Como desviar a atenção
Não
caia mais nessa!
Pedro Doria
Jornalista
e Escritor
O filho Zero Três não está nem aí para a
China.
Mas conseguiu tirar parte do foco da
incompetência de seu pai
na lida com a pandemia, agradar os seguidores
e evitar
que redes e jornais fossem dominados pelo
panelaço

No final da tarde de quarta-feira [18 de março], o deputado
Eduardo Bolsonaro partiu para um inacreditável ataque contra a China, no
Twitter, acusando seu governo de ser responsável pela pandemia do novo
coronavírus. Naquela noite, ocorreu o segundo e, até agora, mais extenso
panelaço contra o governo Jair Bolsonaro. Nesta semana, estudos
começaram a mostrar que a má conduta do presidente perante a crise sanitária
pela primeira vez criou fissuras em sua base online. Todos esses eventos estão
diretamente relacionados um com o outro.
A tática do filho Zero Três [Eduardo Bolsonaro] é
velha conhecida dos Bolsonaros.
Quando alguma crítica começa a pegar num lado,
cria-se uma crise no outro de forma a esvaziar
o debate inicial.
A família presidencial não inventou o truque. Ele faz parte
do arsenal que vem sendo desenvolvido por uma aliança informal e
internacional de extremas direita que têm até sua própria rede social. O Gab.
Pegue-se o maior mestre dessas práticas no Twitter – o
presidente americano Donald Trump. Seu arsenal na rede é vasto, mas há duas
ferramentas que usa toda hora.
Uma é dar apelidos àqueles de quem não gosta. Seja
nome de jornais que fazem uma cobertura dura (“the failing New York Times”),
seja de adversários políticos (“crooked Hillary Clinton”). Trump mantém a marca
sempre. Se vai citar um destes, é com o apelido. A outra ferramenta é o uso
de uma linguagem direta, uma lógica simplista ao ponto de ignorar
quaisquer complexidades do mundo real, não raro salpicada de erros
ortográficos.
Quem pensa em política de forma tradicional se perde. Um
presidente da República deveria estar preocupado em compreender os problemas em
sua profundidade. Deveria falar não apenas com um grupo restrito de
seguidores fanatizados, mas com todos. E deveria agir com educação, sem
gerar atritos, porque negociar com todos faz parte da descrição de
trabalho.
O problema é que Trump não compreende assim ser presidente.
Para ele, é um jogo de manutenção de poder, derrota do outro e apenas. O
objetivo não é governar. É ganhar. Visto dessa forma, sua atuação faz todo
sentido.
Ao consistentemente atacar de forma humilhante aqueles que
ele percebe atrapalharem sua vitória, envia um sinal para seus seguidores. Os
apelidos marcam as pessoas. Assim, políticos e repórteres passam a ser
constantemente assoberbados de mensagens com ataques partindo de todo o país, a
toda hora. Aqueles que ganham apelidos de Trump vivem as redes sociais como
um pesadelo constante. É abrir e um turbilhão de ataques aguarda, vindo de
milhares de pessoas. Um dia após o outro, abala psicologicamente. Gera ruído na
comunicação.
Sempre que um repórter ou um político gasta tempo respondendo
as pessoas que brutalizam, ele sai do foco das críticas à atuação do
presidente. É uma forma de neutralizar.
Os erros de ortografia, as lógicas simplistas, incoerentes ou
mesmo fantasiosas, seguem caminho similar. Porque professores, jornalistas,
políticos e especialistas terminam por responder. Assim, Trump pauta o
debate. Aquele debate inútil sobre o nada domina as plataformas das redes
sociais. E os pontos pelos quais ele vinha sendo criticado são esquecidos. No
fundo, o objetivo é gerar ruído e confusão, fazer com que inúmeros debates
ocorram em paralelo, é fazer com que seus críticos percam tempo e percam foco.
Funciona.
O filho Zero Três [Eduardo Bolsonaro] não está nem aí para a
China. Mas conseguiu tirar parte do foco da incompetência de seu pai na lida
com a pandemia, agradar os seguidores e evitar que redes e jornais fossem
dominados pelo panelaço.
Mas a maioria dos brasileiros não fica ligada no Twitter o
tempo todo.
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