Brasil se encontra, não há nenhuma
garantia de que Bolsonaro se comportará democraticamente. Precisamos nos
preocupar todos os dias com o fato de Bolsonaro tentar quebrar as regras do
jogo democrático. O fato de estar perdendo popularidade, e também porque muitos
atores da política e da sociedade brasileira se recusam a apoiar uma aventura
por parte dele, me leva a crer que, caso tente quebrar a ordem democrática,
Bolsonaro fracassará.
Por que os populistas sempre buscam a POLARIZAÇÃO, mesmo
em uma crise grave como agora?
Steven
Levitsky: Líderes populistas tendem a usar a mesma estratégia que
funcionou para eles no passado. Se você chegar ao poder como populista,
provavelmente continuará usando essa estratégia no poder.
Você ficou surpreso com o pronunciamento de Bolsonaro,
indo na contramão das medidas de isolamento?
Steven
Levitsky: O que me impressionou mais foi como ele está copiando Trump.
O pronunciamento foi consistente com seu comportamento desde que comecei
acompanhar sua trajetória. Fiquei chocado com seu grau de ignorância –
e, para ser sincero, não sei se ele é de fato tão ignorante quanto demonstra,
como quando afirma acreditar que 90% dos jovens não serão contaminados pelo
coronavírus e, portanto, devem voltar às aulas. Mas é arrepiante ver os dois
maiores países do hemisfério, Brasil e Estados Unidos, governados por
presidentes que vivem mentindo, respondendo a essa crise dessa maneira
ignorante e irresponsável. Infelizmente, é o custo que temos de pagar por
tê-los escolhido. O mundo estará olhando para a eleição presidencial nos Estados
Unidos deste ano com atenção redobrada.
Com o impacto do coronavírus na economia, uma derrota de
Trump sinalizaria que a onda populista pode murchar?
Steven
Levitsky: É o que espero. Tudo que Trump pretende agora é reviver a
economia para que possa ganhar a reeleição – é com isso que ele se importa.
Não há como prever os efeitos que ocorrerão nos próximos meses. De qualquer
forma, a tendência é termos uma eleição muito disputada.
Mesmo a economia tendo pouco tempo para se recuperar?
Steven
Levitsky: Antes do coronavírus, apesar de a economia estar indo bem e Trump
tivesse boas chances de se reeleger, é importante lembrar que sua aprovação era
de apenas 43%. Ele não é um presidente muito popular, mas tem uma base muito
forte. Não sabemos o que vai acontecer com a economia. Mas há projeções que
indicam uma forte queda no segundo trimestre, com recuperação ao fim do
terceiro trimestre – o que ajudaria Trump. Mas os Estados Unidos são vistos
como um modelo para o restante do mundo. Se um líder populista for tirado do
poder aqui nos Estados Unidos, acho que será um duro golpe para o populismo. É
o que espero.
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