A L E R T A ! ! !
Agência
de inteligência do governo federal (Abin)
fala
em 5,5 mil mortes em 15 dias
Rafael Moro Martins, Leandro Demori
Presidente
Jair Bolsonaro sabe que está blefando
quando
minimiza a crise do coronavírus
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JAIR BOLSONARO Presidente da República do Brasil |
APESAR DAS DECLARAÇÕES em
que tenta minimizar a gravidade da epidemia do novo coronavírus, Jair
Bolsonaro recebe relatórios da Abin, a agência de inteligência do governo
federal, que deixam claro o impacto da doença no Brasil. O mais recente
deles projeta que 5.571 brasileiros deverão morrer por covid-19 até 6 de abril
– ou seja, em duas semanas.
O Intercept teve
acesso aos informes da Abin – classificados como sigilosos e enviados também a
agentes de governos estaduais. Os relatórios deixam ainda mais evidente o desprezo
do presidente da República pela população: mesmo informado sobre quantas
pessoas podem morrer, Bolsonaro segue fazendo pouco caso da emergência. Nesta
terça à noite [24 de março], ele desdenhou da ciência e da imprensa antes de
pedir o fim de medidas de confinamento.
Leia,
na íntegra, o último relatório da Abin sobre a covid-19,
clicando
abaixo:
No Brasil, prefeitos e
governadores tomaram as rédeas da crise. Muitos instituíram quarentena à
revelia do que pensa o governo federal.
A China conseguiu diminuição
na taxa de crescimento cerca de 10-15 dias depois da adoção de medidas de
contenção, inclusive com lockout (fechamento da entrada e saída de pessoas) em
municípios e cidades. A partir desse período o número de casos novos parou de
crescer na mesma taxa e o número de casos ativos começou a reduzir em função da
melhora dos pacientes mais antigos”, relatam os agentes.
O documento também deixa
claro que “a taxa de letalidade no Brasil ainda é baixa quando comparada a
outros países e aos dados da Organização Mundial da Saúde – OMS”, mas que “é
importante considerar que o país se encontra no início da epidemia”.

Colapso
nas UTIs em 15 dias
A Abin preparou uma projeção
da demanda por leitos de UTI em duas semanas caso a curva da epidemia no Brasil
seja semelhante à de Irã, Itália e China. Nesse caso, a Abin avalia que 10.385
leitos – ou 17,4% dos quase 60 mil disponíveis no país – estarão ocupados por
doentes com casos graves de covid-19.
A análise, diz a agência, é
imprecisa, porque “o Ministério da Saúde divulga os dados dos casos confirmados
e dos óbitos por COVID-19, o que não permite fazer projeções mais precisas
sobre o crescimento dos casos no país”.
Se o percentual parece
pequeno quando se olha para a média nacional, a impressão muda ao se analisar a
situação dos estados mais afetados pela doença. No Ceará, Distrito Federal,
Santa Catarina e Acre, casos graves de infecção por coronavírus demandariam
46,3%, 44,5%, 30,6% e 30,4% dos leitos de UTI, respectivamente. Em apenas duas
semanas.
Apesar de concentrar a
maioria dos casos até agora – e da tendência a manter-se nessa posição –, São
Paulo chegaria a 6 de abril com 25% das vagas em UTIs ocupadas por doentes de
covid-19. Isso se deve ao fato do estado ter a melhor rede hospitalar do país.
Há um outro dado do próprio
levantamento que agrava o caráter sombrio da análise – a taxa atual de ocupação
das UTIs, segundo o Ministério da Saúde informou à Abin, gira entre 80% e 90%.
Quer dizer – o governo federal sabe que, em duas semanas, já deverá faltar
vagas em terapia intensiva no país.
Mais
de 5 mil mortos e 200 mil casos
A mesma curva de progressão
– a de China, Itália e Irã – é usada para projetar a mortalidade da doença
daqui a duas semanas. Se o coronavírus se propagar aqui com a mesma
velocidade com que se espalhou por China, Itália e Irã, o Brasil chegará a 6 de
abril com 5.571 mortos e 207.435 casos da doença.
Um segundo cenário, menos
sombrio, mas também menos provável, também é traçado pela Abin. Nesse caso,
a epidemia no Brasil cresceria às mesmas taxas observadas na França e na
Alemanha – países cujos líderes tomaram medidas duras contra o coronavírus, em
vez de menosprezá-lo e agir para atrapalhar iniciativas de governadores e
prefeitos.
Ainda assim, chegaríamos
a 6 de abril com a covid-19 matando 2.062 pessoas.
Leia
sobre isso, no relatório da Abin, clicando abaixo:
Uma ressalva importante: as
projeções da Abin são feitas diariamente e a partir dos números divulgados pelo
Ministério da Saúde e de comparações com as curvas de avanço da epidemia
noutros países. Assim, eles podem variar bastante de um dia para outro. Na
análise de 22 de março, por exemplo, a agência projetava 8.621 mortes até 5 de
abril caso a covid-19 avançasse por aqui em ritmo semelhante ao que teve na
Itália – quase 60% mais do que a previsão feita no dia seguinte.
Quer dizer – os números
estão longe de serem definitivos. Mas todos eles enfatizam a gravidade da
situação, que o presidente e seu núcleo duro insistem em relativizar.
E ainda há um outro ponto a
considerar.
Curva
inferior às de Itália e EUA. Mas…
Em um terceiro documento,
também enviado ontem, a Abin compara as trajetórias do avanço da epidemia na
Itália, Estados Unidos e Brasil a partir do dia em que os três países chegaram
a 150 casos.
Leia
este documento, na íntegra, clicando abaixo:
Por aqui, ontem (segunda-feira,
23 de março) completaram-se dez dias desde que essa marca foi atingida com
1.891 casos notificados ao Ministério da Saúde. Para efeitos de comparação, dez
dias após chegarem à marca de 150 doentes confirmados, Itália e EUA já tinham,
respectivamente, 2.502 e 2.247 casos.
Mas algumas ressalvas devem
ser feitas. Foi justamente dez dias após a marca de 150 casos confirmados que
os EUA massificaram a realização de testes – como mostra essa reportagem, em
inglês [para ler, clique aqui].
Com isso, 19 dias após a marca de 150 casos, o país já tinha 33.546 doentes
diagnosticados – mais que o dobro do que a Itália tinha no mesmo momento da
epidemia (15.113).
Fazer testes em massa foi
essencial para que a Coréia do Sul conseguisse deter o avanço do coronavírus e
reduzir o número de mortes. Por aqui, o Ministério da Saúde anunciou no sábado,
21, a compra de 5 milhões de testes. Mas eles só devem chegar a hospitais e
postos de saúde no dia 30 – ou seja, um mês após o Brasil registrar seus
primeiros 150 casos.
Até lá, a situação já poderá
estar fora do controle. Como na Itália.
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