A incompetência americana
Qualquer
semelhança não é mera coincidência
Fareed Zakaria
Colunista
do jornal norte-americano
“The
Washington Post”
Os Estados Unidos terão o pior surto de
covid-19 entre os países ricos
devido à ineficácia do governo
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FAREED ZAKARIA Autor deste artigo |
Quando uma
crise atinge os Estados Unidos, o instinto geral do país é pegar a bandeira e
desejar o melhor para seus líderes. É provavelmente por isso que o presidente
Donald Trump tem visto seus índices de aprovação crescerem, mesmo depois de ter
tido uma abordagem atrasada e vacilante contra a pandemia. Mas, em algum
momento, nós, americanos, devemos olhar os fatos e reconhecer uma realidade
desconfortável. Os Estados Unidos estão a caminho de ter o pior surto de
coronavírus entre os países ricos, principalmente devido à ineficácia de seu
governo. Essa é a nova face do excepcionalismo americano.
Os Estados
Unidos já têm o maior em número de casos de covid-19 no mundo, superando
até a China. A primeira linha de defesa contra a doença é o teste. Nessa
métrica-chave, a experiência nos Estados Unidos foi um fiasco: começamos
tarde, usando um teste defeituoso e nunca nos recuperamos completamente
desse primeiro momento.
A
mentira como método
A afirmação
de Trump de que “qualquer pessoa que queira fazer um teste pode fazê-lo”
é uma farsa cruel. O acesso aos testes continua muito pior do que nos
países mais desenvolvidos. Sua afirmação de que os Estados Unidos testaram
mais pessoas do que a Coreia do Sul não faz sentido, porque não leva em
conta que a Coreia do Sul tem um sexto da população americana.
Proporcionalmente,
a Coreia do Sul fez cinco vezes mais testes que os Estados Unidos, se
compararmos até a última quarta-feira. Mas esqueça a Coreia do Sul. A Itália,
um país que não é conhecido pelo bom funcionamento de seu governo, proporcionalmente,
testou quatro vezes mais que os Estados Unidos.
Os Estados
Unidos têm escassez de tudo – respiradores pulmonares, máscaras, luvas,
aventais – e nenhum sistema de emergência nacional para fornecer novos
suprimentos rapidamente. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, diz que
seu Estado precisará de 40 mil leitos para tratamento intensivo. Tem apenas 3
mil. Isso significa que muitos pacientes morrerão simplesmente porque
não terão acesso aos cuidados disponíveis em circunstâncias normais.
Nem
completamos três semanas direito dessa pandemia e os profissionais de saúde
estão reutilizando máscaras, costurando as suas em casa e implorando por
doações. Em um ensaio cáustico na revista The Atlantic, Ed Wong
escreve:
“Sem rumo, de olhos vendados, letárgico e descoordenado,
os Estados Unidos lidaram mal com a crise da covid-19 em um nível
substancialmente pior do que aquele que todo especialista em saúde com quem
falei temia”.
As
causas desse colapso
Por que
isso aconteceu? É fácil culpar Trump, e o presidente foi incompetente desde o
início. Mas há uma história muito maior por trás desse fiasco. Hoje, os
Estados Unidos estão pagando o preço:
* pela
redução de financiamentos do governo,
*
politização de órgãos independentes,
*
fetichização do controle local e
* degradação
e depreciação dos funcionários e burocratas do governo.
[Nossa! Como tudo isso se parece com o Brasil!]
Nem sempre
foi assim. Historicamente, os Estados Unidos valorizavam o governo limitado,
mas eficaz. Em O Federalista, Alexander Hamilton escreveu: “Um
governo mal executado, o que quer que seja em teoria, deve ser, na prática, um
mau governo”. Franklin Roosevelt criou a burocracia federal moderna,
que era surpreendentemente enxuta e eficiente.
Nas últimas
décadas, à medida que o escopo do governo aumentou, a burocracia passou fome
e se tornou cada vez mais disfuncional. Na década de 1950, o porcentual de
funcionários civis federais, em comparação ao emprego total, estava acima de
5%. Hoje, caiu para menos de 2%, apesar de uma população duas vezes maior e um
PIB sete vezes maior (ajustando a inflação).
Os órgãos
federais não têm funcionários suficientes, mas são sobrecarregados
com montanhas de regulamentos, mandatos e regras politizadas, dando às
autoridades pouco poder e arbítrio. As regras complicadas e a burocracia da
FDA, entidade responsável pela avaliação e regulamentação de alimentos e
medicamentos – que se mostraram um grande problema neste caso –, são apenas um
exemplo entre centenas.
DONALD TRUMP Presidente dos Estados Unidos e, ao lado esquerdo dele, o vice-presidente Mike Pence |
Acadêmico
que há muito estuda esse tópico, Paul Light, observa que, sob John
Kennedy, os departamentos do gabinete tinham 17 “camadas” de hierarquia. Quando
Trump assumiu, havia impressionantes 71 camadas. Ambas as partes contribuíram
para o problema, tornando o governo federal uma caricatura de ineficiência
burocrática.
A maioria
dessas disfunções é replicada em nível estadual e local com suas instituições
menores. O desafio de criar uma estratégia nacional é complicado pela realidade
de que o verdadeiro poder da saúde pública reside em 2.684 sistemas
estaduais, locais e tribais, cada um zelosamente protegendo sua
independência. Gostamos de celebrar o federalismo americano como o
florescimento da democracia local. Mas essa colcha de retalhos louca de
autoridade está se revelando um pesadelo ao enfrentar uma pandemia que
não conhece fronteiras, e onde qualquer local com uma resposta fraca
permitirá que a infecção se espalhe para outros lugares. O que acontece nas
praias da Flórida não fica nas praias da Flórida.
É fácil
usar a desculpa de que os Estados Unidos não podem refletir como um espelho a
ditadura da China. Os governos que estão lidando com essa pandemia de forma
eficaz também incluem democracias como Coreia do Sul, Taiwan e Alemanha. Muitas
das melhores práticas empregadas em lugares como Cingapura e Hong Kong não são
tirânicas, mas inteligentes:
* testes,
*
rastreamento de contatos e
*
isolamento.
Mas todos
esses lugares têm governos bem financiados, eficientes e receptivos. No
mundo de hoje, com problemas que atravessam fronteiras na velocidade da luz,
“governo bem executado” é o que torna um país verdadeiramente excepcional.
Traduzido
do inglês por Romina Cácia.
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