Vidas x Economia?
É
falsa dicotomia imaginar contradição entre “salvar vidas” e “proteger a
economia”
Fernando Schüler
Professor
do Insper e curador do projeto “Fronteiras do Pensamento”
A
solução começa quando nosso sistema político se desligar do
“modo
internet” e do clima de permanente campanha eleitoral
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PAULO GUEDES & JAIR BOLSONARO Respectivamentes, Ministro da Economia e Presidente da República do Brasil |
Bolsonaro dobra a aposta.
Não se sabe exatamente baseado em que tipo de evidências, o presidente joga sua
autoridade e o que lhe resta de credibilidade na tese de que a pandemia será
passageira, no Brasil, e terá menos letalidade do que o quase-consenso da
comunidade médica vem apontando.
O recente relatório
apresentado pelo Imperial College, em Londres, aponta que, em um quadro
em que nada de substancial for feito, a pandemia pode gerar mais de dois
milhões de mortes nos Estados Unidos e pouco mais de meio milhão na
Inglaterra.
O relatório fez com que o
governo britânico adotasse decisões mais duras e incentivou a escalada de
medidas de isolamento, no plano global. A Índia, com seus 1,3 bilhão de
habitantes, entrou em lockdown [= confinamento, reclusão em casa] nacional
por 21 dias, tendo registrado apenas um quarto do número de mortes já
identificadas no Brasil, em função da Covid-19.
Há uma tendência global
nesta direção. O The New York Times, em editorial, fez um apelo ao
presidente Trump para que lidere uma reclusão americana por duas semanas,
de forma a interromper a espiral de contágio e permitir medidas mais
focalizadas, daí para diante.
O mundo pode estar errado e
Bolsonaro pode estar certo. Há uma vaga aposta na transmissão mais lenta, em
climas quentes, e na ideia de que gente jovem e saudável dificilmente terá
problemas, caso for contaminada.
Isto é
obviamente equivocado. Bolsonaro não tem base técnica para fazer este
tipo de afirmação e não deveria fazê-lo. Alguém pode chegar à Presidência
da República seguindo sua intuição, andando na contramão e agindo de modo
errático. Mas nada disso funciona para combater uma pandemia desta gravidade.
Não há
qualquer dúvida de que medidas rápidas e duras de isolamento social são
necessárias e já deveriam ter sido implementadas em larga escala no
país.
Afirmar
isto não significa que se deve desconsiderar os impactos econômicos da crise. É uma
falsa dicotomia, típica de nosso debate político polarizado, imaginar que
exista uma contradição entre “salvar vidas” e “proteger a economia”.
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THOMAS FRIEDMAN Jornalista norte-americano e editorialista do jornal The New York Times |
Thomas
Friedman lançou esta discussão em um artigo recente, sugerindo uma
abordagem em três etapas:
1º) o isolamento
total,
2º) a realização
massiva de testes e mapeamento de riscos, por região e perfis
populacionais, e (no prazo que for tecnicamente adequado),
3º) o retorno
coordenado ao trabalho.
Bastou apresentar estas
ideias bastante óbvias para que fosse chamado de “darwinista social” e outros
impropérios. Sua ideia mais elementar diz simplesmente que, respeitando-se a
absoluta prioridade que se deve dar à preservação da vida, “o
emprego e o estado geral da economia é também um tema de saúde pública”.
Se isto é verdade em uma
economia como a americana, que vem de um ciclo de quase pleno emprego, o é
ainda mais em um país como o Brasil, que ainda não se recuperou da
brutal crise de 2015/2016, que levou (segundo dados do IBGE) mais de 4,5
milhões de pessoas a cruzarem, para baixo, a linha de miséria.
A pergunta óbvia: o que
fazer se a taxa de desemprego no país aumentar em 50% e outros 4,5% de cidadãos
somarem-se aos atuais 13,5 milhões de brasileiros em condição de
miserabilidade? Que danos e quantas mortes isto irá produzir?
É previsível que este tema
não interesse e pareça mesmo irritante para a classe média alta que possui
poupança ou se sente segura em seus empregos, em particular no setor público. E
muito menos aos mais ricos, que irão desestressar em Miami, quando tudo passar.
Consequências não
intencionais da ação, na expressão há muito consagrada por Robert Merton, nunca
parecem interessar para aqueles que não irão pagar a conta depois da
tempestade. A solução para a crise que vivemos começa quando nosso sistema
político resolver se desligar do “modo internet” e do clima de permanente
campanha eleitoral em que se meteu.
Ou então terminaremos como
naquele filme de Pasolini, com sua estranha mistura de nonsense e
divertimento sádico, em meio à tragédia.
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