O que dá certo contra o vírus
Estudo
vê eficiência em confinamento e
no
aumento de testes
Roberta Jansen
Artigo
de cientistas de Oxford, Harvard e Pasteur
aponta
que medidas de chineses detiveram a covid-19
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Cidade de Wuhan, China Durante as drásticas medidas que impediram a mobilidade de pessoas |
“As
drásticas medidas de controle implementadas na China reduziram substancialmente
a disseminação da covid-19.” Essa é a principal conclusão de um
estudo internacional divulgado nesta quarta-feira, 25 de março, na “Science”,
assinado por cientistas de alguns dos principais centros de pesquisa do mundo,
como Universidade de Oxford, no Reino Unido, Universidade de Harvard, nos Estados
Unidos, e Instituto Pasteur, na França.
Os autores enfatizaram que
as medidas de distanciamento social funcionam,
mas é necessário esperar algum tempo para que os seus efeitos positivos sejam
notados. Em pronunciamento oficial na noite desta terça-feira, 24, o presidente
Jair Bolsonaro exortou a população a não cumprir as medidas de isolamento.
Entre outras medidas
drásticas adotadas pela China, estão:
* a quarentena
de cidades inteiras,
* o fechamento
de serviços não essenciais e
* a restrição
nas viagens aéreas.
O estudo foi feito com dados
de plataformas móveis, obtidos em tempo real, na cidade de Wuhan [China],
epicentro da epidemia.
O novo coronavírus foi
detectado no fim de dezembro do ano passado e rapidamente se espalhou pela
China. Os especialistas rapidamente perceberam que, no ínicio da epidemia, a
distribuição dos casos de covid-19 em Wuhan acompanhava a mobilidade da
população. Depois da implementação das medidas de controle, essa correlação
cai drasticamente, comprovando que as iniciativas drásticas de restrição de
mobilidade foram eficazes.
“As
intervenções implementadas incluem o aumento da testagem,
o rápido
isolamento dos casos suspeitos, dos casos confirmados e
das pessoas
que tiveram contato com eles”, diz o estudo.
“Notadamente, foram adotadas
medidas de restrição na mobilidade impostas em Wuhan já no dia 23 de
janeiro. Restrições de viagem foram impostas em 14 outras cidades da província
de Hubei logo depois.”
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Primeira página do artigo publicado pela revista Science |
De acordo com o estudo, as
restrições de viagens são particularmente eficientes nos primeiros estágios,
quando a epidemia está ainda confinada a uma determinada área que funciona como
a fonte da disseminação do vírus. Entretanto, dizem, podem ser menos eficazes
depois que epidemia já está mais espalhada.
“A combinação de
intervenções adotadas na China foram claramente bem sucedidas em reduzir a
disseminação e a transmissão local da covid-19”, concluíram. Os cientistas
calcularam que a adoção dessas medidas atrasou a disseminação do vírus
em pelo menos três dias.
“As províncias chinesas e
outros países que já conseguiram deter a transmissão interna da covid-19 devem
considerar cuidadosamente como pretendem liberar as viagens e a mobilidade para
que a doença não retorne à população”, afirmou Moritz Kraemer, da
Universidade de Oxford, principal autor do estudo.
Brasil teria mais de 17 mil casos de
coronavírus
do que o notificado oficialmente
Roberta Jansen
«Estamos
vendo a ponta de um grande iceberg»,
diz
Roberto Medronho, da UFRJ

O Brasil teria hoje mais de
17 mil casos do novo coronavírus – 9 vezes mais do que os 1.891 registrados
oficialmente [até este momento, já são 2.915 casos confirmado]. O número de
mortes poderia passar de 300, hoje oficialmente são 34 [77 mortos, até o
presente momento]. A estimativa é do Centro para Modelagem Matemática de
Doenças Infecciosas da London School of Tropical Medicine, do Reino
Unido, que fez uma estimativa da subnotificação da covid-19 em vários países. O
levantamento mostra que no Brasil apenas 11% do total de casos foram
diagnosticados.
“Estamos vendo a ponta de
um grande iceberg”, afirmou o epidemiologista Roberto Medronho, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, que não participou do estudo, mas
analisou os dados a pedido do jornal O Estado de S. Paulo. “As minhas
estimativas eram bem similares, cerca de 10%, mas isso não é, necessariamente,
uma falha do sistema.” Isso acontece, segundo especialistas, porque a
maioria (cerca de 80%) dos casos da infecção pelo novo coronavírus é
assintomática ou apresenta sintomas muito leves e acaba não sendo
diagnosticada. Atualmente, no Brasil, apenas os casos mais graves, que
chegam aos hospitais e são testados, recebem o diagnóstico oficial."
"Dentre os casos que
apresentam sintomas, apenas uma parte procura o sistema de saúde",
explicou Medronho. "Desses que vão ao hospital, apenas parte é
diagnosticada como covid-19 e outra parte pode receber um diagnóstico
impreciso. E ainda tem casos que não são notificados oficialmente."
O mesmo estudo mostra que na
Itália, que enfrenta uma das piores epidemias, o percentual de casos
diagnosticados corresponderia a apenas 4,6% do total real. Número parecido
com o da Espanha, 5,3%. França e Bélgica têm percentuais similares ao do
Brasil, respectivamente 9,2% e 12%.
Por outro lado, nos países
que tiveram resultados melhores na contenção da epidemia, como a Coreia do
Sul e a Alemanha, os percentuais de casos diagnosticados seriam
bem mais próximos do número real, respectivamente 88% e 75%. Isso ocorre
porque esses países tiveram condições de testar a grande maioria de sua
população – mesmo a que não apresentava sintomas – isolando imediatamente todos
aqueles cujo teste deu positivo.
Por isso a
Organização Mundial de Saúde (OMS) insiste que a testagem em massa é
fundamental. O problema é que não há testes disponíveis na escala que
seria necessário para o Brasil, com 210 milhões de habitantes. "Esse
levantamento mostra que a estratégia de testagem em massa e isolamento daqueles
que testam positivo tem um grande impacto na redução da curva de crescimento da
doença", explicou Medronho. "A redução da subnotificação é
importante e é crucial que o ministério esteja se adequando a essa
diretriz, e aumentando a testagem."
Embora o estudo tenha sido
feito por uma das mais respeitadas instituições científicas do mundo, ele não
foi ainda publicado em uma revista científica, o que significa que também não
foi revisado por outros especialistas. Esse procedimento é aceitável em um
momento de pandemia, em que a rapidez na divulgação de informações como essa
pode ser importante para elaborar e aprimorar políticas públicas.
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